sábado, 29 de março de 2008

Meu atleticaninho.


O que eu admiro em você, filho, são essas escolhas certas que você já faz tão cedo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Sem saída.


É assim todo dia. Toda vez que ouço a sirene de uma ambulância. Sentada ao volante do carro, parado ou não, eu me lembro de ouvir uma sirene que eu sabia ser em vão. De uma última esperança que não pensa, não raciocina, só faz correr para salvar. Lembro dessa burrice bonita de que é feita a última esperança. Eu me lembro de insistir em não acreditar no que meus olhos gritavam para eu ver. Lembro de um buraco na porta, de uma porta que era só uma das coisas que naquele momento me separavam dele. Lembro de finalmente conhecer o que seria capaz de nos separar, o que seria capaz de me fazer desistir dele. Eu me lembro de lembrar do medo e então tudo fazer sentido. De uma vontade de estar errada, como das outras vezes. Eu me lembro de estar cercada por uma verdade. Minutos antes, um telefone que tocava, tocava, tocava. Antes ainda, um email sem resposta. Diante de mim, o silêncio e a não explicação. No pensamento, sonhos que eu não admitia mortos também. Atrás de mim, uma despedida que não foi. E acima da minha cabeça, um céu azul ensolarado, iluminado de realidade. Eu me lembro da dor de pensar que nunca mais haveria resposta. Lembro de um desespero e de voltar atrás na tentativa de não acreditar. Para que não me faltasse o ar. Lembro de um turbilhão de pensamentos rápidos envoltos por um mundo parado. Como se eu não respirasse, embora eu respirasse. Como se o meu coração também tivesse parado de repente. Como se permanecesse não batendo por instantes, minutos, horas. Eu me lembro de imaginar a suavidade violenta que deve ter sido aquele segundo entre o estar e o não estar mais. Eu me lembro de um silêncio agudo que ainda insistia. E de não saber para onde olhar. Lembro de uma dor ao olhar em determinada direção. E de ainda conferir, como se a qualquer momento a vida pudesse mudar de idéia, como se alguém estivesse prestes a desfazer aquela brincadeira de mau gosto. Eu me lembro de não entender. E de ter a certeza de que ele não estava mais ali. Entre mim e seu pai, a vida. A morte. Entre você e seu pai, eu. Eu me lembro. E talvez seja mesmo necessário lembrar. Para então sentir a intensidade. Eu me lembro de procurar essa lembrança – e isso faço todos os dias. Para doer de novo e assim acelerar o coração, inspirar e expirar forte. E então querer viver. Como quem se prepara para uma luta. Como adrenalina. Como uma fúria que, enfim, é força. Eu me lembro de uma lembrança que sempre volta urgente. Já faz mais de um ano, eu ainda me lembro e acho que nunca vou esquecer.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Susto.

Olhei para a minha escrivaninha hoje de manhã e deparei com o livro "O que esperar do primeiro ano". Que agora será doado a uma amiga querida – por obra do acaso ou não, ela espera o nascimento de Guilherme. Se abri esse livro dez vezes durante esse tempo, foi muito. Nem deu tempo de esperar nada, filho. E ainda assim foi surpreendente.

terça-feira, 25 de março de 2008

Evolução.

Estávamos na casa de uma amiga que também tem uma filha pequena - a Júlia, de 10 meses. No apartamento dela tem uma área livre, cimentada, e lá se foi você engatinhando cimento afora. Embora houvesse um espaço mais liso com brinquedos, eu já previa: ninguém poderia impedir você de seguir em frente. E não dá pra forrar o mundo com espuma, filho. Infelizmente não dá. Depois de algumas horas de vai-e-vem, com intervalos pra relaxar e brincar, acho que você sentiu o efeito do chão áspero sobre seus joelhos. Mas não se intimidou. Sem reclamar nem mudar a expressão, arrumou um jeito novo de ficar de quatro, simplesmente tirando os joelhos do chão e se apoiando apenas nos pés e nas mãos. O que mudou um pouco o seu ritmo, gerando uma dança engraçada. Parecia você comentando com o corpo sobre a peculiaridade da situação. E assim você continuou se divertindo e explorando onde quer que fosse, me deixando entre o riso e o orgulho. Se eu pudesse lhe dizer alguma coisa numa língua só nossa, seria: "a gente ainda é porquinho, mas já sabe se virar".

R de amor.

Ele tinha uma coisa gostosa do sotaque paulista - acho que é do paulistano. Uma puxadinha charmosa no R. Não era "abRe a poRta poRque tô com caloR", aquele redondinho do interioR paulista e do sul e Minas, fazendo uma conchinha com a boca. Nem era "o rrato rroeu a rroupa do rrei de Rroma" que é bem meu. Era um desenho do R com a língua no meio da boca, como se colocasse uma vogalzinha no meio: "Subir(e) em ár(e)vore". Eu me lembro que ele atendia ao telefone bem sério e quando do outro lado perguntavam quem tava falando, ele dizia: "Guilher(e)me". Depois mineiro é que é desconfiado. Saudade daquela braveza silenciosa do seu pai - seria paulista ou de cabra-macho piauiense? Você também é bravo, filho - e não é exatamente uma braveza silenciosa. Mas nem dá pra saber a quem você puxou: o que não falta é herança genética. Melhor assim. Como dizia Vovó Juju, "detesto gente panaca".

sábado, 22 de março de 2008

Um amor que deu certo.



A gente tinha acabado de saber da sua vinda. Era hora de produzir o comercial de rádio de uma campanha que eu mesma tinha criado - inspirada no próprio cliente e, confesso, no seu pai também – ele sabia viver. Seu tio Flávio, que era o produtor, nos convidou pra fazer a locução – não podia ter escolhido uma dupla que estivesse mais no clima. Ao contrário de mim, seu pai nunca tinha feito uma locução antes. Deu tudo certo. Saiu até beijinho no final, o que não estava no script. Ouve, filho. Olha como era linda a voz do seu pai.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A flor que ele plantou.

"Olha amor, eu não tô só. Tem as flores que plantaste. São ternuras que deixaste dentro do meu coração." (Dengo Maior - Gonzagão)

Demorei para identificar os sinais da sua chegada. Entre a dúvida e constatar que era pra valer, nem deu tempo de sentir medo. Um frio, muito mais que um frio na barriga. Uma emoção que não tem nome nem medida. Tão logo aqueles espasmos foram nomeados contrações, se tornaram mais freqüentes.

Junto com a sensação de ser um relógio cujos ponteiros corriam cada vez mais rápido, a certeza de finalmente estar a caminho de conhecer a pessoa pela qual esperei a minha vida toda. A pessoa que viria me renascer.

Eu esperava há 9 meses. Ou cinco anos? Ou 36? Eu esperava a minha vida toda por você. E era por você que eu tinha sorrido naqueles últimos dois meses.

Cada contração latejava um futuro e um passado. Doía o meu amor pelo seu pai. Doía ele não estar ali para viver comigo esse sonho. Doía a falta dele como doía intensamente a anunciação de uma próxima presença. Doía o amor que partiu e o que estava prestes a chegar. Dores alternadas. Uma física, muitas na alma. A primeira passou com a anestesia.

Mas entre uma dor e outra também pulsava alegria. E pulsava inteira, brilhava, pulando que nem criança em véspera de Natal, sonhando com o presente.

Durante a gravidez, por muitas vezes me peguei imaginando esse momento. Invariavelmente eu chorava. Às vezes comentava sobre isso com seu pai e o via fechar os olhos: “Amor, quando ele chegar vou enlouquecer.”

Aos 5 meses, freqüentamos o curso do casal grávido. Foi divertido, esquisito, inusitado, emocionante, delicado. Ele guardou todos os detalhes de muitas palestras e eu contava com sua memória para lembrá-los depois que você nascesse. Rimos dos vídeos de propaganda das filmagem de partos – cenas clichê dos maridos beijando as barrigas de suas mulheres, dançando com os dedos a calçar sapatinhos de tricô. Ele prestava atenção. Ele achava ridículo. Mas o fazia com classe. E a alegria de saber que, clichê ou não, ele seria pai também.

Entre uma contração e outra, talvez essas cenas tenham me vindo à cabeça. Talvez não. Uma vontade de chorar de alegria e de saudade, uma vontade de não ter sido assim. Mas não havia tempo para lamentar. O milagre se anunciava à minha frente. Finalmente ver o seu rosto, trazer você junto ao meu peito, acolher esse amor transformado em gente. Finalmente.

Cheguei à maternidade antes do médico. Aqueles vinte minutos, sim, pareceram nove meses. A caminho do bloco cirúrgico, a bolsa estourou. E como era quente o mundo em que você vivia. Difícil querer sair de lá. Mas você quis. Rápido, forte, intenso.

Enquanto família e amigos esperavam lá fora, lá dentro o Doutor Walter revezava entre o papel de médico e o papel de pai e companheiro. Sim, foi isso o que eu senti. Sei que ele sofreu comigo a perda do seu pai. Eram deliciosas nossas consultas e conversas a três. Pouco tempo a cada mês, mas o suficiente para que eles se gostassem e conhecessem suas delicadezas. Naquele momento, pacientemente, ele esperava a natureza seguir seu curso. As mãos serenas na minha barriga, parecia olhar pra mim como quem me admirava a coragem. Mas era dele a coragem.

Tia Tissa, minha irmã querida, também trouxe para bem perto a sua serenidade. Que alegria essa presença tentando suprir tantas faltas – quantas pessoas estariam representadas por ela naquele momento?

Se seu pai estivesse lá, talvez desmaiasse. Imagino que ele não teria suportado os odores fortes da sala de parto – tinha um olfato impressionante. Ou talvez não, talvez isso perdesse a importância diante do significado daquele momento. Acho que ele seguraria na minha mão ou me faria carinho na cabeça. E teria vontade de ser o primeiro a tomar você nos braços.

A dilatação aumentava e tudo corria perfeita e suavemente. Tudo corria rápido. E ao olhar para os olhos do Doutor Walter, era paz que eu via. Uma certeza de que tudo daria certo. Claro, com a preciosa ajuda da anestesia.

(Um minuto de silêncio em homenagem ao santo homem que inventou a anestesia.)

Um minuto de silêncio foi o que vivi naquele instante. Cinco horas de trabalho de parto e, vinte minutos depois de chegar à sala de cirurgia, você já despontava. “Já tô vendo que ele é bem cabeludo”, disse Doutor Walter. Ouvi o seu choro. Você tinha nascido. E foi então que eu chorei também.

Levei alguns segundos – o que para mim foram horas – até ver seus pezinhos perfeitos. Como o seu pai teria se emocionado nesse momento. “Então é de verdade?”, eu me lembro de ter dito ao ver você inteiro. E era.

Você chorava alto, forte. Quando o trouxeram para bem perto do meu peito, simplesmente parou. Você parou de chorar, filho. E veio para me fazer parar também.

Esse ano passou voando. Mas foi um vôo delicioso.

Feliz aniversário, meu amor.



quinta-feira, 20 de março de 2008

Se eu pudesse.

Mandava essa música pra ele ouvir.

terça-feira, 18 de março de 2008

Lavoisier.

Eu me lembro do desespero ao descobrir que ele tinha morrido e a minha paixão por ele, não. Em que outro objeto colocar essa paixão? E o tempo foi me ensinando que o amor é reciclável: não se joga fora. Mesmo porque, é de amor que o mundo precisa. Então transformei minha paixão pelo seu pai em paixão por escrever, em amor pelos amigos, pela família dele, em amor por você. É assim que eu quero seguir a vida: a cada amor novo, mais amor. Que se cria, sim, mas nunca se perde. E, principalmente: se transforma sempre.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Jack Jonhson está vivo.



Quando você for maior, filho, vai descobrir que nariz e ouvidos foram feitos para sentir, não para pensar. E vai experimentar a força de um aroma ou de uma música para trazer de volta as sensações mais antigas – e, só depois, trazer os fatos e pessoas por trás delas.

Nos dias seguintes à morte do seu pai, a parte mais difícil era ouvir a trilha que embalou a nossa história. De repente, num fechar de olhos, as canções que sempre me fizeram a alegria passavam a suscitar a maior dor do mundo. Se as músicas eram as mesmas, eu parecia não ser mais. Pensar que os olhos do seu pai tinham se fechado para sempre parecia fechar também a minha possibilidade de abrir um sorriso. A alegria de ouvir nossas músicas tinha perdido o sentido.

A pior parte era “Traffic in the sky”, do Jack Johnson, que talvez seja a primeira da nossa trilha sonora. Ainda hoje é difícil ouvir essa faixa sem ouvir de novo o som das nossas primeiras risadas, sem flagrar os olhos dele acompanhando os meus. São notas que me fazem sentir o cheiro, a pele do seu pai encostando na minha, o ritmo do seu corpo dançando. Notas que fazem nascer de novo a minha paixão por ele, com o mesmo frescor.

Lembrar é sentir de novo.

Ouvir qualquer disco do Jack Johnson me trazia primeiro uma alegria na alma e, depois, uma tomada de consciência que doía profundamente. Porque só mais tarde eu ia pensar de onde vinha aquela alegria – e era doído saber que vinha de um lugar que já não existia mais.

Até eu entender que muitos motivos daqueles risos também vinham do que estava à nossa volta. (A falta é a luz de um flash nos cegando por um tempo.)

Quando você tiver idade para entender isso, poderá desconfiar que a música que estou ouvindo agora pode ter sido determinante para o espírito do texto que você agora lê – e é interessante que um mesmo texto possa unir dois “agoras” tão diferentes.

Música era uma linguagem minha com seu pai, filho. Acho que foi por aí que começamos a nos gostar. Na época em que o email parecia mágica, ele usou muito esse recurso para me enviar, não informações, nem textos, mas pedaços de seu coração pulsando e de sua pele quente. Isso a internet faz muito bem: a tecnologia, tão exata, envia o inexato para tão longe. Ou para tão perto do coração.

Porque no nosso caso, trabalhávamos a dois metros de distância, um de frente para o outro. Ele podia dar dois passos e falar no meu ouvido, mas a coisa chegava de um jeito charmoso, silenciosamente, pela tela, enquanto, olhando um pouco por cima do computador, ele tentava ver minha expressão para me adivinhar a reação.

Nunca ninguém tinha entrado tão suave e profundamente na minha vida.

Se não eram ouvidas no carro ou em casa, as músicas chegavam por um filme a que assistíamos juntos, eram cantadas em dueto pelas estradas numa viagem qualquer ou nos conquistavam em danças improvisadas no meio da sala.

E é maravilhoso ver o que a música também é capaz de fazer com você, Francisco.

Mas o amor vai além.

Perder alguém com quem tínhamos tanta afinidade é perder alguém de quem já conhecíamos as reações, as preferências, um pouco da alma. O que se mostra na segunda etapa da saudade, que é quando começamos a ouvir novos discos – que, mesmo inteiramente novos, ainda têm o poder de trazer sensações parecidas com as dos momentos que passamos com quem nos falta.

Ainda hoje, ao conhecer músicas diferentes, me pego reconhecendo aquela que o tocaria. E até o imagino dançando. Ele no passado, a música no presente e a gente insistindo em desejar juntar os dois. É bem doída essa saudade do que não foi vivido.

Conhecer uma coisa nova e identificar nela o que agradaria o outro é sinal de muita intimidade, filho. E intimidade é uma das melhores conquistas na vida. Por muitas vezes me percebo falando do jeito que eu falava com ele, ou do jeito que ele falaria comigo. Por outras me pego dançando como se eu fosse ele. Como, então, ele não estaria presente?

Depois de alguns meses, como seu pai nunca mais ligou, eu me rebelei. E não admiti me separar também do que outrora tinha me trazido tanta alegria.

Aos poucos, fui fazendo as pazes com Jack Jonhson. E também com Finley Quayle, Madeleine Peyroux, Dinah Washington, Jorge Ben e tantos outros. Músicas que hoje me trazem apenas a sensação de alegria, sem trazer junto a dor da falta.

O Jack Jonhson não precisava morrer junto com o seu pai.

E assim, exercitando ouvir de novo a nossa trilha, fui aprendendo a reconstruir minha alegria. E o seu pai foi vivendo de novo, feliz, dentro de mim. Finalmente entendi que ao perdê-lo não fiquei sem um pedaço meu: um pouco dele é que ficou em mim.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Olhinho bom.

Ontem de manhã nós acordamos, fomos pra sala e deixei você sozinho por vinte a trinta segundos, no máximo. Quando voltei, você estava sentado no sofá, de costas para o encosto, com o meu livrinho da Audrey Hepburn nas mãos. O sofá fica ao lado daquela mesinha cheia de livros da Taschen, aqueles que a gente sempre tira da sua mão na hora H. Tive que ser rápida e silenciosa ou você caía de costas no chão. Nessas horas a gente se sente meio super-herói. Depois me sentei com você, folheamos o livro e eu lhe dei as primeiras lições sobre mulheres bonitas. Você é perigoso, filho. Mas tem um bom gosto de dar orgulho.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Uma carta, filho.

Não foi um telegrama, nem um email. Uma carta. Coisa que quase não se usa mais hoje – o que é uma pena, pois as cartas têm uma beleza que emails não têm. Escrita à mão. Num papel bonito, letra doce, carinhosamente dobrada e colocada num envelope. Decorada com borboletas em alto relevo. Uma carta do outro lado do oceano. Assim começou minha manhã de ontem no trabalho. Com uma carta da Nina, uma brasileira que mora na Alemanha. Como a Hellen, que me presenteou no outro blog, a Nina reservou um tempo da sua vida para se expressar, chegar mais perto. Um tempo dela de presente pra mim. Imagine, filho, que ela me pediu desculpas por isso. E existe algo mais valioso hoje? Dar um pouco do seu tempo de presente. Como cada um que escreve aqui. Para sublinhar um detalhe, contar uma história, um pouco da sua própria vida, ou mesmo só pra deixar um afago. Que vai direto ao meu coração. E esquenta, amacia, me faz sorrir. E me faz chorar, mas é de alegria. E eu chorei tanto, filho. Tanto. Por perceber que a Nina sentiu o meu amor. O amor que eu sentia pelo seu pai – e que ainda sinto. O amor que sinto por você. Por descobrir que, ao escrever para você, tenho falado com tantas pessoas. É frustrante não ter o tempo para responder a cada uma delas. Espero que elas saibam que, ao continuar escrevendo aqui, estou retribuindo. E sabe o que eu pensei com tudo isso, filho? Pensei uma coisa muito pretensiosa, mas é como eu estou me sentindo. Quando eu estava lendo essa carta, senti como se, ao ir embora, seu pai tivesse dito assim: “Vou. Mas fique com todo o amor do mundo no lugar do meu.”

quarta-feira, 12 de março de 2008

Filho.

Tenho repetido mais vezes a palavra "filho" e ela soa como música para meus ouvidos. Parece haver nela um encantamento, como se, por sua dose de amor, tivesse o poder de acalmar, curar, fazer dormir. Ainda é difícil acreditar que sou mãe. E o faço com o sorriso fácil, embutido mesmo na mais cansativa das tarefas. Confesso que nos últimos anos cheguei a pensar que não era para mim. E ao mesmo tempo em que parece um sonho, não consigo mais me lembrar de quem eu era antes de você chegar. Mesmo nos momentos de nervosismo, mesmo nas horas em que tudo o que sei é que não sei de nada: ser sua mãe é o que faço com mais gosto na vida. Faço sem pensar: porque faço, porque sou. Faz tão pouco tempo, mas é como se eu sempre tivesse sido.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Antes de ti.



Eu me lembro de decidir que iria ouvir essa música insistentemente. Como se eu tivesse ouvido uma recomendação médica: ligar o computador, olhar fixamente para a nossa foto juntos, ouvir a música e chorar. E repetir o exercício quantas vezes fosse necessário. Até esgotar o choro, até o cansaço superar a dor.

Era julho de 2005 e eu tinha acabado de viver os cinco meses mais sofridos da minha vida.

Meio ano antes, eu e seu pai nos apaixonamos. Começamos a namorar, mas ele não conseguiu seguir adiante. Sua separação tinha deixado marcas fortes. Ele não estava inteiro para se entregar.

Eu já tinha ouvido essa expressão outras vezes na vida, filho. Era difícil acreditar.

Ele se assustava com a certeza absurda do que eu sentia. Eu não escondia essa certeza. Era impossível.

Seu pai tinha saído muito machucado do casamento. Queria estar só por um tempo, reconstruir suas coisas, cuidar do seu novo apartamento, refazer seu espaço, retomar contato com gostos e sonhos. Queria cuidar dele, para então embarcar em uma nova relação. Está certo que eu queria muito ajudar, mas isso teria que começar por ele.

Acontece que nós trabalhávamos na mesma empresa. Na mesma sala. Um em frente ao outro. Diariamente, ele desfilava ao alcance dos meus olhos. Diariamente, eu tentava disfarçar o que estava estampado no meu rosto.

Ele tinha decidido não estar mais comigo. O coração dele, não.

Abraços, afagos, mimos, emails, músicas. Todo dia eu deparava com algum carinho vindo do seu pai. E você há de convir comigo que assim fica difícil.

Resultado: nos cinco meses em que permanecemos separados, permanecemos juntos. Não havia uma semana em que não ficávamos juntos. E ele estava sempre na minha casa.

Entre uma noite e outra, trabalho. Entre um fim de semana sem ele e uma noite com ele, dúvidas. E o coração doendo de insegurança e angústia. Meu peito não teria agüentado por muito tempo.

Eu queria seguir em frente. Mas ele não me deixava em paz. Eu queria seguir em frente. Mas minha vontade de lutar por ele também não me deixava em paz.

Sempre fui guerreira, filho. Não desisto fácil das coisas que eu realmente desejo.

O decorrer desses meses me deixou absolutamente confusa. Eu não conseguia entender o que ele sentia por mim. Mas eu tenho um senso de sobrevivência impressionante. E tentava me interessar por outras pessoas. O que até acontecia. Ele tinha ciúmes. E o sofrimento ficava maior. Para mim e para ele.

Cheguei a ensaiar uma saída do emprego. Recebi uma boa proposta e estava abandonando meus amigos e a agência de que gostava tanto. Eu precisava levar meus olhos para algum lugar longe do seu pai. Estava indo para outra grande agência – um passo profissional interessante – não fosse o fato de, uma semana antes da data marcada para a minha ida, o Brasil descobrir que essa agência era uma das envolvidas no escândalo do mensalão. Acredite se quiser.

Por um lado, desespero. Por outro lado, alívio. Meu lugar ainda estava ali. E meu lugar continuava sendo em frente ao seu pai.

Dei um jeito de sair de férias. Fui ao Rio passar uns dias sozinha. Mas as mensagens pelo celular chegam longe. E as dele chegaram até lá. Peguei uma praia, pensei, sofri, respirei fundo e voltei.

Enquanto isso, ele pensou também. Na volta, conversamos e decidimos que não dava mais. Era necessário fazer a ruptura. Foi no dia 11 de julho de 2005. Uma conversa madura, delicada, bonita. Ele me disse tantas outras coisas. Entre elas, que sempre esteve escondendo de si mesmo o amor que sentia por mim. Disse ter esperança de que o tempo passasse e que pudéssemos de novo nos encontrar. Não seria necessário. Afinal, nos encontrávamos todo dia.

Choramos, choramos muito. Queríamos o melhor um para o outro. Eu tinha que entender e respeitar. Mas as despedidas têm o poder de trazer o amor à tona, filho.

Na mesma noite, fomos à festa de uma amiga em comum. Nosso encontro foi alegre e civilizado. Mas ao chegar em casa, desabei. Liguei pra ele chorando. “Vamos passar essa noite juntos?”, ele sugeriu. Não poderia ser diferente.

Quando chegou, eu esperava por ele de pijama. Entrou, colocou no som um cd novo, olhou pra mim e me tirou pra dançar. Seu pai não era fácil, filho. Se aquela era uma despedida, ele cuidou para que fosse inesquecível.

E foi ali, de pijama, no meio da sala, que dançamos enquanto o Jorge Drexler cantava aos nossos ouvidos: “Antes de mí tu no eras tu, antes de tí yo no era yo. Antes de ser nosotros dos no había ninguno de los dos”. Difícil acreditar que aquilo fosse mesmo uma separação.

No entanto, no dia seguinte, acordamos juntos e seguimos separados. Já era hora de parar de sofrer.

À noite, levei a sério a tal terapia do choro. Música, foto, música de novo. Fui dormir cansada de tanto chorar. O sono é um santo remédio: tem o poder de aliviar qualquer sofrimento. Pelo menos até a manhã seguinte, quando a gente acorda e a realidade dói de novo.

Mas dessa vez eu tinha decidido que seria diferente. À noite, no aniversário de um amigo, a vida me presenteou com sinais de alívio e esperança. Novos ares, novas pessoas. É preciso saber olhar para os lados. Em três dias, comecei a namorar uma outra pessoa. Era fim de semana e acho que seu pai nunca soube disso.

Depois de meses, finalmente eu terminava feliz um domingo. Meu amigo Dani tinha acabado de sair daqui de casa depois de uma tarde leve e divertida. Tinha acabado de conhecer meu novo namorado. E eu estava indo dormir satisfeita. Enfim, seguia em outra direção.

Era por volta das dez da noite desse domingo, 17 de julho de 2005, quando recebi uma mensagem do seu pai no celular: “Posso dormir aí?” Alguns minutos para me refazer do susto. Eu tinha decidido dizer não, mas não me veio a coragem para escrever uma mensagem tão dura. Liguei, certa de que seria mais um movimento intermitente. Ele disse que precisava me ver. Veio. Abri a porta e o que encontrei do outro lado foi alguém dizendo “Amo você”.

Por um minuto, fiquei calada. Por quanto tempo esperava ouvir dele de novo essa frase. Desnecessário dizer que era recíproco. Eu não sabia se beijava, chorava ou batia no seu pai. Ele chorava. E pedia perdão.

E foi assim, num piscar de olhos, que talvez o seu pai tenha entendido o que a música dizia: “Não entendo como podia viver antes.” Eu também não entendo, filho. Minha vida ficou tão mais bonita depois dele.

domingo, 9 de março de 2008

Pára, Francisco!

Você é saudável, esperto, engatinha a jato e parece ter um sensor para coisas perigosas: detecta onde elas estão e corre naquela direção. E eu não sou exatamente uma mãe jovem. Hoje perdi a paciência, filho. Várias vezes. Depois chorei arrependida. Choramos juntos, embora você pensasse que eu estava rindo. Tem dias que é especialmente difícil criar um filho sozinha.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Vovó Juju.


(foto: Kika Antunes)

Se não deu tempo de conhecer seu pai, você tem a sorte de ter seus avós. Mas dói pensar que você também não conheceu meus pais, seus outros avós. Nem minhas avós, que há tão pouco tempo ainda estavam aqui.

Sobre uma delas, quero contar um pouco. Talvez você me entenda mais ao saber quem era a Vovó Juju. Talvez com o tempo perceba quantas coisas ela me deixou de herança.

Quem ia à sua casa na Pampulha saía de lá com a impressão de ter visitado um mundo à parte. Se reparasse bem naqueles jardins, veria que nos fundos da casa existia uma palmeira, cujo tronco trazia a seguinte pichação: "Mira como sou feliz". Não a Vovó, como ela mesma explicava. A palmeira mesmo. Percebeu esse estado de alma (porque toda planta o tem) e assim registrou. Uma outra árvore, pintou de prateado. E não se cansava de fotografar as flores, como se elas fossem parte da família.

Juracy, a mãe do meu pai, foi professora na juventude e mantinha, na fase adulta, sua curiosidade, sua avidez pela cultura, seus olhos que não paravam de ler, ver e ouvir. Na década de 30, assumiu uma turma de alunos da escola pública, os mais atrasados nas notas. Com o primeiro salário, comprou livros, cadernos e roupas para as crianças. Não tardou que essa última turma virasse a primeira (e olha que ser professora não foi propriamente uma escolha: o que Juju queria mesmo era ser pintora, mas o pai nunca permitiu).

Herdou da mãe a longevidade – minha bisavó viveu 103 anos – e também o senso de humor. "Meu nome é Victalina", dizia ela. "Mas, por favor, me chame de Tatá." E todo mundo obedecia prontamente. Beirando os 100, Tatá perguntava ao meu pai, o neto médico: "Ando vendo umas formigas subindo pelas pernas, mas sei que elas não estão aqui. Será que estou caducando?"

Com a irmã de minha avó, foi o contrário. Cecy morreu cedo, deixando dois filhos pequenos e viúvo o meu avô. Isso mesmo, meu avô. Enquanto ele era casado com Cecy, minha avó só queria e só pensava em namorar. "Quase fugi com um paraibano", ela costumava me contar, sugerindo que aquele teria sido o grande amor.

Não fugiu por medo do pai. Filho de um nobre com uma índia pega no laço, tinha a braveza dos selvagens. É claro que, como toda filha daquele tempo, Juju tinha medo dele. Talvez só dele, porque ao longo da vida não mostrou ter medo de muita coisa. Nem de barata.

Pois namorou, namorou dois ou três ao mesmo tempo, e isso sempre contava dando risadas. Quando meu avô começou a cortejá-la, teve certo pavor. "Eu, me casar com o viúvo de minha irmã?" Não deu outra. Com ele, teve dois filhos, aos quais sempre se dedicou com amor exagerado. Era assim sempre que amava. E de seus exageros fazia uma personalidade marcante, sábia, companhia extremamente agradável. Uma alma sem idade.

(Conterrâneo e amigo de JK, meu avô morreu quando eu tinha 7 anos, bem no dia 7/7/77. Nossa pequena convivência produziu em minha memória a imagem do atento e calado guardião durante minhas brincadeiras perigosas na casa projetada por Oscar Niemeyer – com seus corrimãos meramente decorativos, Niemeyer deu muita dor de cabeça ao meu avô. Eu tinha medo dele, de seus olhares de repreensão, de suas poucas palavras em voz grave. Tarde entendi que aquele era o seu jeito de me amar. Em nossa única foto juntos, eu carregava uma boneca, sentada ao seu lado. Dois sorrisos, nenhum abraço. Impressionante como a câmera é capaz de colocar, num mesmo quadro, pessoas de mundos tão diferentes.)

Até o fim da vida, Juju acompanhava os tempos com agilidade. Nasceu em 1909, imagine, viu tanta coisa surgir e desaparecer em favor de outras que vieram. Comigo conversava sobre sexo, perguntava sobre a Internet, comentava assuntos acontecidos no mundo inteiro. E sempre se mostrava muito mais bem-informada que eu. Quando ia ao jardim da frente de casa, não era raro fazer amizades com os que caminhavam pela Lagoa. Gente de toda idade, que passava a parar por ali a cada semana para um café. Também já recebeu em sua casa grupos e mais grupos de estudantes de arquitetura, interessados em conhecer a residência construída para Juscelino, junto com a Pampulha. Ela mesma cuidava dos jardins (já não podemos dizer que são de Burle Marx).

Eu me lembro de um dia em que fomos posar para uma foto – Vovó, minha mãe e eu – em frente a uma árvore. Depois de várias tentativas em vão, desisti de subir na árvore. Quando olhei, Juju já estava lá em cima. Tinha seus 82 anos.

O mesmo jardim foi cenário de uma cena surreal: quando me mostrou em seu armário uma antiga estola de vison, Juju observou minha expressão de encantamento e, imediatamente, sugeriu que eu tirasse toda a roupa para ser fotografada, coberta apenas pelo vison, entre flores e plantas. Lembro-me do quanto ela se divertiu enquadrando aquela neta tentando ser Marilyn Monroe. As provas do crime estão guardadas comigo – a sete chaves, claro.

Antes de me casar, morei um tempo na casa que havia nos fundos da casa dela, enquanto esperava a reforma da casa onde íamos morar. Foi um ano de muito carinho e risada, em que meus cafés-da-manhã tinham pão fresquinho, queijo e um ótimo papo pra começar o dia.

Impossível esquecer as anotações que eu encontrava em sua mesinha de telefone. "Comprar desconfiômetro" e "Favor me esquecer" eram alguns deles. Delicadamente, Vovó desabafava aos bilhetes.

Se ela tivesse tempo de conhecer você, Francisco, ia te ensinar uma lição importante, que a mim transmitiu quando eu ainda era pequena: "Quando você bater o dedinho do pé no pé da cadeira, aquela dor insuportável, xingue o palavrão mais cabeludo. Vai ver como alivia." Sem saber, ela me revelou o que a ciência explicou algum tempo depois.

Com o passar dos anos eu me apaixonei por ela, filho. Quanto mais eu crescia, mais íntimas ficávamos. Mesmo sendo de gerações tão diferentes, parecia que a gente tinha a mesma idade.

Minha avó rolava na grama com a bisneta mais nova, Dora. Aos 92 anos, tinha mais vida que muita mocinha de 29. E dizia que já tinha cumprido sua missão por aqui, que viver muito era "falta de higiene". Mas todo mundo sabia que era da boca pra fora. Um dia, me explicou ao telefone a razão de sua rouquidão: "é sinal de que vou ficar velha."

Mas não deu tempo. Vovó Juju também se foi de repente, em outubro de 2004, aos 95 anos. Mas deixou muito dela em mim. Espero que um pouco da sabedoria também.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Amor amigo.



Poderia ter sido em um bar, na fila do banco, pela internet. Ele poderia ser amigo de um amigo meu. Mas eu e seu pai nos conhecemos no trabalho.

Eu me lembro, foi no dia 17 de fevereiro de 2003 que eu voltei a trabalhar na Lápis depois de uns meses em outra agência. Meu primeiro trabalho foi com um diretor de arte free lancer chamado Guilherme. Que em princípio me pareceu bastante antipático. Enquanto nos reunimos pra começar a criar, ele falou ao celular algumas vezes e pude perceber que morava em um condomínio afastado, era casado e tinha cães. Eu também era casada e meu marido, além de veterinário, também tinha cães. Muitos deles, por sinal. Era criador. Poderíamos ter descoberto muitas coisas em comum. Mas saí de lá com a impressão de que ele não queria proximidade. Aquele sotaque paulista não me consquistou.

O fato é que em alguns meses ele foi contratado. E o que vi no dia-a-dia foi um homem delicado. Amoroso. Com homens e mulheres. O carinho mais charmoso e sedutor que eu já conheci. Seu bom dia era sempre um abraço muito apertado. E eu adorava ser abraçada por ele. Não pensava nisso. Mas adorava.

Com o tempo, nos tornamos amigos. Eu adorava ser amiga dele. Não pensava nisso. Mas adorava.

Nossos abraços ficavam a cada dia mais apertados. Eu não reparava nisso. Mas adorava.

Mais algum tempo e comecei a ter sonhos com ele. Não eram sonhos eróticos. Eu sonhava com os abraços – tinha uns beijos também. Nunca parei pra pensar nisso. Mas adorava.

Começamos a nos aproximar mais. Na cerveja depois do trabalho. No papo sobre nossos casamentos. Eu não pensava nisso. Mas adorava.

Com o tempo, caminhávamos para nossas separações: eu do meu marido, ele da mulher. Eu não pensava nisso. Mas adorava.

Até que veio um verão, uma pista de dança, nós dois rodeados de pessoas para só termos olhos um para o outro. Ele me disse coisas nas quais eu nunca tinha pensado. E eu adorei.

“É tudo verdade”, ele me escreveu num email no dia seguinte. O primeiro de uma série de conversas pelo computador. Um sentado em frente ao outro, separados (ou unidos?) apenas pelas máquinas.

Tudo isso fez uma revolução em mim. Já éramos tão amigos. Já estávamos juntos e não tínhamos percebido.

(Apaixonar-se por um amigo é arrebatador. Você olha para o lado e o vê com olhos diferentes. Descobre o que seu coração já sabia há muito tempo.)

Impossível conter a minha sensação de estar voltando para casa. A minha urgência de simplesmente deitar na cama e pegar no sono. Eu não precisava procurar mais nada, eu já tinha encontrado.

Mas sou rápida demais para enxergar as coisas. Ele ainda precisou de algum tempo pra ver os fatos de um jeito parecido. E quando viu, adorou.

terça-feira, 4 de março de 2008

A primeira jura.

From: Cristiana Guerra
Subject: Re: Ontem
Date: 16 de agosto de 2004 11h10min35s GMT-03:00
To: guifragaguifraga@lapisraro.com.br

Melhor do que fazer anivesário é ouvir palavras assim. Gui, eu amo ter você como amigo, bem perto de mim. Também quero viver muitos anos perto de você.

Mais um beijo bom,

Cris.

On 16.08.04 9:34, guifraga, at guifraga@lapisraro.com.br wrote:

Ontem foi seu aniversário. Não te liguei, mas pensei muito em vc, na sua doçura, no seu carinho e delicadeza. Quero viver muitos anos perto de você.

Muitos beijos bons, G

sábado, 1 de março de 2008

Jorge Ben.



Ele me chamava de linda, amor, amorzinho, pequena, minha pequena. Eu tinha uma predileção por este último, por particularizar a nossa história. No dia-a-dia, outras mulheres também eram por ele chamadas de lindas – esses paulistas delicados têm um charme perigoso. Eu era a pequena dele, e para sua pequena ele gravou, bem pouco antes de ir, um cd com o resumo da nossa história. A primeira música? “Ela já não gosta mais de mim, ela já não é mais minha pequena. Que pena, que pena.” Eu era a pequena dele, hoje você é o meu pequeno. Amanhã você vai crescer e as coisas vão deixar de ser como são. Mas nós três seremos sempre esses três. Eu, você, ele. Um dentro do outro. Ele faltando em nós, ele presente em nós, nós dois no coração dele. A vida é grande, filho. É bom ser pequeno diante dela.