domingo, 17 de fevereiro de 2008
Despertador.
Ele sonhava. Viajar de navio, ter um barco, construir casa na Serra do Cipó, comprar um piano e voltar a tocar, construir pra você uma casa na árvore. Eu já tinha a companhia dele, já tinha você na barriga. Com o que mais sonhar? Era assim que minha mãe tinha me ensinado. Eu teria dito a ele o mesmo que disse o personagem do Mark Rufallo no lindo "Minha vida sem mim": "O mundo parece menos assustador porque você existe". Talvez eu tenha dito, em outras palavras. Mas então ele deixou de existir. E tive que descobrir que outras coisas podem fazer do mundo um lugar mais acolhedor. Você existe, eu existo, meus amigos e tantos detalhes para os quais eu não tinha olhado antes. Tantas descobertas no meio da dor. Aprender, mesmo que tarde. E agora alguma coisa me diz que alguns dos sonhos dele não podem se perder. Comecei a sonhar, filho.
Nós e os dias 17.
Hoje faz cinco anos que eu e seu pai nos vimos pela primeira vez. Eu voltando a trabalhar na Lápis, ele começando por lá, ainda como free lancer. E nós dois sentados numa sala pra começar um trabalho juntos. Eta, vida doida, meus Deus.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Descobri por que você ama Marisa Monte:
Está neste email que mandei para o seu pai em 13 de setembro de 2006:
On 13/09/2006, at 09:58, Cristiana Guerra wrote:
Bom dia, amorzinho.
Hoje acordei bem, tinha dormido profundamente a noite toda (nem acordei pra tomar água) e saí cedinho pro Reiki. No caminho, Marisa Monte cantando um samba no carro, senti uma felicidade tão profunda. O dia tava lindo, eu tava tão feliz e alegre, e essa sensação se misturava com uma vontade de chorar. Pensei na minha vida, nas pessoas com quem convivo, nas pessoas que já se foram, no quanto a vida é linda e boa. Não me falta nada, amor.
Tenho saúde, amigos, um bebê lindo na barriga, filho do homem que eu amo. E tenho você ao meu lado.
Só tenho a agradecer por ter essa vida linda e por amar você.
Um beijo bom.
Cris.
Cristiana Guerra
Diretora de Criação


On 13/09/2006, at 09:58, Cristiana Guerra wrote:
Bom dia, amorzinho.
Hoje acordei bem, tinha dormido profundamente a noite toda (nem acordei pra tomar água) e saí cedinho pro Reiki. No caminho, Marisa Monte cantando um samba no carro, senti uma felicidade tão profunda. O dia tava lindo, eu tava tão feliz e alegre, e essa sensação se misturava com uma vontade de chorar. Pensei na minha vida, nas pessoas com quem convivo, nas pessoas que já se foram, no quanto a vida é linda e boa. Não me falta nada, amor.
Tenho saúde, amigos, um bebê lindo na barriga, filho do homem que eu amo. E tenho você ao meu lado.
Só tenho a agradecer por ter essa vida linda e por amar você.
Um beijo bom.
Cris.
Cristiana Guerra
Diretora de Criação
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Metáforas.
Você sabe deixar claro o que quer e o que sente. Fica difícil saber a quem puxou, pois brava eu sou e bem bravo era o seu pai. Hoje você ficou bastante contrariado. Não era para menos: tirei você do banho justamente no seu momento mais feliz. Era hora de dormir, filho. Tão cedo a vida nos dá as dicas e tão tarde a gente aprende a aceitá-las. A vida fez exatamente a mesma coisa comigo ao tirar seu pai de mim. Era hora de dormir ou de acordar? Você, no minuto seguinte, já tinha esquecido e estava sorrindo. No meu caso, demorou mais um pouco. Preciso confessar, filho: eu estava no meio do banho mais gostoso da minha vida.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
E como falo.
Não falo de um amor perfeito, filho. Falo de um amor real. E essa talvez seja uma de suas grandes qualidades. Falo de um encontro, de um acreditar. Não falo de planos, prestação de apartamento, lote para construir, projeto do quarto do bebê. Não falo de planejar a próxima viagem de férias. Falo de uma sinceridade. De um estar inteiro, a cada momento em que se decidia estar. Falo de um sorver a vida como se bebe vinho ou café quentinho. Falo de muitos sins e também dos nãos. Nãos que também eram de amor. Falo de uma certeza que tinha curto prazo de validade, mas renovável a cada dia. Falo de cada novo dia em que era bom não ter a certeza, para de novo merecer o desejo. Falo de um desejo que nascia a cada sol. Falo de uma construção. Que foi dura. Falo de amor porque antes falo de amizade. Falo de corações puros, no sentido menos ingênuo da palavra. Falo, não porque ele não está mais aqui. Ele sabe do que falo. Falo de mim, falo do seu pai, falo de nós. Falo de você.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Fica o som da risada.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Sábados.
Difíceis são algumas noites de sábado. Quando você adormece e a noite vem trazendo o silêncio da falta. A falta dos momentos em que eu e seu pai dançávamos. A falta do cheiro da comida que ele preparava. Difícil é não ficar horas falando sobre as bobagens que na verdade são as coisas mais importantes da vida. Ele sentado no computador, pesquisando na internet sobre alguma viagem de barco, e me chamando com voz doce:
— Amor?
— Oi, amor.
— Você é o meu amor.
E eu corria para apertá-lo, abraçá-lo, o beijo no meio da risada. E a brincadeira se repetia por mais algumas vezes. A gente rindo do amor, rindo da alegria. A alegria de não ter hora, a leveza de não ter medidas, a liberdade de ser e sentir. A sorte de encontrar alguém com quem se sentir tão à vontade.
Difícil é não ter saudade desse nada pra fazer dos sábados a dois.
Você vai crescer, vai ficar adulto, vai aprender que deve ser um homem sério. Mas um dia vai descobrir de novo que as melhores coisas da vida não servem para nada. Que o melhor da vida é contar estrelas, histórias, piadas. Que a inutilidade é mesmo uma delícia.
— Amor?
— Oi, amor.
— Você é o meu amor.
E eu corria para apertá-lo, abraçá-lo, o beijo no meio da risada. E a brincadeira se repetia por mais algumas vezes. A gente rindo do amor, rindo da alegria. A alegria de não ter hora, a leveza de não ter medidas, a liberdade de ser e sentir. A sorte de encontrar alguém com quem se sentir tão à vontade.
Difícil é não ter saudade desse nada pra fazer dos sábados a dois.
Você vai crescer, vai ficar adulto, vai aprender que deve ser um homem sério. Mas um dia vai descobrir de novo que as melhores coisas da vida não servem para nada. Que o melhor da vida é contar estrelas, histórias, piadas. Que a inutilidade é mesmo uma delícia.
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