sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A passagem.

Ao chegar na pousada em Ilha Grande, sabíamos que iríamos encontrar apenas o nosso quartinho desocupado. Já viajamos preparados para encontrar uma grande turma por lá. Uma turma que a gente nunca tinha visto na vida.

Pousada simples, banheiros coletivos, quartos bem perto um do outro, comida caseira e uma praia calma. Já conhecíamos o lugar. Perfeito pra gente ficar quieto e esperar o ano chegar. E eu estava ansiosa pela vinda de 2007. Finalmente você iria nascer, e acho que esperei bem mais que nove meses por isso.

Embora a turma fosse de São Paulo e nós, de Belo Horizonte, a amizade aconteceu rápido. Mesmo porque, seu pai era praticamente paulistano: nasceu no interior do Piauí porque a família morava lá na época, mas foi bebezinho pra São Paulo e só alguns anos depois é que veio morar aqui. O fato é que em poucas horas estávamos sentados contando piadas. E a sua mãe, filho, conta piada feito um homem. Chega a juntar gente em volta.

Nosso quartinho era bem pequeno. Pequeno mesmo. Mas de frente para o mar. E foi lá, diante de um mar verde e transparente, que você começou a se mexer de um jeito engraçado na minha barriga. A essa altura eu já podia sentir suas mãozinhas ou pezinhos apontando, indo de um lado para o outro, o que causava uma certa aflição no seu pai. A mim só causava alegria a sensação de você se espreguiçando ou lutando por mais espaço dentro de mim. A cada dia você era mais de verdade.

Um dia de chuva, dois, três. Chegamos a pensar em voltar antes do tempo. Mas fomos ficando – assim como a chuva. Eu me lembro de um diazinho de praia, em que fomos convidados para um passeio de barco. Na hora H, seu pai resolveu desistir. Achou que seria cansativo pra mim. E, embora eu insistisse, não quis ir sozinho. Minhas costas doíam, já não era fácil dormir. E a cama, eu confesso, estava bem apertadinha. Se para dois ela já era pequena, imagine pra nós três. Durante o dia, sem medo do ridículo, seu pai levava cadeira e travesseiro para onde quer que eu me alojasse na praia. Era ele cuidando da família.

Tão logo o tédio tomou conta, começamos a fotografar objetos do quarto, pés, pernas, mãos. Líamos em voz alta. A gente tinha que inventar o que fazer. E não perdíamos o bom humor. Depois veio o tédio de só comer peixe. E ele passou a sonhar com “carninha”, lembrando os tempos de criança internado no hospital pra curar o pezinho.

Mas tinha tantos novos amigos. Então viajamos para dentro deles – e isso valeu mais que os mergulhos no mar.

Eles tinham ido dispostos a organizar um réveillon na beira da praia. Acabamos participando. Seu pai fez barquinho de bambu, eu ajudei a colocar velas em latinhas de cerveja. Foi uma noite especial de passagem de ano, e isso veio de brinde no pacote. Era uma festa entre amigos e tínhamos a sorte de estar entre eles.

Seu pai dançava em paz e feliz. À meia-noite nos beijamos emocionados pelo que estava por vir. Era muito amor num lugar só. Não tinha como não pensar que aquele seria o ano perfeito.

Lembro desses dias com alegria. Mas de vez em quando tenho uma sensação estranha ao olhar para o ano que praticamente passou. Por alguns momentos, sinto como se eu tivesse parado no tempo. Parece que ainda estou diante de 2007, mas ele já foi. Em outros, sinto que o tempo correu rápido demais e acabou por me distanciar de lembranças importantes. Escrever aqui é exercício necessário para colocar os pés no chão.

Dois meses depois você estava nascendo. “Então é verdade?”, foi o que eu perguntei ao ver seus pezinhos pela primeira vez. Acho que foi a primeira parte sua que eu vi.

Hoje estou diante do seu sorriso, seus gritinhos, seu bom humor. Seus olhos que comentam cada situação de um jeito bem seu. Cada dia é mais verdade a sua presença, como a cada dia é mais verdade a ausência do seu pai. Tanto, que às vezes levo um susto ao deparar com a lembrança dele, como se sua existência tivesse se transformado suavemente num sonho. Mas então eu olho pra você e confirmo: sim, é verdade. É verdade você e o que vivi com seu pai. É verdade essa história que não acaba. É verdade esse amor que só cresce.

Em 2008, vai ser maior ainda.

3 comentários:

Ana disse...

lindo texto!

litza disse...

... puxa... sem palavras...espero 2008..feliz...amoroso...esperançoso... delicado...
beijinhos

Batata Frita® disse...

Simplesmente lindo...