segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O ano da minha vida.



Em 2007 perdi o amor da minha vida. Ganhei o outro amor da minha vida. Você, Francisco, fez do fim um começo. Foi como um rèveillon de um amor para outro.

Em 2007 aprendi o que é amor. Não só porque começou a crescer o meu amor por você. Mas porque entendi que o meu amor pelo seu pai também cresce à medida que eu o conheço pelos olhos dos outros. E à medida que conheço você, filho. Assim a nossa história continua.

Em 2007 aprendi o amor por mim mesma. Descobri que posso viver sem o seu pai. Posso e devo ser feliz sem ele. E isso é o mais bonito do nosso amor. Entender que seu pai ficou em mim, mas não levou um pedaço meu. Um amor que nada rouba, só acrescenta.

Em 2007 eu não me fechei para novos amores. Pelo contrário: passei a acreditar mais no amor.

Em 2007 entendi o quanto os meus amigos são preciosos. São todos meus amores.

Do amor pari você. Da dor pari esse blog. Hoje tenho quem me lê. Em 2007, descobri que sei escrever.

Um ano atrás eu comemorava com seu pai a chegada de um ano bom, filho. E tinha a certeza de estar entrando num dos melhores anos da minha vida. Ainda tenho essa certeza. Foi um ano surpreendente. Com todos os perigos e delícias que essa palavra traz. Mas foi um ano grande demais.

Então o que desejo para 2008 é que ele seja menos ambicioso. Que não tenha grandes acontecimentos, mas que seja sempre alegre, sereno, leve. Que seja de paz. E acima de tudo, que eu tenha o seu sorriso iluminando o meu dia.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A passagem.

Ao chegar na pousada em Ilha Grande, sabíamos que iríamos encontrar apenas o nosso quartinho desocupado. Já viajamos preparados para encontrar uma grande turma por lá. Uma turma que a gente nunca tinha visto na vida.

Pousada simples, banheiros coletivos, quartos bem perto um do outro, comida caseira e uma praia calma. Já conhecíamos o lugar. Perfeito pra gente ficar quieto e esperar o ano chegar. E eu estava ansiosa pela vinda de 2007. Finalmente você iria nascer, e acho que esperei bem mais que nove meses por isso.

Embora a turma fosse de São Paulo e nós, de Belo Horizonte, a amizade aconteceu rápido. Mesmo porque, seu pai era praticamente paulistano: nasceu no interior do Piauí porque a família morava lá na época, mas foi bebezinho pra São Paulo e só alguns anos depois é que veio morar aqui. O fato é que em poucas horas estávamos sentados contando piadas. E a sua mãe, filho, conta piada feito um homem. Chega a juntar gente em volta.

Nosso quartinho era bem pequeno. Pequeno mesmo. Mas de frente para o mar. E foi lá, diante de um mar verde e transparente, que você começou a se mexer de um jeito engraçado na minha barriga. A essa altura eu já podia sentir suas mãozinhas ou pezinhos apontando, indo de um lado para o outro, o que causava uma certa aflição no seu pai. A mim só causava alegria a sensação de você se espreguiçando ou lutando por mais espaço dentro de mim. A cada dia você era mais de verdade.

Um dia de chuva, dois, três. Chegamos a pensar em voltar antes do tempo. Mas fomos ficando – assim como a chuva. Eu me lembro de um diazinho de praia, em que fomos convidados para um passeio de barco. Na hora H, seu pai resolveu desistir. Achou que seria cansativo pra mim. E, embora eu insistisse, não quis ir sozinho. Minhas costas doíam, já não era fácil dormir. E a cama, eu confesso, estava bem apertadinha. Se para dois ela já era pequena, imagine pra nós três. Durante o dia, sem medo do ridículo, seu pai levava cadeira e travesseiro para onde quer que eu me alojasse na praia. Era ele cuidando da família.

Tão logo o tédio tomou conta, começamos a fotografar objetos do quarto, pés, pernas, mãos. Líamos em voz alta. A gente tinha que inventar o que fazer. E não perdíamos o bom humor. Depois veio o tédio de só comer peixe. E ele passou a sonhar com “carninha”, lembrando os tempos de criança internado no hospital pra curar o pezinho.

Mas tinha tantos novos amigos. Então viajamos para dentro deles – e isso valeu mais que os mergulhos no mar.

Eles tinham ido dispostos a organizar um réveillon na beira da praia. Acabamos participando. Seu pai fez barquinho de bambu, eu ajudei a colocar velas em latinhas de cerveja. Foi uma noite especial de passagem de ano, e isso veio de brinde no pacote. Era uma festa entre amigos e tínhamos a sorte de estar entre eles.

Seu pai dançava em paz e feliz. À meia-noite nos beijamos emocionados pelo que estava por vir. Era muito amor num lugar só. Não tinha como não pensar que aquele seria o ano perfeito.

Lembro desses dias com alegria. Mas de vez em quando tenho uma sensação estranha ao olhar para o ano que praticamente passou. Por alguns momentos, sinto como se eu tivesse parado no tempo. Parece que ainda estou diante de 2007, mas ele já foi. Em outros, sinto que o tempo correu rápido demais e acabou por me distanciar de lembranças importantes. Escrever aqui é exercício necessário para colocar os pés no chão.

Dois meses depois você estava nascendo. “Então é verdade?”, foi o que eu perguntei ao ver seus pezinhos pela primeira vez. Acho que foi a primeira parte sua que eu vi.

Hoje estou diante do seu sorriso, seus gritinhos, seu bom humor. Seus olhos que comentam cada situação de um jeito bem seu. Cada dia é mais verdade a sua presença, como a cada dia é mais verdade a ausência do seu pai. Tanto, que às vezes levo um susto ao deparar com a lembrança dele, como se sua existência tivesse se transformado suavemente num sonho. Mas então eu olho pra você e confirmo: sim, é verdade. É verdade você e o que vivi com seu pai. É verdade essa história que não acaba. É verdade esse amor que só cresce.

Em 2008, vai ser maior ainda.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Seu primeiro Natal foi com ele.


Em um dia de dezembro do ano passado, não sei por que, sugeri a seu pai que fizéssemos um jantar aqui em casa, para alguns amigos queridos. E ao jantar dei o nome de "Primeiro Natal do Francisco". Ele adorou a idéia. Tinha um prazer enorme em cozinhar para os amigos. E tinha um motivo e tanto para comemorar: éramos uma família. Por uma deliciosa coincidência, nossos amigos Cecília e Gustavo, que moram na Suécia, estariam presentes naquele fim de semana e finalmente poderíamos conhecer Matteo, nascido por lá. E este foi o seu Natal com seu pai, filho. Você, tão pequeno dentro de mim, fez nascer um sorriso novo naquele rosto e, com ele, um entusiasmo para ser ainda mais intenso e carinhoso. Juntos sonhávamos com o Natal de 2007, imaginando o quanto você estaria fofo aos nove meses e como esse nosso Natal seria feliz. Ele resolveu transformar essa alegria em presentes para cada um da família. A começar por seus primos, filhos dos meus irmãos, que ele estava orgulhoso em chamar de "meus sobrinhos". Hoje faz exatamente um ano que passamos o início da noite com minha família e a outra parte com a família do seu pai, com quem vamos passar hoje de novo, tentando driblar essa falta. É a nossa família, filho. Vai ser difícil não me lembrar do seu pai entregando um presente nosso para cada um dos irmãos, depois para seu avô e sua avó. Como também não dá pra esquecer a Vovó me presenteando e dizendo o quanto tinha sonhado com alguém que amasse o seu pai naquela medida. Fica também a imagem do pote de geléia de morango que ele preparou para cada um dos meus irmãos, primos e tios, inclusive para os que nem conhecia, embalando e personalizando um a um com delicadeza. Alguns ganharam o presente e nem chegaram a conhecer seu pai. Mas sentiram o sabor da sua presença. Aqui, ali, em qualquer lugar: se não há mais o seu pai, ficou o seu aroma. E esse não vai sair de perto de nós.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Olhar de amor.

De: guifraga
Data: 30 de novembro de 2006 15h42min17s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: a foto qeu vc tirou

amor, a foto que vc tirou de mim ficou linda.
vc é um amor.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Afogando.

Há dois meses entramos na natação, eu e você juntos. Eu queria aproveitar esse seu prazer de estar na água. O nome da modalidade é "Mãe na água" e eu fiquei animada para ter um momento só nosso. Achei que ia ser gostoso pra você e muito, muito fácil pra mim. Mas eu não tinha parado pra pensar num detalhe. Como hoje os pais participam muito mais da vida de seus bebês, alguns coleguinhas vêm acompanhados de seus respectivos pais, e não de suas mães. Fora o caso de duas gêmeas que vêm com os dois - a mãe cuida de uma, o pai cuida da outra. Então a maior dificuldade é da mamãe aqui. Ao conviver com todas aquelas famílias completinhas, bonitinhas, certinhas, eu é que acabo ficando sem ar. A última aula, por exemplo, foi a despedida do ano. Todas as turmas juntas numa piscina só. Acho que a professora temeu por mim e me avisou antes: "Traz um tio, um parente, a festa é da família". E eu convidei sua tia Tissa, que veio com aquele sorriso doce de sempre. Mal entramos na piscina, fizemos a rodinha do cumprimento entre as crianças e lá estava eu, chorando feito uma delas. Ainda bem que no meio da água eu pude disfarçar. Os pais hoje são muito participativos, filho. Devia ser mais fácil ser mãe viúva no tempo da minha avó.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Pode acreditar.

Com a ida do seu pai, fui obrigada a sonhar de novo todas as cenas que eu tinha imaginado pra nós três. A história continuava, mas agora tinha um personagem a menos – o que é bem difícil quando se trata de um dos principais. Com o coração doendo, mas também com algum humor, refiz o enredo e me preparei para momentos diferentes, mesmo que não menos importantes ou felizes. Embora eu saiba que, mesmo assim, a vida não vai perder a capacidade de me surpreender – para melhor, eu espero. Uma coisa que me preocupou de imediato foi como ensinar pra você o que é um pai. Por isso enchi seu quarto de fotos minhas com seu pai, fotos nossas de quando éramos pequenos, eu grávida, tentando fazer ali um cantinho que conta a história da sua vinda. E você chegou até aqui vendo essas fotos a toda hora, especificamente nas trocas de fraldas ou voltas do banho. Há muito você nota as fotos e olha para cada uma delas com interesse, por mais incrível que isso possa parecer para um bebê de oito meses e meio. Assim como aprendeu a bater palmas sem ninguém ensinar e já esboça um tchauzinho, você percebe que ali tem alguma coisa importante. No caso, uma pessoa importante, além de mim. E já relaciona essa importância com a palavra "papai". Não sei como vai ser quando você aprender a falar e esboçar um Papai ao ver a foto. Se vou rir ou se vou chorar compulsivamente. O que me preocupa mesmo é que você possa compreender quem ele é. Porque com o tempo tem até esse blog pra explicar, mas ainda vai demorar pra você aprender a ler e entender esses textos de adulto. E como o Natal está chegando, esses dias eu percebi que, enquanto as outras crianças acreditam em Papai Noel, talvez para você o mais importante seja ensinar a acreditar em pai. Acredite, filho. Ele era bem melhor que o Papai Noel. E mais bonito também.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Menino do Rio.



Presente da Tia Jana, cuja casa no Rio vamos conhecer em breve. Não pude ir ao Rio com seu pai, filho, mas vou com você.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Vivo.

Sua avó escreveu uma cartinha pra mim e me entregou nesse fim de semana. Tinha tanto amor nessa cartinha, filho. E apesar de ter feito latejar a minha dor pela falta do seu pai, me trouxe uma alegria de perceber que a falta também traz presentes. Ela falou da dor dela pela falta do filho, mas terminou a carta declarando o amor dela por nós dois – você e eu. Amor plenamente correspondido. Olhando para essa amiga-mãe que conheço e gosto mais a cada dia, vejo o seu pai declarando amor por nós. Um amor que não morreu com ele, porque é mais forte que a vida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Vocabulário.

Afinidade, filho, é quando a gente tem muitas coisas parecidas com alguém. Pode ser uma coisa que a gente gosta de fazer, uma coisa na vida que emociona a gente, pode ser uma vontade, um sonho — ou muitos deles. Afinidade também é o que faz duas pessoas quererem dormir de conchinha, por exemplo. Ou o que deixa a sensação de estar levando a outra pessoa com a gente, aconteça o que acontecer. Como se ela fosse uma parte de você e você, uma parte dela. A capacidade de fazer o outro rir é outra deliciosa afinidade. Rir é o que faz a gente voltar a ser criança. Quando alguém sabe rir e fazer rir, a gente diz que essa pessoa tem humor. E quando uma pessoa tem humor ela sabe rir principalmente de si mesma – até nas situações mais difíceis. Difícil é aquilo que dá trabalho. Ficar sem seu pai, por exemplo, é muito difícil. Mas se a gente se esforçar, a gente consegue. Até porque não existe outra solução. Solução é o que resolve um problema. Um dia você vai ter o seu primeiro problema de verdade, vai encontrar a solução e vai aprender com isso. Ou vai descobrir que ele não tem solução — e vai aprender a se conformar. Problemas são importantes pra fazer a gente crescer. Eu queria que você aprendesse afinidade, humor, problema, solução, vendo o Papai e a Mamãe juntos. Mas nem por isso eu vou ensinar pra você a palavra frustração. Na hora certa, você vai descobrir. E vai saber o que fazer com ela. Papai e Mamãe não vão poder estar juntos porque no meio do caminho tinha uma palavra que a gente também tem que aprender: a surpresa. Que é o que acontece pra nos mostrar que a vida não pode ser controlada. Surpresas podem ser boas, como a sua vinda, ou ruins, como a ida do seu pai. Por causa desta última, eu e você vamos ter que aprender afinidade de um outro jeito. Vamos aprender juntos. Não sou só eu que vou ensinar significados pra você. Você também ainda vai me ensinar novos sentidos para muitas palavras, como está me ensinando um muito especial para a palavra amor. E tudo isso só aconteceu porque eu e seu pai tínhamos uma afinidade muito grande.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Cheiro de saudade.

De: guifraga
Data: 4 de agosto de 2006 17h34min40s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: só pra dar um cheirinho

amorzinho. é só pra te dar um beijo bom. pra encostar em vc. pra colar meu rosto no seu, assim bem de levinho.

um beijo bom, gui

Lindo.


Seu pai pensando na vida.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Pele.

Seu pai dizia que eu tinha "a pele mais macia do mundo".
Imagina, filho, se ele pudesse tocar você.