quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Todo dia.

Hoje eu acordei, vi você feliz no seu berço, brincando de abrir e fechar a boca. Como sempre, ao me ver você sorriu. Peguei você no colo, nos olhamos os dois no espelho e continuamos brincando. Eu abria e fechava a boca, você imitava. Você está a cada dia mais bonito e tem sido difícil sair para o trabalho. Sempre dá vontade de ficar mais um pouquinho. No caminho da agência, que não dura mais que seis minutos, como sempre me peguei com vontade de chorar. Ainda não chorei a falta do seu pai do jeito que ela merecia. Ou talvez a vontade de chorar nunca vá cessar. Como o dia amanhece sempre novo, todo dia amanhece uma nova vontade de chorar. Por que não? Chorar faz um bem danado. Quem me conhece me vê rindo todo dia. Sou alegre, até palhaça. Eu e seu pai fazíamos palhaçadas 23 horas por dia. Mais do que isso, sou feliz. Mas sou triste também, sou as duas coisas. Quero deixar de sentir tristeza, mas será que devo exigir mais isso de mim? Essa coisa de ser pai e mãe e patroa e dona-de-casa e publicitária e mulher e criativa e pessoa-cheia-de-fé-na-vida me deixa a mil por hora o tempo todo. O corpo padece. Perco o tempo que eu teria com você fazendo coisas práticas. Nas horas vagas, durmo. Nas horas vagas, abasteço a casa. Nas horas vagas, encontro os amigos. Nas horas vagas, não leio porque sempre me sinto cansada. Não tenho hora vaga pra chorar. Ao chegar na garagem da agência, um cachorro estava parado no meio da rua. Da avenida. Avenida Contorno. Temi por ele, gritei pra ele sair, mas além de sarnento ele estava fraquinho. Veio um carro e ele foi para o outro lado da avenida. Entreguei pra Deus, fechei os olhos e os ouvidos, entrei na garagem. Eu teria ligado para o seu pai. Ao menos teria desabafado com ele. Ou teria escrito um email pra falar sobre isso. Escrever emails para seu pai e receber os dele era das coisas mais gostosas da vida. Ele gostava de escrever. Escrevia pouco, mas lindamente. Me fazia sorrir mesmo nos dias de maior depressão. Tudo isso hoje está doendo muito, filho. Mas você é a parte boa. Você é meu pequeno, que faz a maior alegria do mundo. Me perdoe se coloco em você um excesso de sentimentos, de expectativas. Você é só um bebê e talvez esse blog exista pra isso mesmo, pra eu colocar tudo aqui e não em você. Mas um dia, eu confesso, quero poder chorar a falta dele no seu colo.

14 comentários:

N. Real disse...

Ai. Que vontade de te abraçar!

nós disse...

e te pegar no colo e passar a mão na sua cabeça, força !

Pequena disse...

já me sinto abraçada, já me sinto no colo. bem-vindas.

Marina disse...

Cris, lembrei da Clarice Lispector:
"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." Fique bem. Beijo em vc e no Cisco (pelo visto, cada vez mais risonho!) Marina

Ana disse...
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Ana disse...
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odette disse...

vc.me emociona cada dia mais.Seu modo de encarar a dor é muito parecido com o meu.Sofre sem amargura.O Francisco tá lindo....e esta dor intensa vai dar lugar a uma dorzinha mais singela,vc.vai ver.bjs

Maria Luiza Pedrosa disse...

Sabe que ontem quando desci do ônibus, subindo a rua da minha casa depois de um longo dia de trabalho, me deu uma vontade de chorar que eu tava segurando há muito tempo... aí lembrei do seu post, cheguei em casa e deixei umas poucas lágrimas rolarem. Ainda não sou expert no assunto.

deboradauanny disse...

Cris que coisa mais linda esse blog!!!! Estou conhecendo hoje e já to apaixonada... Até pela net é possível ver sua luz! Mil Bjs

Débora Dauanny (solution)

Pequena disse...

Débora! Bem-vinda querida querida!

silvanark disse...
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silvanark disse...

Cris, hoje, chegando de uma viagem breve, num domingo sem muito o que fazer,resolvi procurar seu blog, que vi numa revista recente. Não costumo ler blogs, aliás, acho que em geral são chatos. A princípio, me interessei pelo "hoje vou assim" (sou apaixonada por moda!) e de lá passei para este. Foi muito apropriado para o meu dia. Amei seus comentários espirituosos e sinceros, escritos de uma forma incrivelmente clara e precisa. Senti como se fossem meus próprios sentimentos ali expressos. Tenho a impressão de que vou aprender muito com sua história! Pretendo ler aos poucos. Que Deus te inspire a escrever mais. Beijo.

Patrícia Ferraz disse...

A primeira vez que li seus textos, há exatamente uma semana (me lembrei hoje de que foi na terça passada) tive vontade de chorar, mas, como estava no trabalho, segurei muito e consegui.
Outras vezes, as lágrimas chegaram a brotar, discretas, nos cantos dos olhos, mas foram reabsorvidas pela força do pensamento. Ao fim deste post, porém, não deu, Cris.
Todo mundo já te falou e eu, como apreciadora da linguagem e do bom português devo frisar: vc escreve muito bem. Mas não acho que se deve a isso a maestria dos seus textos. Eles são fortes, bons, lindos porque têm sentimento.
No último comentário eu disse que eles provocam em mim emoções variadas, tudo junto, misturado. Suas palavras transmitem dor, falta, vazio, alegria, compensação, felicidade, deleite, prazer, orgulho, esperança, desilusão, amor; muito amor. Tudo isso, com muita facilidade. E é por esse motivo, Cris, principalmente por isso, que tantas pessoas vêem aqui para ler vc.
É muito lindo vc permitir isso e gostar e honrar os seus leitores com pitadas diárias de vida. Como escrevi num dos meus primeiros posts no meu blog, "Que a dor é sinal de vida e passa."
Abraço!

MoiselleMad disse...

O cachorro foi atropelado?

Lindo o seu blog... mas fiquei com essa pergunta na cabeça :)

Bjo!