sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Quem.

De: guifraga
Data: 18 de setembro de 2006 17h21min53s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Paulo Mendes Campos - um trecho

amorzinho.
"Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e
estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem
amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura
sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no
caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas;
quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso
sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se
deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os
lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita
pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos
presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou
aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda
verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto;
quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de
presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de
beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar
com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos;
quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem sabe
construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos
troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da
madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol
uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva
a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde
já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro;
quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga
adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e
andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da
armadilha terrestre."
(Paulo Mendes Campos, O anjo bêbado, Sabiá, Rio de Janeiro, 1969, p. 105)

5 comentários:

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...
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Ana disse...

Nossa, isso é muito o Gui! Lembro-me de uma vez ter mostrado pra ele uma foto da floresta amazônica na primavera, toda florida, linda! Eu tinha passado um mês na Amazônia e não acreditei quando subi num mirante e vi a floresta maravilhosa, toda em tons de rosa, por causa das imensas flores que surgiam na copa das ávores.Eu contei isso pro Gui e levei a foto pra ele ver. Ele repetia: "que lindo, que lindo!" com um olhar tão intenso, como se estivesse no meio da floresta. Foi mais um detalhe que me chamou a atenção naquele mocinho tão especial! Ele vivia a beleza das coisas mais simples em toda a sua intensidade... Beijos

Flávia disse...

hoje foi a gente que chorou. e fez muito sentido. é bom ver que existem pessoas como você e o gui que compartilham da sensibilidade pelas coisas pequenas e realmente importantes da vida. como diz a querida adélia prado: "uma borboleta alí parada. ou é deus, ou é nada". bom início de semana pra gente. forte abraço, flavinha e gui.

Alline Jajah disse...

lindo. puramente lindo.