segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O ano da minha vida.



Em 2007 perdi o amor da minha vida. Ganhei o outro amor da minha vida. Você, Francisco, fez do fim um começo. Foi como um rèveillon de um amor para outro.

Em 2007 aprendi o que é amor. Não só porque começou a crescer o meu amor por você. Mas porque entendi que o meu amor pelo seu pai também cresce à medida que eu o conheço pelos olhos dos outros. E à medida que conheço você, filho. Assim a nossa história continua.

Em 2007 aprendi o amor por mim mesma. Descobri que posso viver sem o seu pai. Posso e devo ser feliz sem ele. E isso é o mais bonito do nosso amor. Entender que seu pai ficou em mim, mas não levou um pedaço meu. Um amor que nada rouba, só acrescenta.

Em 2007 eu não me fechei para novos amores. Pelo contrário: passei a acreditar mais no amor.

Em 2007 entendi o quanto os meus amigos são preciosos. São todos meus amores.

Do amor pari você. Da dor pari esse blog. Hoje tenho quem me lê. Em 2007, descobri que sei escrever.

Um ano atrás eu comemorava com seu pai a chegada de um ano bom, filho. E tinha a certeza de estar entrando num dos melhores anos da minha vida. Ainda tenho essa certeza. Foi um ano surpreendente. Com todos os perigos e delícias que essa palavra traz. Mas foi um ano grande demais.

Então o que desejo para 2008 é que ele seja menos ambicioso. Que não tenha grandes acontecimentos, mas que seja sempre alegre, sereno, leve. Que seja de paz. E acima de tudo, que eu tenha o seu sorriso iluminando o meu dia.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A passagem.

Ao chegar na pousada em Ilha Grande, sabíamos que iríamos encontrar apenas o nosso quartinho desocupado. Já viajamos preparados para encontrar uma grande turma por lá. Uma turma que a gente nunca tinha visto na vida.

Pousada simples, banheiros coletivos, quartos bem perto um do outro, comida caseira e uma praia calma. Já conhecíamos o lugar. Perfeito pra gente ficar quieto e esperar o ano chegar. E eu estava ansiosa pela vinda de 2007. Finalmente você iria nascer, e acho que esperei bem mais que nove meses por isso.

Embora a turma fosse de São Paulo e nós, de Belo Horizonte, a amizade aconteceu rápido. Mesmo porque, seu pai era praticamente paulistano: nasceu no interior do Piauí porque a família morava lá na época, mas foi bebezinho pra São Paulo e só alguns anos depois é que veio morar aqui. O fato é que em poucas horas estávamos sentados contando piadas. E a sua mãe, filho, conta piada feito um homem. Chega a juntar gente em volta.

Nosso quartinho era bem pequeno. Pequeno mesmo. Mas de frente para o mar. E foi lá, diante de um mar verde e transparente, que você começou a se mexer de um jeito engraçado na minha barriga. A essa altura eu já podia sentir suas mãozinhas ou pezinhos apontando, indo de um lado para o outro, o que causava uma certa aflição no seu pai. A mim só causava alegria a sensação de você se espreguiçando ou lutando por mais espaço dentro de mim. A cada dia você era mais de verdade.

Um dia de chuva, dois, três. Chegamos a pensar em voltar antes do tempo. Mas fomos ficando – assim como a chuva. Eu me lembro de um diazinho de praia, em que fomos convidados para um passeio de barco. Na hora H, seu pai resolveu desistir. Achou que seria cansativo pra mim. E, embora eu insistisse, não quis ir sozinho. Minhas costas doíam, já não era fácil dormir. E a cama, eu confesso, estava bem apertadinha. Se para dois ela já era pequena, imagine pra nós três. Durante o dia, sem medo do ridículo, seu pai levava cadeira e travesseiro para onde quer que eu me alojasse na praia. Era ele cuidando da família.

Tão logo o tédio tomou conta, começamos a fotografar objetos do quarto, pés, pernas, mãos. Líamos em voz alta. A gente tinha que inventar o que fazer. E não perdíamos o bom humor. Depois veio o tédio de só comer peixe. E ele passou a sonhar com “carninha”, lembrando os tempos de criança internado no hospital pra curar o pezinho.

Mas tinha tantos novos amigos. Então viajamos para dentro deles – e isso valeu mais que os mergulhos no mar.

Eles tinham ido dispostos a organizar um réveillon na beira da praia. Acabamos participando. Seu pai fez barquinho de bambu, eu ajudei a colocar velas em latinhas de cerveja. Foi uma noite especial de passagem de ano, e isso veio de brinde no pacote. Era uma festa entre amigos e tínhamos a sorte de estar entre eles.

Seu pai dançava em paz e feliz. À meia-noite nos beijamos emocionados pelo que estava por vir. Era muito amor num lugar só. Não tinha como não pensar que aquele seria o ano perfeito.

Lembro desses dias com alegria. Mas de vez em quando tenho uma sensação estranha ao olhar para o ano que praticamente passou. Por alguns momentos, sinto como se eu tivesse parado no tempo. Parece que ainda estou diante de 2007, mas ele já foi. Em outros, sinto que o tempo correu rápido demais e acabou por me distanciar de lembranças importantes. Escrever aqui é exercício necessário para colocar os pés no chão.

Dois meses depois você estava nascendo. “Então é verdade?”, foi o que eu perguntei ao ver seus pezinhos pela primeira vez. Acho que foi a primeira parte sua que eu vi.

Hoje estou diante do seu sorriso, seus gritinhos, seu bom humor. Seus olhos que comentam cada situação de um jeito bem seu. Cada dia é mais verdade a sua presença, como a cada dia é mais verdade a ausência do seu pai. Tanto, que às vezes levo um susto ao deparar com a lembrança dele, como se sua existência tivesse se transformado suavemente num sonho. Mas então eu olho pra você e confirmo: sim, é verdade. É verdade você e o que vivi com seu pai. É verdade essa história que não acaba. É verdade esse amor que só cresce.

Em 2008, vai ser maior ainda.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Seu primeiro Natal foi com ele.


Em um dia de dezembro do ano passado, não sei por que, sugeri a seu pai que fizéssemos um jantar aqui em casa, para alguns amigos queridos. E ao jantar dei o nome de "Primeiro Natal do Francisco". Ele adorou a idéia. Tinha um prazer enorme em cozinhar para os amigos. E tinha um motivo e tanto para comemorar: éramos uma família. Por uma deliciosa coincidência, nossos amigos Cecília e Gustavo, que moram na Suécia, estariam presentes naquele fim de semana e finalmente poderíamos conhecer Matteo, nascido por lá. E este foi o seu Natal com seu pai, filho. Você, tão pequeno dentro de mim, fez nascer um sorriso novo naquele rosto e, com ele, um entusiasmo para ser ainda mais intenso e carinhoso. Juntos sonhávamos com o Natal de 2007, imaginando o quanto você estaria fofo aos nove meses e como esse nosso Natal seria feliz. Ele resolveu transformar essa alegria em presentes para cada um da família. A começar por seus primos, filhos dos meus irmãos, que ele estava orgulhoso em chamar de "meus sobrinhos". Hoje faz exatamente um ano que passamos o início da noite com minha família e a outra parte com a família do seu pai, com quem vamos passar hoje de novo, tentando driblar essa falta. É a nossa família, filho. Vai ser difícil não me lembrar do seu pai entregando um presente nosso para cada um dos irmãos, depois para seu avô e sua avó. Como também não dá pra esquecer a Vovó me presenteando e dizendo o quanto tinha sonhado com alguém que amasse o seu pai naquela medida. Fica também a imagem do pote de geléia de morango que ele preparou para cada um dos meus irmãos, primos e tios, inclusive para os que nem conhecia, embalando e personalizando um a um com delicadeza. Alguns ganharam o presente e nem chegaram a conhecer seu pai. Mas sentiram o sabor da sua presença. Aqui, ali, em qualquer lugar: se não há mais o seu pai, ficou o seu aroma. E esse não vai sair de perto de nós.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Olhar de amor.

De: guifraga
Data: 30 de novembro de 2006 15h42min17s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: a foto qeu vc tirou

amor, a foto que vc tirou de mim ficou linda.
vc é um amor.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Afogando.

Há dois meses entramos na natação, eu e você juntos. Eu queria aproveitar esse seu prazer de estar na água. O nome da modalidade é "Mãe na água" e eu fiquei animada para ter um momento só nosso. Achei que ia ser gostoso pra você e muito, muito fácil pra mim. Mas eu não tinha parado pra pensar num detalhe. Como hoje os pais participam muito mais da vida de seus bebês, alguns coleguinhas vêm acompanhados de seus respectivos pais, e não de suas mães. Fora o caso de duas gêmeas que vêm com os dois - a mãe cuida de uma, o pai cuida da outra. Então a maior dificuldade é da mamãe aqui. Ao conviver com todas aquelas famílias completinhas, bonitinhas, certinhas, eu é que acabo ficando sem ar. A última aula, por exemplo, foi a despedida do ano. Todas as turmas juntas numa piscina só. Acho que a professora temeu por mim e me avisou antes: "Traz um tio, um parente, a festa é da família". E eu convidei sua tia Tissa, que veio com aquele sorriso doce de sempre. Mal entramos na piscina, fizemos a rodinha do cumprimento entre as crianças e lá estava eu, chorando feito uma delas. Ainda bem que no meio da água eu pude disfarçar. Os pais hoje são muito participativos, filho. Devia ser mais fácil ser mãe viúva no tempo da minha avó.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Pode acreditar.

Com a ida do seu pai, fui obrigada a sonhar de novo todas as cenas que eu tinha imaginado pra nós três. A história continuava, mas agora tinha um personagem a menos – o que é bem difícil quando se trata de um dos principais. Com o coração doendo, mas também com algum humor, refiz o enredo e me preparei para momentos diferentes, mesmo que não menos importantes ou felizes. Embora eu saiba que, mesmo assim, a vida não vai perder a capacidade de me surpreender – para melhor, eu espero. Uma coisa que me preocupou de imediato foi como ensinar pra você o que é um pai. Por isso enchi seu quarto de fotos minhas com seu pai, fotos nossas de quando éramos pequenos, eu grávida, tentando fazer ali um cantinho que conta a história da sua vinda. E você chegou até aqui vendo essas fotos a toda hora, especificamente nas trocas de fraldas ou voltas do banho. Há muito você nota as fotos e olha para cada uma delas com interesse, por mais incrível que isso possa parecer para um bebê de oito meses e meio. Assim como aprendeu a bater palmas sem ninguém ensinar e já esboça um tchauzinho, você percebe que ali tem alguma coisa importante. No caso, uma pessoa importante, além de mim. E já relaciona essa importância com a palavra "papai". Não sei como vai ser quando você aprender a falar e esboçar um Papai ao ver a foto. Se vou rir ou se vou chorar compulsivamente. O que me preocupa mesmo é que você possa compreender quem ele é. Porque com o tempo tem até esse blog pra explicar, mas ainda vai demorar pra você aprender a ler e entender esses textos de adulto. E como o Natal está chegando, esses dias eu percebi que, enquanto as outras crianças acreditam em Papai Noel, talvez para você o mais importante seja ensinar a acreditar em pai. Acredite, filho. Ele era bem melhor que o Papai Noel. E mais bonito também.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Menino do Rio.



Presente da Tia Jana, cuja casa no Rio vamos conhecer em breve. Não pude ir ao Rio com seu pai, filho, mas vou com você.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Vivo.

Sua avó escreveu uma cartinha pra mim e me entregou nesse fim de semana. Tinha tanto amor nessa cartinha, filho. E apesar de ter feito latejar a minha dor pela falta do seu pai, me trouxe uma alegria de perceber que a falta também traz presentes. Ela falou da dor dela pela falta do filho, mas terminou a carta declarando o amor dela por nós dois – você e eu. Amor plenamente correspondido. Olhando para essa amiga-mãe que conheço e gosto mais a cada dia, vejo o seu pai declarando amor por nós. Um amor que não morreu com ele, porque é mais forte que a vida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Vocabulário.

Afinidade, filho, é quando a gente tem muitas coisas parecidas com alguém. Pode ser uma coisa que a gente gosta de fazer, uma coisa na vida que emociona a gente, pode ser uma vontade, um sonho — ou muitos deles. Afinidade também é o que faz duas pessoas quererem dormir de conchinha, por exemplo. Ou o que deixa a sensação de estar levando a outra pessoa com a gente, aconteça o que acontecer. Como se ela fosse uma parte de você e você, uma parte dela. A capacidade de fazer o outro rir é outra deliciosa afinidade. Rir é o que faz a gente voltar a ser criança. Quando alguém sabe rir e fazer rir, a gente diz que essa pessoa tem humor. E quando uma pessoa tem humor ela sabe rir principalmente de si mesma – até nas situações mais difíceis. Difícil é aquilo que dá trabalho. Ficar sem seu pai, por exemplo, é muito difícil. Mas se a gente se esforçar, a gente consegue. Até porque não existe outra solução. Solução é o que resolve um problema. Um dia você vai ter o seu primeiro problema de verdade, vai encontrar a solução e vai aprender com isso. Ou vai descobrir que ele não tem solução — e vai aprender a se conformar. Problemas são importantes pra fazer a gente crescer. Eu queria que você aprendesse afinidade, humor, problema, solução, vendo o Papai e a Mamãe juntos. Mas nem por isso eu vou ensinar pra você a palavra frustração. Na hora certa, você vai descobrir. E vai saber o que fazer com ela. Papai e Mamãe não vão poder estar juntos porque no meio do caminho tinha uma palavra que a gente também tem que aprender: a surpresa. Que é o que acontece pra nos mostrar que a vida não pode ser controlada. Surpresas podem ser boas, como a sua vinda, ou ruins, como a ida do seu pai. Por causa desta última, eu e você vamos ter que aprender afinidade de um outro jeito. Vamos aprender juntos. Não sou só eu que vou ensinar significados pra você. Você também ainda vai me ensinar novos sentidos para muitas palavras, como está me ensinando um muito especial para a palavra amor. E tudo isso só aconteceu porque eu e seu pai tínhamos uma afinidade muito grande.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Cheiro de saudade.

De: guifraga
Data: 4 de agosto de 2006 17h34min40s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: só pra dar um cheirinho

amorzinho. é só pra te dar um beijo bom. pra encostar em vc. pra colar meu rosto no seu, assim bem de levinho.

um beijo bom, gui

Lindo.


Seu pai pensando na vida.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Pele.

Seu pai dizia que eu tinha "a pele mais macia do mundo".
Imagina, filho, se ele pudesse tocar você.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Francisco.


Quando o seu nome me veio à cabeça, foi muito antes de você existir. Antes até de amar seu pai. Há muito mais tempo eu sei de você, Francisco. E amo desde o seu não-projeto de vir. Você, seu humor, sua alegria. Eu já sabia, mas não sabia que sabia. E foi assim, sem saber, que procurei e fui achada. Foi você, dentro de mim, que fez nascer o seu pai na minha vida. Para poder vir através dele. Obrigada por parir seu pai, filho. E assim me dar a mim mesma de presente.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Tapa.


Não tenho mais parado pra pensar na saudade. Ela é que de vez em quando salta na minha frente. Uma foto que eu não tinha visto antes vem me contar uma novidade sobre o que já vivi. O braço do seu pai encostado ao meu, veias pulsando vida, um corpo quente e perto que me conta sobre o amor. Lembro então o que era ser completa. Reconheço uma cumplicidade que eu já não lembrava existir. Da alegria daquele dia, com a perspectiva tão fresca da sua vinda, da euforia de todos à nossa volta, faço um álbum bem bonito. E guardo num canto escondido, mas tão escondido, que corro o risco de procurar e não achar. E quando acho, dói. Mas dói bonito. Junto com a dor vem uma sensação de alívio por ter vivido.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Notas.

Quando eu era menina, sonhava ser modelo. Depois entendi que talvez quisesse mesmo era ser atriz. Acabei não sendo nenhuma dessas coisas, mas na minha profissão às vezes eu tenho chance de exercer essas facetas. Com o tempo entendi que eu não tinha que esperar o mundo me aprovar: simplesmente ia lá e fazia. Foi assim que resolvi fazer aula de canto. Não tenho voz de cantora, mas tenho ouvidos bons. Acho que você também tem, filho. Todo dia você me dá provas de ter herdado isso. De mim e do seu pai. Ele, sim, tinha uma voz linda. Além de afinação e um gosto apurado para música. Se a nossa história virasse um filme, a trilha sonora já estaria escolhida. As músicas que enviávamos um para o outro fazem um conjunto delicado que poderia ser chamado de "Nossas cartas". O fato é que um dia, muito antes de conhecer seu pai, eu fiz aula de canto. E cantava direitinho, cheguei até a participar de shows na escola, do coral. É claro que eu ficava humilhada diante de vozes aveludadas e potentes que faziam aulas comigo. Sei que os professores nunca me olhavam como alguém que queria seguir carreira. Desconheciam esse meu jeito atirado de acreditar nas coisas. E o que seria dos meus queridos João Gilberto, Tom Jobim, Chico Buarque e outras finíssimas vozes femininas se não fosse a coragem dos próprios para cantar? Mas como os outros, esse meu sonho não foi longe. Junto com eles acabei guardando também o de ser mãe. Aos 35, cheguei a acreditar que não era para mim. Só se viesse feito mágica, de surpresa. E foi o que aconteceu. Você veio e fez dos últimos sete meses de vida do seu pai aqueles em que ele voltou a fazer planos, voltou a sonhar. Sua ida repentina foi apenas outra grande surpresa da vida. Os meses em que estivemos juntos, nós três, foram plenos. Como é pleno ser sua mãe. E hoje, eu o descubro meu fã. Percebo que minha voz parece encantar seus ouvidos. Eu canto e você canta comigo. Eu nunca ousaria sonhar isso, filho. Justo esse que era o sonho mais bonito.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Mamãe chorou.

Ontem tomei vinho com grandes amigas e chorei que nem você, filho. Mas não era fome, nem sono, nem birra, nem manha. Era saudade mesmo. A morte deixa uma dor que não tem cura.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Os meus.


Meus pés, numa foto feita pelo seu pai. É com eles que podemos contar agora, Cisco. Confesso que às vezes eles vacilam. Mas a gente vai dar um jeito de chegar lá.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Passos.

Na primeira vez que ele tirou os sapatos, senti que ele tinha vergonha dos pés. Dias depois ele me contou que nascera com os pezinhos tortos, virados para trás. A mãe dele tinha sonhado, na véspera do parto, que o bebê nascia sem os pés. É fato que eles moravam no Piauí, e os pezinhos tortos acabaram por determinar uma parte do destino da família. Era com os olhos cheios d´água, a voz trêmula e também com uma pitada de humor que ele me contava da luta dos pais para enfrentar o problema, da massagem com óleo quente que doía mais no pai do que no filho, da ida para São Paulo para a primeira cirurgia, aos quatro meses, da infância de gesso, dos primeiros passos a despeito disso, dos natais no hospital longe da família, de uma luta incessante até a última cirurgia, aos quatro anos. Hoje, é o pai dele, seu avô, quem me conta que durante todo esse tempo o sorriso não lhe saía do rosto - e vejo então o que é um pai apaixonado. Por um menino que nasceu e morreu de bem com a vida. Fico a pensar aonde aqueles pezinhos o levaram: o quanto a sua alma talvez seja ainda mais linda por isso. Eu amo a história do seu pai, filho. Tenho orgulho dela. E de vez em quando beijava aqueles pés, que eram só o início de um universo de intensidade, hedonismo, amor. Eram os pés feios mais lindos do mundo. É uma pena ele não ter visto você nascer com esses seus pezinhos perfeitos. Que agora assumiram o posto de mais lindos do mundo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Ouvidinho bom.

Hoje você ouviu um disco novo comigo: "Dinah Washington plays the standards". Mal o cd começou e você já começou a cantar. Sinal de aprovação. E dessa vez eu nem estava cantando junto. Dançamos do jeitinho que eu dançava com o seu pai — eu tentando dar os passinhos que há muito esqueci. Difícil não ter os passos dele para acompanhar. Agora é você quem acompanha os meus. Mas é bom, intenso, delicioso: sou eu grávida de você de novo. Vamos fazer isso enquanto eu agüentar carregar você. Depois a gente troca. Amor.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Feito tatuagem.

De: guifraga
Data: 4 de maio de 2006 15h9min43s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: estudos de desenho pelo corpo de alguém amado

amor, comecei fazendo um desenho que, na composição, tinha algo parecido com o que querias... Não, não tem outra coisa senão as volutas, mas é que soltei o traço.
Depois te mando só a tatuagem.

bj, Gui

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Imagens.

Eu me lembro, filho. De uma sensação de que eu não ia dar conta. De que tudo ia perder a cor, o som, o sentido. Mas eu me lembro também de uma surpresa. A surpresa de ver o tempo passar e a vontade continuar em mim. E a vontade crescer. Também como uma resposta, também como um chamado. Eu me lembro da peixinha do "Procurando Nemo" cantando alegre: "Continue a nadar, continue a nadar!". Eu me lembro de perceber que nem pensei em desistir — e de me espantar com isso. Não pensei. Por você, sim, mas também por mim. E porque finalmente o medo tinha ido embora — também ele. Eu me lembro de uma vontade de achar motivo pra sorrir de novo. E me lembro disso como se tivesse sido há muito tempo. Porque hoje, mesmo convivendo com o silêncio insuportável que me grita todos os dias, mesmo assim: tem o som da sua risada que é música, tem o seu sono que é o melhor silêncio, o silêncio de existir. Eu me lembro todos os dias, mesmo carregando o meu cantinho escondido, que ainda assim sou mais feliz. É que quando eu olho pra você eu lembro de mim.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Faltou um.

De: guifraga
Data: 26 de abril de 2006 10h31min35s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: saúde minha

amor fiz uma lista dos médicos que preciso consultar (coisinhas deixadas pra
trás)...

Otorrino (minha sinusite)

Dermatologista (unhas, pele)

Nutricionista (reprogramacão alimentar)

Clínico Geral (generalidades, rs)

Ortopedista ( Joelho e calcanhar)

Uf, pelo menos meu coração é bom, forte e gordo de amor.

um beijo bem saudável, G

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Universo ao meu redor.



E por falar nesse disco da Marisa Monte, ele foi comprado em junho de 2006, pouquinho antes de você resolver aparecer nas nossas vidas. Eu estava bem triste por ter me separado do seu pai e aquele disco me trouxe uma certa alegria. O término durou quase dois meses, mas na prática não ficamos separados por mais de 15 dias. Ele não admitia voltar, mas não saía de perto de mim. Passaram-se mais alguns dias e estávamos juntos de novo. Até que isso acontecesse, eu dançava sozinha na sala cantando “Eu só não te convido pra dançar porque o assunto que eu quero contigo é em particular”. Foi um disco importante para exercitar o “estar só”. Que bom que pude dançar essa música em companhia do seu pai. Hoje, ao me ver dançando com você ao som das mesmas canções, pensei no quanto elas me lembram aquela falta - aquela, que era temporária. Primeiro, eu sentia a falta dele. Depois, nós dois juntos sonhávamos com a sua presença. Agora, que você está comigo, sinto a falta dele de novo - mas agora não há o que esperar. Fico a me perguntar onde será que está registrada essa lei que dizia que a nossa família nunca poderia se reunir de verdade. Tenho que confessar que nem sempre é sincero quando canto "e eu já não me sinto só, com o universo ao meu redor". Usando palavras do próprio disco, "procuro explicar o meu sentimento e só consigo encontrar palavras que não existem no dicionário". Espero que você me perdoe, filho, mas tem dias que a gente não aceita bem as coisas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Como música.

Não existe despertador melhor do que ouvir sua vozinha de manhã. É um estímulo e tanto para sair da cama. Você brinca, canta para si mesmo, experimenta a voz e os sons que é capaz de produzir. E quando me vê, depois de um sorriso, entoa uma notinha, insinuando que quer dançar. Isso se tornou um hábito em nossas manhãs. Aperto você bem junto a mim, você mantém seu ouvido no meu coração e juntos dançamos pela sala. Seu disco preferido é Universo Particular, da Marisa Monte, cujo tom é bem confortável pra mim. Mas também já ouvimos Beatles, Dinah Washington, Rita Lee, João Gilberto. Ouvindo os meus agudos, você se contagia e começa a cantar também. Nesses momentos, como na gravidez, somos um só. Acho que você vai ser o maior pé-de-valsa, que nem o seu pai. Espero que eu consiga ensinar alguns passos, mesmo que ultimamente eu ande perdendo os meus. Sensibilidade, você já parece ter. Seu pai tocou vários instrumentos e é uma pena que eu nunca o tenha ouvido tocar nenhum. Era um dos planos dele voltar a ter um piano. Quanto a mim, já fiz aula de canto e amo música. Ouvimos muita coisa boa enquanto esperávamos você chegar. Cantamos e dançamos muito juntos. Sempre, desde o começo. É maravilhoso ver você sorrindo, cantando, sentindo. Alegre, bem-humorado, de bem com a vida. Filho, eu estou completamente apaixonada por você.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Será que ele também é piauiense?



Filho, esse cara é muito parecido com seu pai. Quero conhecer pessoalmente.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Eu e seu pai.


Ele me mandava imagens lindas, filho. Algumas feitas por ele, outras que ele achava na internet. Seu pai tinha um jeito surpreendente de dizer o que sentia. Quando seus olhos tocavam algumas coisas, revelavam ouro. Uma sorte ter convivido com ele.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Nem todo o tempo do mundo.

Nove meses, filho. Em nove meses a gente faz outra vida, mas não resolve a morte.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Poderia ter saído na Quem Acontece.



Olha, filho. Eu e você flagrados por um paparazzi num momento de intimidade.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Meu 007.

Eu queria ver Volver, ele queria ver Cassino Royale. Graças a Deus, escolhi a opção dele. Foi o último filme que vimos juntos no cinema e o meu primeiro e único 007. Mérito também de um amigo meu, que escreveu sobre o filme e me fez entender que eu estaria diante de uma espécie de primeiro filme da série. Acho que foi no domingo, 14 de janeiro. Antes de entrar, ele riu de mim. Fomos comprar a tradicional pipoca e a mulher perguntou: “Uma coca de 750ml ou duas de 500?” Prontamente eu respondi “duas de quinhentos”, com um risinho escondido no canto da boca. Piadinha particular do casal, que sempre protagonizava uma cena divertida: uma Coca Cola só e quando eu finalmente ia beber ele já tinha sorvido 80% dela, o que me causava sempre uma irritação. No fim do filme, eu tinha sofrido e estava apaixonada. “Eu quero esse homem pra mim”, disse brincando depois de um suspiro. “Vai ter que se contentar comigo”, ele respondeu. Mal sabia seu pai que ele era o James Bond dos meus sonhos. Aliás, sabia sim: fez isso de puro charme. No estacionamento, como de costume, dei uma discreta beliscadinha em sua bunda. Como de costume, ele riu satisfeito. A saudade que eu sinto, filho, é dele inteiro. Bom, ainda posso tentar alguma coisa com o Daniel Craig.

Para o seu mundo ser melhor, Francisco.

Atitudes para combater o aquecimento global


O aquecimento global ou o aumento da temperatura em todo o planeta deve-se ao acúmulo na atmosfera de gases propícios do Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. Vamos ficar parados e ser cozidos em "banho-maria" ou vamos tomar uma atitude e tentar frear a calamidade anunciada? Na seqüência, pequenas mudanças que você pode ajudar a promover que ajudarão muito.


  1. Troca de lâmpadas
    Se você trocar as lâmpadas convencionais por fluorescentes compactas estará deixando de gerar no mínimo 400 quilos de dióxido de carbono ao ano.
  2. Deixar o carro na garagem
    Caminhe, dê umas pedaladas, compartilhe o carro com o vizinho, ou vá trabalhar de "busão" de vez em quando. Cada 10 quilômetros é igual a menos 3 quilos de dióxido de carbono.
  3. Reciclagem
    Acredite ou não, se você reciclar apenas a metade do seu lixo estará deixando de emitir em torno de 1.000 quilos de dióxido de carbono anuais. Sua cidade não tem coleta seletiva de lixo? Tudo bem, promova a idéia entre os vizinhos da sua rua.
  4. Pressão dos pneus
    Manter a pressão dos pneus no valor correto ajuda a melhorar o rendimento do combustível do seu automóvel. Se não sabe a calibragem correta, olhe na parte interna da tampa de combustível, geralmente esta informação está ali. Cada litro de gasolina libera 2,5 Kg de dióxido de carbono.
  5. Água quente
    Aquecer água consome muita energia. Instale um chuveiro de baixa pressão e no verão tome banho frio ou chaveie a ducha para a posição adequada, menos 3 toneladas de dióxido de carbonoanuais.
    Em algumas lavanderias como as de hospitais é necessária a lavagem de roupas em água quente para uma correta assepsia, fora isso não há necessidade nenhuma e ainda gera mais 225 quilos de dióxido de carbono ao ano.
  6. Sacolas plásticas e embalagens
    Pare de brigar com a caixa do supermercado porque ela colocou toda a sua compra numa sacolinha só e evite produtos com embalagens plásticas. Se reduzir em 10% este tipo de lixo, diminuirá 545 quilos de dióxido de carbono ao ano.
  7. Ar Condicionado
    Com um simples ajuste de baixar a temperatura em 2 graus no inverno e subir 2 graus no verão você pode poupar uns 900 quilos de dióxido de carbono anuais.
  8. Árvores
    Uma só árvore absorve uma tonelada de dióxido de carbono ao longo de sua vida. Conserve-as, plante uma, duas, várias...
  9. Comprar a briga
    Converta-se em parte da solução. Difunda esta mensagem. Diga a seus amigos que vejam o trailer de "Uma verdade incômoda" para ver se todos tomamos consciência do problema. Comece a ser parte atuante na resolução do problema.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Eu, rio de mim.

Você vai aprender, filho. Que na vida a gente às vezes pensa coisas horríveis. Eu, por exemplo, quando só pensava em engravidar de novo depois de dois abortos, olhava uma grávida na rua e dizia "Por que ela pode e eu não?" Anos depois, quem diria, eu passearia pelas ruas empinando a barriga, com você embrulhadinho lá dentro. Então perdi seu pai. Como, se você ainda nem tinha nascido? E ao olhar uma gestante passei então a pensar: "Garanto que ela deve ter marido". O ser humano é muito engraçado. Vê antes a falta do que a presença. Ainda bem que eu sei rir de mim. Ainda bem que você ri pra mim.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

You are mine at last.


Seu pai vivia me dizendo coisas com músicas. Um jeito charmoso de dizer tudo sem se comprometer. (Seu pai era charmoso demais.)

Uma das primeiras que ele me mandou foi a que dançamos hoje de manhã, na voz da Dinah Washington. Para a paixão que a gente sentia, fazia todo o sentido.
Durante a gravidez, como em todo o namoro, eu e seu pai dançávamos muito. Passos cadenciados, sim, mas ele não perdia a capacidade de me surpreender. Durante a gravidez, como em todo o namoro, ele me conquistava. Aos poucos desenvolvi minha habilidade para acompanhar aqueles passos. Acho até que fiquei boa nisso.

Pensando bem, tem fundamento você gostar tanto de música, gostar de dançar e cantar comigo.

Éramos nós três, filho. Família reunida dançando no meio da sala.


sábado, 6 de outubro de 2007

All my loving.



Hoje seu pai faria 39 anos. Se estivesse aqui, eu daria um jeito de acordar mais cedo que ele, pegaria você no colo e iríamos os dois acordá-lo com beijos, babas e um presente escolhido com muito carinho. Ou talvez isso se tornasse um hábito diário, e não privilégio dos aniversários. Como ele não está mais aqui, deixo de presente a alegria de saber que há uma semana você começou a se arrastar e logo vai estar engatinhando. Pensando nele, acabamos de dançar de rostinho colado, eu e você, como fazemos quase todas as manhãs. Dessa vez a música era "All my loving", dos Beatles, na voz da Rita Lee. "Remember I'll always be true." Como sempre, em alguns momentos você cantarolou - no tom. Assim multiplicamos o amor que sentimos um pelo outro e mandamos para seu pai a energia de amor mais forte do mundo. And all our loving we'll send to you. Meu amorzinho. Meu pequeno grande amor.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Fica a pergunta.

Se eu já perdi tanta gente na vida, por que não perco a barriga também?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Quase nada.

Hoje fui fazer um exame na mesma clínica onde fazíamos as ultrassonografias durante a gravidez. Parei o carro no mesmo lugar de sempre e, no caminho a pé até o local do exame, me lembrei de como eu e seu pai disfarçávamos a ansiedade antes de cada ultrassom. O primeiro deles foi o mais difícil. Insegura devido a dois abortos que tive no meu outro casamento e depois de ter tido um sangramento, eu tentava preparar seu pai para o pior. Nem deixei que ele curtisse inteira a delícia de saber que ia ser pai, tamanho era o meu medo de que ele sofresse uma decepção. Esperamos bastante até ser atendidos, mas na hora H vimos uma coisinha de sete milímetros cujo coração batendo se fazia ouvir em alto e bom som. Era você. Eu me lembro que seu pai segurava nos meus pés descalços e apertava meus dedos, enquanto eu chorava por finalmente ter “chegado lá”. Um outro coração batendo dentro de mim, isso era milagre. Ele chorou também, eu sei. E saímos do consultório como dois adolescentes. Nos abraçamos na porta e choramos mais, misturando soluços e risadas. No caminho de volta para o carro, um desses momentos em que a gente sabe direitinho o que é felicidade: aquele espaço rápido entre uma ansiedade e outra, entre um problema e outro, em que tudo parece perfeito. E é.

domingo, 30 de setembro de 2007

De tirar o fôlego.

É o presente que ganhei da Tia Cecil.
Um email que seu pai mandou pra ela um mês depois de saber que estávamos grávidos.

---

From: guifraga
Date: Mon, 14 Aug 2006 10:25:15 -0300
To: Cecilia Torquato
Subject: ei Ceci

Ei, Ceci, quanto tempo, bonita.
Tenho pensado muito em vocês. A saudade é gorda e, paradoxalmente
inversa aos e-mails e contatos que não fiz.
Fiz foi andar um pouco em círculos, descobrir atalhos, perder o rumo e
achá-lo mais a frente, passar o dia, subir em árvore sem frutas, olhar
pra esse céu maravilhoso e sentir a alegria dentro da barriga.
Palavra puxa palavra, o verbo se fez carne de verdade. Ai, que delícia,
linda. Nada, nada mesmo, poderia ser mais delicioso e espantosamente
lindo quanto a surpresa que me aguardava, insuspeita e quieta.
Ando meio estupefato. Não me perturba o que não sei nem o que nem
imagino. Sou inteiro no mundo por ele (a), e isso me aquece os
desejos, me aguça a inteligência, me faz alerta e sorrio.

um beijo muito gostoso, prenhe de saudades,

Gui

dê beijos, muitos beijos no Matteo e alguns no Gutinho (rs)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Quem.

De: guifraga
Data: 18 de setembro de 2006 17h21min53s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Paulo Mendes Campos - um trecho

amorzinho.
"Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e
estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem
amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura
sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no
caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas;
quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso
sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se
deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os
lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita
pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos
presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou
aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda
verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto;
quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de
presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de
beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar
com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos;
quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem sabe
construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos
troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da
madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol
uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva
a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde
já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro;
quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga
adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e
andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da
armadilha terrestre."
(Paulo Mendes Campos, O anjo bêbado, Sabiá, Rio de Janeiro, 1969, p. 105)

Para seu pai, mais uma vez.

Indo para o trabalho, ouvi "A paz", do Gilberto Gil.
Pensei em mim, pensei em ti, chorei por nós.

Seu pai, em poucas palavras.

From: guifraga
Date: Tue, 14 Feb 2006 10:20:05 -0200
To: Cristiana Guerra
Subject: dia lindo

amor, o dia tá lindo lá fora.
quando der, dê uma olhadinha pela janela, eu vou estar olhando também,
aí nos encontramos na beleza de tudo que a gente vê.

um beijo bom, amor. G

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Todo dia.

Hoje eu acordei, vi você feliz no seu berço, brincando de abrir e fechar a boca. Como sempre, ao me ver você sorriu. Peguei você no colo, nos olhamos os dois no espelho e continuamos brincando. Eu abria e fechava a boca, você imitava. Você está a cada dia mais bonito e tem sido difícil sair para o trabalho. Sempre dá vontade de ficar mais um pouquinho. No caminho da agência, que não dura mais que seis minutos, como sempre me peguei com vontade de chorar. Ainda não chorei a falta do seu pai do jeito que ela merecia. Ou talvez a vontade de chorar nunca vá cessar. Como o dia amanhece sempre novo, todo dia amanhece uma nova vontade de chorar. Por que não? Chorar faz um bem danado. Quem me conhece me vê rindo todo dia. Sou alegre, até palhaça. Eu e seu pai fazíamos palhaçadas 23 horas por dia. Mais do que isso, sou feliz. Mas sou triste também, sou as duas coisas. Quero deixar de sentir tristeza, mas será que devo exigir mais isso de mim? Essa coisa de ser pai e mãe e patroa e dona-de-casa e publicitária e mulher e criativa e pessoa-cheia-de-fé-na-vida me deixa a mil por hora o tempo todo. O corpo padece. Perco o tempo que eu teria com você fazendo coisas práticas. Nas horas vagas, durmo. Nas horas vagas, abasteço a casa. Nas horas vagas, encontro os amigos. Nas horas vagas, não leio porque sempre me sinto cansada. Não tenho hora vaga pra chorar. Ao chegar na garagem da agência, um cachorro estava parado no meio da rua. Da avenida. Avenida Contorno. Temi por ele, gritei pra ele sair, mas além de sarnento ele estava fraquinho. Veio um carro e ele foi para o outro lado da avenida. Entreguei pra Deus, fechei os olhos e os ouvidos, entrei na garagem. Eu teria ligado para o seu pai. Ao menos teria desabafado com ele. Ou teria escrito um email pra falar sobre isso. Escrever emails para seu pai e receber os dele era das coisas mais gostosas da vida. Ele gostava de escrever. Escrevia pouco, mas lindamente. Me fazia sorrir mesmo nos dias de maior depressão. Tudo isso hoje está doendo muito, filho. Mas você é a parte boa. Você é meu pequeno, que faz a maior alegria do mundo. Me perdoe se coloco em você um excesso de sentimentos, de expectativas. Você é só um bebê e talvez esse blog exista pra isso mesmo, pra eu colocar tudo aqui e não em você. Mas um dia, eu confesso, quero poder chorar a falta dele no seu colo.

Para quem me lê.

A todas as pessoas novas que chegam aqui e me lêem, minhas boas-vindas, minha alegria, meu agradecimento por tantas palavras lindas, desejos bons. Desejo de volta, desejo em dobro. Acredito mais na vida e nas pessoas quando abro meu blog todo dia. E é maravilhoso perceber que ao escrever eu não apenas me curo, mas também levo alguma coisa nova para alguém. É esse nosso poder transformador: fazer da dor emoção boa, fazer da falta encontro. Tem uma frase que diz que sabedoria é aprender com a experiência dos outros. Então vamos lá, vamos trocar.

Um grande beijo meu e do Cisco.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O nome da dor.

Eu tive pai e mãe. E os perdi cedo, conheço essa dor. Para mim, a perda do seu pai dói muito diferente. Ele não era de onde eu vim. Era para onde eu ia.

A falta que faz falta.

As pessoas me dizem que você nunca vai sofrer a falta do seu pai, pois não chegou a conhecê-lo. Acho isso muito triste. Minha mãe não conheceu o pai, a história dela é como a sua. Mesmo assim ela contava um caso dele, um único caso, e sentia amor pelo que esse pequeno episódio dizia sobre ele. Eu herdei essa historinha do meu avô e narro para outras pessoas, como se o tivesse conhecido. Gosto da imagem doce e bem humorada que tenho dele. Também olho as fotos dos meus pais e acho uma delícia a saudade que sinto deles. Faltas também fazem parte, filho. Faltas são a prova da presença. Se depender de mim, vou fazer você sentir o seu pai para também se emocionar e gostar e contar as histórias dele. Ele é sua família. E apesar de não estar mais aqui, foi maravilhoso ele ter passado pela minha vida. E você é a maior prova da presença dele.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Heranças.

Data: 17 de novembro de 2006 16h54min0s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: minha raquete nova

Hoje ganhei uma raquete nova.
Minha raquete nova é bonita, é bonita.
Quem me deu minha raquete nova foi o meu amor.

meu amor de raquete que meu amor me deu de gostosa que ela é

um beijo

outro beijo
um beijo
outro beijo
outro beijo
um beijo
beijo outro


amorzinho, eu te amo, viu?

Hoje é aniversário do Café com Letras. Vai ter festa a partir das 18:00 com a Gabi tocando. Vamos dar uma passadinha por lá? só pra dar uma saidinha.

bjbjbjbjbj


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Você vai gostar de ler, filho.

As sem razões do amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga, nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Eu, você e Freud.

Você já tem quase seis meses e eu ainda não consigo acreditar que era você dentro de mim nesses nove meses de gravidez. Hoje você mamou quase o tempo todo segurando a mamadeira. Outro dia pegou meu rosto com as duas mãozinhas, olhou muito pra mim e me lambeu com gosto. Agora faz isso algumas vezes por dia – e eu adoro. Você é saudável, parece um bebê feliz e me olha muitas vezes como se brincasse comigo. Acho que tem humor, o que já era de se esperar, a contar pelos pais que tem. Você veio num momento em que eu não mais pensava em ter filhos, tinha chegado à conclusão de que isso não era pra mim. Adorei estar grávida. Curti cada minuto desses nove meses, mesmo depois que perdi seu pai. Adoro saber que você é filho do Gui. Não sei se eu seria a mãe que sou hoje com seu pai ao meu lado. Talvez eu fosse pior em algumas coisas, melhor em outras, mas com certeza a perda do seu pai me amadureceu ainda mais, me voltou a atenção para algumas coisas essenciais que talvez eu não tivesse visto sendo mãe em um casal. Também não seria quem sou hoje se tivesse meus pais comigo. Por outro lado, tenho muito medo de errar em muitas coisas, mas sei que toda mãe erra, de um jeito ou de outro. Se eu perder a moral com você, não tenho a quem recorrer. Perco e pronto. Isso em amedronta um bocado. Mas não sou e nem quero ser a Mulher-maravilha. Acho uma delícia passar o fim de semana com você, mas, invariavelmente, me sinto sozinha e desprotegida. Não daria conta do dia-a-dia sem uma boa babá, como foi a Célia e como é a Cris. E nem sem uma pessoa para me ajudar na casa, como a Odete. Uma das formas de ser uma boa mãe pra você é tê-las ao meu lado, sem a menor dúvida, e eu o faria também com seu pai aqui. Hoje penso que meu formato de vida com seu pai era perfeito e continuaria perfeito depois de você. Eu sempre achei que não seria o ideal a gente morar juntos, embora achasse romântica a proposta dele. Estar sob o mesmo teto o tempo todo não é absolutamente necessário para provar que duas pessoas se gostam. Acho que você será meu único filho. Eu quis muito que o seu pai fosse o último homem na minha vida, queria ficar com ele pra sempre. A gente brincava de ficar velhinhos juntos e tenho certeza de que seria uma boa idéia, pois o nosso papo era delicioso. Sinceramente não encontrei ainda alguém com quem eu tenha tamanha afinidade, mas acredito muito que isso vá acontecer. Não tive tempo de procurar e sei que na vida não é assim que a gente acha alguém. Eu me acho boa companhia e não quero ser uma mãe grudada em você. Quero muito ser sua amiga. E vou adorar quando você tiver idade pra vir dormir na minha cama de vez em quando. Aproveito que a nossa família é peculiar pra poder desrespeitar algumas leis. Nas últimas três noites você dormiu muito bem e foi uma delícia. Foi feriado e tínhamos passado três dias inteiros juntos. Acho que a gente está ficando mais à vontade um com o outro. Bom, por hoje é só. Daqui a pouco vou ter vontade de lhe dizer mais coisas. Filho querido.

Bom dia.



A foto que fiz dele no mesmo café da manhã em Ilha Grande.
Ele olhou pra cima também, fazendo graça. Bonitinho.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Com palavras não sei dizer.



Estava no fundo de tela do computador dele.
O que para mim é uma declaração de amor.
Eu também amava muito o seu pai, filho.
"O seu amor é tão bonito", ele me disse no nosso último encontro.
E era mesmo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Olha que lindo, Cisco.

Seu pai vendo você.

Só um ano atrás.

From: guifraga
Date: Wed, 6 Sep 2006 10:24:47 -0300
To: Cristiana Guerra
Subject: amorzinho

amorzinho, tenha um dia delicioso.
amo você, pequena.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Desde então.

18/07/06 - LAUDO

HCG - subunidade beta: Método: Quimioluminescência (Bayer)
Material: Sangue
Resultado: 791,80 mUI/mL
Valores de referência:
De 0,00 a 5,00 mUI/mL : Negativo
De 5,01 a 30,00 mUI/mL : Provável gravidez Idade gestacional (mUI/mL)
Acima de 30,00 muI/mL : Gravidez 1-2 semanas 30,00 - 500,00
2-3 semanas 100,00 - 5.000,00
Importante: Resultados na faixa duvidosa 3-4 semanas 500,00 - 10.000,00
( 5,01 a 30,00 mUI/mL ) deverão ser 4-5 semanas 1.000,00 - 50.000,00
repetidos dentro de no mínino 3(três) 5-6 semanas 10.000,00 - 100.000,00
dias após a data da realização do exame 6-8 semanas 15.000,00 - 200.000,00
para definição do resultado. 2-3 meses 10.000,00 - 100.000,00
Obs.: Resultados negativos não excluem gravidez em fase muito inicial.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Sem resposta.


From: Cristiana Guerra
Date: Wed, 17 Jan 2007 10:57:44 -0200
To: guifraga
Subject: Bom dia.


Que dia lindo, né, amor?

Já passei lá na Magma e deixei o presente pro Marcos.
Ele não tava lá.

Eu amo você.

Um beijo.


--------------------------------------------------------------

1. Foi mesmo um lindo dia, daqueles que ele adorava.

2. Eu disse que amava, mais uma vez. E ele nem precisou ler pra saber. O que me dá um certo alívio. Não faltou dizer nada.

Eterno.

Não sei dizer por que nem pra quê, mas uns dias antes eu disse a ele chorando: "Amor, eu tenho tanto medo de você morrer." E ele me respondeu sorrindo, sereno: "Amor, eu não vou morrer nunca. Você também não." É nisso que acredito.

domingo, 2 de setembro de 2007

DNA.



Eu e seu pai conversávamos muito sobre como seria seu nome todo. Queríamos que fosse apenas Francisco Guerra Fraga, pois ele sempre foi conhecido como Gui Fraga. Mas achamos que o Vovô Ivênio não ia gostar de não ver seu sobrenome no netinho, então decidimos que você se chamaria Francisco Guerra Fraga Moreira dos Santos. A gente já tinha decorado esse nome enorme – e já gostávamos dele. Mas, por ironia do destino, apesar de já estar separado há dois anos, no papel o seu pai ainda era casado. Resultado: depois que ele se foi eu soube que, como se não bastasse sofrer a falta dele, eu ainda não iria poder registrar você como filho dele. Existe um processo na justiça pra provar que você é filho do seu pai, imagine. Então, por hora, você é apenas Francisco Guerra, filho de Cristiana de Souza Guerra e de pai nenhum. Como se ele não quisesse assumir você, filho. Nem o nome dos seus avós, com quem você convive todo fim de semana, estão na sua certidão. Antes de ir fazer seu registro, consultei meu advogado e ele me garantiu que eu poderia colocar o Fraga apenas como homenagem, por enquanto, mesmo não colocando o nome do pai no registro. Isso me consolou, pois, por alguns meses (eu esperava que fossem só meses), por força das circunstâncias, você poderia ter o nome que imaginamos primeiro: Francisco Guerra Fraga. Mas a tabeliã, muito sensível, simplesmente não permitiu. Saí do cartório chorando, lembrando do quanto o seu pai teria prazer em registrar você. Pode demorar, filho, mas você vai ver escrito na sua certidão o nome de Guilherme Fraga Moreira dos Santos. Em respeito a ele, que foi muito mais feliz depois da notícia da sua vinda. Mas o destino ignorou tudo isso: você está incrivelmente cada vez mais parecido com o seu pai.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Eu, sua mãe.

Não quero falar só da falta, filho. Mas parece que foram as faltas que me trouxeram até aqui. Sou cheia de buracos, mas eles também me riem. Dão gargalhadas. Acontece que muita coisa mudou nos últimos sete, oito meses. Mais precisamente, no último ano inteiro. E não deu muito tempo de me encontrar de novo no meio de tudo. A notícia da sua vinda foi um susto delicioso. Depois o medo de perder você. Mas a barriga crescia e com ela expectativas, meu amor pelo seu pai, o amor dele por mim, minha confiança no futuro, nossos planos de finalmente construir uma família. E o medo de perder seu pai ia desfocando na minha cabeça. E ele se entregava, finalmente, como se a sua vinda também o tivesse confundido. Até que descansou no amor. Descansou mesmo. Desligou. Tudo fez sentido, todo o medo que eu sentia o tempo todo, todas as fugas de que ele fugia. Parecia final de filme, o desfecho de uma história fantástica. Por pouco não ouvi uma trilha apoteótica e os aplausos de pé. Teve platéia, sim. Mas era uma platéia atônita. Tanta gente deixando o seu choro pra depois pra me acudir. Era uma história, sim, filho. A história da minha vida. A história do seu pai. Era a sua história começando de um final tão belo quanto trágico. Tanta história em tão pouco tempo. Tanta falta pra tanto tempo pela frente. E um amor que doía de intenso, e que agora dói de ausência. Depois o amor por você. Tanto. Todo. Tonto. Que dói de bom e dói de falta. Dói porque tudo o que eu rio ao seu lado eu escondo de choro por outro lado. O quanto sou feliz por ter você é o quanto sou triste por ele não ter. Por isso embarquei numa viagem desenfreada. Excessos. De alegria, risos, mudanças, amigos, fotos, filmes, falas, compras, caderninhos, conclusões. Para não faltar, para o imprevisto ser previsto, para não perder a fé. E uma grande dificuldade de ficar quietinha em mim. De saber o que quero. É que eu ainda não assentei em mim de novo. Sou outra pessoa. Sou mãe. Continuo forte, sempre fui. Mas sou mãe. E o seu pai não está me vendo ser mãe. E eu não o estou vendo ser pai. Mas eu estou vendo você, filho. Vendo e vivendo você. E é maravilhoso e é indizível. Mas, como em meu amor pelo seu pai, continuo buscando o sentido em mim. Porque um dia você vai ganhar o mundo e a essa altura eu já quero ter me ganhado de novo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Companheira.



Grávida, Mar Roldan (ao centro), namorada do jogador Antonio Puerta, morto aos 22 anos após desmaiar em campo em jogo do Sevilla, chora durante o funeral, nesta terça-feira, dia 28 de agosto.

Ele adoraria.

Perder alguém cedo é passar a conjugar muito mais o futuro do pretérito.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Não cabe.

Tão fácil me habituei à sua presença, filho. Tão difícil acordar e não procurar seu pai por onde vou. A falta dele ocupa um espaço muito grande na minha vida.

domingo, 26 de agosto de 2007

Solidão.

É quando você descobre que a única pessoa que conhece a sua alma já não está mais aqui.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Bíblia.

Escrevo aqui pra não deixar fugirem as palavras que me vêem nesse turbilhão - e que você ainda não tem idade pra entender. Quando você crescer, Francisco, além da matéria da escola, dos clássicos e dos jornais, você ainda vai ter essa pilha aqui pra botar em dia. Perdoa a Mamãe, filho. Perdoa.

Amor de amigo é assim.

Olha como o seu pai era amado, filho. Isso aqui foi escrito por um grande amigo dele alguns dias depois que ele se foi:

"Perder um amigo é saber-se falta. O abraço não dado, o convite não aceito, o telefonema não feito. Uma vontade de gritar que a vida é bruta e que este sol que brilha lá fora pode muito bem ir à merda, porque seu amigo se foi e você não estava lá.
Falta humildade pra aceitar, falta espiritualidade pra confortar, falta mesmo a calma pra dizer que a vida é assim. O que sobra é a certeza de que o pão com linguiça, a cerveja, o provolone do boteco em frente à Lápis serão sempre amargos. Que o abraço de tchau que eu dei sexta passada (será que eu dei a porra do abraço?) junto com a promessa do squash em 2007 foi muito pouco. E quando chegar a hora, apagar o número do celular, o endereço do msn ou o email do Entourage vai ser só um jeito doloroso pra caralho de dizer que daqui o Gui não vai embora nunca. Te cuida, irmão. Que te cuidem bem." (Maurilo Andreas)

Achados.

Em 7 de setembro do ano passado, escrevi assim no meu diário: "O Gui estava muito emotivo e choroso hoje. Disse estar feliz demais. Hoje falamos do bebê com muito desejo e esperança. Pela primeira vez, consegui deixar o medo mais distante. Quero muito que tudo dê certo. Quero muito ser essa família com o Gui."

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Síntese.

É que o seu pai vai ser sempre o seu pai, Francisco.
Ele não vai ser sempre o meu amor.
Minha vida precisa continuar e isso me dói. Dói muito.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Mágica.

Hoje faço 37 anos, filho. Ano que vem vou ficar mais velha que o seu pai.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Segredo.

Faz sete meses, filho. Aos poucos ele se mudaria pra cá, eram nossos planos. E nesse dia ele ganhou de presente as chaves da nossa casa. Ficou feliz feito criança. Uma semana depois, lamentei que ele não tivesse me dado as chaves da casa dele. Tive que invadir – eu, que sempre cuidei tanto pra respeitar sua privacidade. Minhas chaves estavam lá, guardadas com carinho – ele nem teve tempo de usá-las. Não precisa mais de chaves. Deixou aquelas e levou com ele uma outra chave, não sem antes trancar lá dentro um amor enorme. Essa, ele nunca devolveu.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Para seu pai 2.

E agora de manhã, cantei e dancei com o Cisco no colo. Talvez contagiado pelo espírito do show de ontem, ele cantou junto comigo. No tom. Você ficaria muito orgulhoso, meu amor.

Para seu pai.

Ontem assisti à Duke Ellington Orchestra. Você estava comigo, eu senti. Dançamos juntos durante todo o show. Deu atá pra matar um pouco da saudade.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Delicadeza.

De: guifraga
Data: 9 de janeiro de 2007 10h0min21s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: amor

ei, linda.
quero que seu dia seja como o céu, lindo, quente, promissor, anunciador de bons ventos, de luz, de paz, de calor, de suor, de muito trabalho bom, com cheiro de novidade, com novidade e quente como meu coração por você.

um beijo, G

Pequena.

On 11/13/06 10:17 AM, "guifraga" wrote:

bom dia, minha pequena.
um beijo do papai no cisco e vários em vc

bjbjbj

domingo, 5 de agosto de 2007

Dois pra lá, dois pra cá.









A gente ouvia Dinah Washington. E dançava.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Quando.

Quando você tiver a minha idade, eu vou ter 72.
E um dia, eu sei, você vai achar as minhas tatuagens uma caretice.

terça-feira, 31 de julho de 2007

O detalhe.

Hoje voltei pela primeira vez à rua onde seu pai morava. Respirei fundo, acelerei e peguei o atalho que liga a nossa casa à casa que era do seu pai. Pelo caminho fui vendo as casinhas que a gente pensava em alugar. Um velhinho atravessava a rua, um menino bem pequeno se preparava pra soltar um papagaio. Tudo igual, no seu ritmo, como sempre foi. Só um detalhe: no prédio em frente ao qual estacionei o carro, não mora mais um tal Guilherme Fraga. Mas o sapateiro continua ali. Aliás, era ao sapateiro que eu estava indo. Deixei a bota pra colar a sola e conversei cinco minutos com o sujeito que sempre esteve ali. Naquele dia, como em tantos outros, contou o sapateiro, seu pai voltou do squash, saiu pra passear com os cães e voltou pra se trocar para depois ir trabalhar. O detalhe: naquele dia, ele não foi trabalhar. O bairro continua sua vida. A minha vida é que mudou com esse detalhe. A tragédia com o avião da Tam matou muitas pessoas, mas não fez diferença na minha vida. Seis meses antes, meu filho, não aconteceu nenhuma tragédia coletiva. Simplesmente um coração parou de bater - e isso fez toda a diferença na nossa vida. O seu coração batendo dentro de mim é que me manteve viva. Lembrei dos nossos planos de envelhecer juntos. E por um lado achei bom saber que seu pai não vai envelhecer, nem adoecer. Melhor assim. Tenho que acreditar que foi melhor assim.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Urgente.

Preciso lhe dizer, Francisco:
- que quando você aprender o que é pai, vai ter que aprender também o que é morte;
- que a morte é a única certeza da vida, embora a gente passe a vida inteira fingindo que ela não existe;
- que às vezes a vida inteira pode durar apenas 38 anos;
- que o mais importante é ter vivido 38 anos muito bem vividos;
- que quando o teste de gravidez deu positivo, antes de parar pra pensar eu sorri;
- que depois de parar pra pensar eu continuei sorrindo;
- que eu continuo sorrindo até hoje;
- que você me faz querer brincar de novo;
- que você fez o seu pai voltar a fazer planos;
- que, de uma certa forma, o seu pai já pegou na sua mão;
- que eu não poderia ter escolhido alguém melhor com quem ter um filho - e ele me dizia a mesma coisa;
- que o seu pai nunca se esquecia de cobrir a minha orelha quando íamos dormir - e com certeza ele nunca se esqueceria de cobrir a sua;
- que eu tinha uma urgência de amar e viver e estar perto do seu pai que hoje faz muito sentido;
- que eu sempre tive um medo danado do seu pai morrer;
- que é horrível ver acontecer justamente aquilo de que a gente tem mais medo;
- que você salvou minha vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ai, filho.

Se ao menos seu pai falasse comigo.

sábado, 21 de julho de 2007

Email 2.

De: guifraga
Data: 22 de novembro de 2006 10h46min3s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: É powerpoint, é piegas, mas você vai se emocionar.

Vc é o meu amor. o Cisco tb.


On 21/11/2006, at 19:40, Cristiana Guerra wrote:

Amor,

Que alegria ter você ao meu lado.
E um filho seu dentro de mim.

Email.

De: guifraga
Data: 10 de janeiro de 2007 16h6min4s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: amoooor

amooooooooooooor, só agora meu mail voltou a funcionar. desde ontem...

vc quer dormir comigo hoje, amorzinho meu?
estou com saudades de dormir pertinho de vc.

um beijo goshtoso, com meu ipod no ouvido.rs

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Laudo indeterminado.

Bem a cara do seu pai: descobrir a causa seria uma invasão de privacidade.

Repertório

Você já tem sua música predileta, Francisco. É "Don't be cruel", do Elvis.

Calendário.

Tem dias que são o seu pai, Francisco. Amanhece, o sol lá fora diz o nome
dele, o silêncio do sábado chora a sua ausência. E de repente tudo o que era
alegria vira um buraco. Tem dia que tudo o que andei se desfaz. E volta uma
tristeza aguda, a maior do mundo. Em dias como esses, só você faz sentido.
Porque você é a continuação da nossa história. Tem dia que o sol pode
brilhar lindo lá fora, mas é um brilho triste. Tem dia que nem chove, mas é
dia de choro. Volta e meia tem um dia desses. Mas tem sempre um outro dia,
filho. Foi você que me ensinou isso.

Dia dos Pais.

Tá chegando. É o caso de eu ganhar presente?

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Bala Soft.

Engoli meu pai e minha mãe. Hoje sou os dois.

6 meses desde aquela manhã

A primeira vez que seu pai fez café da manhã pra mim, Francisco, ele trouxe
um ovo quente com torradinhas cortadas em lascas, dispostas no prato como
uma fogueirinha.

Seu pai cozinhava que era uma delícia. Mais gostoso ainda era ver o prazer
que ele sentia ao preparar um prato qualquer – mesmo um simples sanduíche.

Bastava parar ao lado dele e dizer que estava com fome para ouvi-lo
perguntando animado: “O que você quer comer?” E um simples ovo frito virava
a comida mais gostosa do mundo.

E não era preciso ser apaixonado pelo seu pai pra achar isso.

Ele era um cara presente nas pequenas coisas da vida. Não nos dias de festa,
tomando champanhe - no dia-a-dia mesmo. Mas se fosse preciso, ele também
providenciava o champanhe em plena segunda-feira à tarde.

Seu pai acordava cedo, olhava pro céu azul e comemorava. Sorvia cada raio de
sol fazendo alguma coisa simples, mas bem gostosa. Não passava um dia sem
dar um abraço quente em alguém. E nos raros dias em que tinha preguiça de
acordar, esperneava na cama feito criança. Você precisava conhecer o olhar e
o sorriso de criança que seu pai tinha. Vocês iam brincar horas juntos.

Papai e Mamãe também passavam horas rindo juntos. Cantavam juntos ao longo
de toda viagem. Faziam piada de tudo. Ríamos também nos emails que
trocávamos, nos telefonemas. Imagine, Francisco, que ele gostava de ver a
novela das oito com a Mamãe. Era delicioso fazer e falar qualquer bobagem
com ele, como também era bom ficar em silêncio. É que com o Papai a Mamãe
sentia aquela sensação quase de alívio que a gente tem quando encontra o
amor de verdade. Um dia você vai saber o que é isso.

O amor do Papai pela Mamãe, Francisco, fez parte da vida dela antes mesmo
da gente namorar: na geléia de morango que ele mesmo fazia, no queijo que ele
trazia pra Mamãe sempre que ia ao Mercado Central, no abraço de todo dia de
manhã, no jeito especial de ajudar a Mamãe no trabalho ou mostrar uma dica,
um caminho mais fácil pra fazer uma coisa qualquer. Seu pai era uma presença
que trazia delicadeza pra vida da gente.

A gente nunca morou juntos, mas brincávamos de casados de sexta a
domingo. E era muito gostoso.

Quando eu estava esperando você, com aquele barrigão, era seu pai quem fazia
supermercado pra mim. O último, eu me lembro bem: ao abrir as sacolas, entre
um item e outro da lista, encontrei chocolate, azeitonas pretas bem grandes,
biscoitos, frutas fresquinhas e o meu sorvete predileto.

O vidro de azeitona ainda durou muito tempo na geladeira, mesmo depois que
seu pai deixou esse mundo, me fazendo lembrar as palavras da sua bisavó
Juju: “Que absurdo as coisas durarem mais do que as pessoas”.

E acredite, Francisco: naquela manhã de 17 de janeiro, na minha geladeira,
tinha um pote de geléia de morango que ele sempre preparava pra mim. E foi
por volta das nove da manhã que eu comi a última colherada.

Ele me deu tanto amor, filho, que até a falta dele me deixou presentes.
Com ela eu descobri quantos amigos eu tenho. E a Mamãe, que sempre foi tão
independente, aprendeu a dizer “Preciso de você”. E não passa um dia sem ver
um amigo, sem falar ou ouvir uma palavra de carinho. Chama as pessoas de
queridas – e é sincero. Mamãe herdou os amigos dele e herdou também o amor
dele pelos amigos.

Pra Mamãe Papai deixou de presente uma família nova que, como você, ela
aprende a conhecer a cada dia. Que bom ter família de novo, meu filho. Que
jeito lindo seu pai encontrou de continuar vivendo.

Vejo você crescendo e penso em como o Papai ficaria feliz ao ver você tão
parecido com ele. Fico em dúvida se ele lhe daria banho ou trocaria fralda
de cocô. Se ele aprovaria as nossas escolhas, essas que faço sozinha. Mas de
algumas coisas eu tenho certeza, meu filho: ele adoraria fazer você dormir.
E chegaria mais cedo em casa pra ver você acordado. E levaria você pro clube,
pra passear no mato. E cantaria pra você.

Não consigo entender como seu pai desapareceu, mas também não sei explicar o
milagre do seu aparecimento, Francisco. Só sei que 2007 é o pior e o melhor
ano da minha vida.

Eu conto tudo isso pra você, meu filho, porque preciso contar pra mim mesma.
É que pra dar conta da morte a gente arranja uma espécie de esquecimento,
não da pessoa, mas da sensação que a gente tinha ao lado da pessoa. E eu não
quero esquecer seu pai, Francisco, porque quero que você o conheça bem.

Porque muito antes de o coração dele parar, ele ouviu o seu coração bater. E
chorou. Ele viu você desde que você só tinha sete milímetros até chegar a
uns trinta centímetros. E se orgulhou ao ver minha barriga crescer. E disse
que te amava, falando bem pertinho da barriga. E disse “Que gostoso!” ao ver
o seu pezinho no ultrassom. E gravou uma seleção especial de músicas
clássicas pra você. E desenhou a parede do seu quarto – mas achou que ainda
não estava à sua altura. E apertou junto ao peito as roupas e sapatinhos que
compramos pra você, chorando só de pensar na emoção que seria ver você
chegar. E parou de fumar, coisa difícil de se fazer, pra poder viver mais
tempo junto de você. Ele te amou muito, Francisco. Você nem imagina. E foi
muito mais feliz depois de saber que você existia.

Hoje estamos assim: Papai em algum lugar bem bonito e a Mamãe aqui,
nós dois a cuidar de você, filho, e em você o amor que nos une feito mágica.
Como ele mesmo dizia, a gente faz uma grande dupla.

Se era a hora de o Papai ir, você foi o jeito que Deus encontrou pra gente
continuar vivendo esse amor. Esse amor que não cabe.