terça-feira, 31 de julho de 2007

O detalhe.

Hoje voltei pela primeira vez à rua onde seu pai morava. Respirei fundo, acelerei e peguei o atalho que liga a nossa casa à casa que era do seu pai. Pelo caminho fui vendo as casinhas que a gente pensava em alugar. Um velhinho atravessava a rua, um menino bem pequeno se preparava pra soltar um papagaio. Tudo igual, no seu ritmo, como sempre foi. Só um detalhe: no prédio em frente ao qual estacionei o carro, não mora mais um tal Guilherme Fraga. Mas o sapateiro continua ali. Aliás, era ao sapateiro que eu estava indo. Deixei a bota pra colar a sola e conversei cinco minutos com o sujeito que sempre esteve ali. Naquele dia, como em tantos outros, contou o sapateiro, seu pai voltou do squash, saiu pra passear com os cães e voltou pra se trocar para depois ir trabalhar. O detalhe: naquele dia, ele não foi trabalhar. O bairro continua sua vida. A minha vida é que mudou com esse detalhe. A tragédia com o avião da Tam matou muitas pessoas, mas não fez diferença na minha vida. Seis meses antes, meu filho, não aconteceu nenhuma tragédia coletiva. Simplesmente um coração parou de bater - e isso fez toda a diferença na nossa vida. O seu coração batendo dentro de mim é que me manteve viva. Lembrei dos nossos planos de envelhecer juntos. E por um lado achei bom saber que seu pai não vai envelhecer, nem adoecer. Melhor assim. Tenho que acreditar que foi melhor assim.

6 comentários:

Redatozim disse...

A diferença da tragédia particular não é o tamanho da dor, mas o alcance. E no seu caso, Francisco, a dor da perda virou redobros de amor da sua mãe por você.

ritacassiambbrag disse...

Oi, você não me conhece, nem tampouco eu a você. Seu blog apareceu meio que por acaso na minha frente, comecei a ler e me emocionei muito. A história da sua "família" é muito linda - linda mesmo, ainda que uma parte tão bela dela tenha partido tão cedo!
Contudo, as últimas palavra desta sua postagem me tocaram profundamente: foi uma das declarações de amor mais belas que eu já vi em toda a minha vida! Amar tanto a alguém a ponto de agradecer aos céus pelo fato de a passagem dela possibilitará que ela jamais adoeça ou passe por privações! Tem que amar de verdade – não é da boca pra fora!!!!
Tenha a certeza de que – de onde seu Gui estiver – e eu também creio que exista algo muito mais iluminado do outro lado – ela está sentindo um enorme orgulho de você!
Toda a sorte do mundo, menina, para você e seu pequeno Francisco e seu Gui!
Um dia Deus te dará a chance de reencontrá-lo – isso é certo!!!- leve seu blog e vocês terão muito o que sorrir!!!!!
Um grande beijo!!!
Rita de Cássia

raquel medeiros disse...

"a vida estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?"

esse teu post me lembrou esse trecho do chico e do quanto é difícil tocar (bem) a vida apesar da perda e de tudo em volta insistir em "ignorar" a dor da gente. bonita mesmo é a forma como você se desprende (da dor, ainda que presente) e se prende (ao que realmente importa).

um ótimo fim de semana para você e o francisco.

beijo grande.

Mariana disse...

¨O seu coração batendo dentro de mim é que me manteve viva.¨

=~

Anônimo disse...

Vim parar aqui por mero acaso!! Porque vi anuncio do seu "hoje vou assim" na revista de domingo do Jornal do Brasil!! E fiquei mega emocionada com a sua historia!!! E nem preciso dizer que o Cisco é lindao!! Acho que voce já sabe disso!!

Dri disse...

Vc já parou pra pensar q a missão dele era escolher uma mãe MARAVILHOSA para o filho dele?

Texto: Partida e Chegda - Victor Hugo
Quando observamos, da praia,
um veleiro a afastar-se da costa,
navegando mar adentro,
impelido pela brisa matinal,
estamos diante de um espetáculo
de beleza rara.

O barco, impulsionado
pela força dos ventos,
vai ganhando o mar azul
e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e
só podemos contemplar
um pequeno ponto branco
na linha remota e indecisa,
onde o mar e o céu se
encontram.

Quem observa o veleiro sumir
na linha do horizonte,
certamente exclamará:
"já se foi".
Terá sumido?
Evaporado?

Não, certamente.
Apenas o perdemos de vista.

O barco continua do mesmo
tamanho e com a mesma
capacidade que tinha quando
estava próximo de nós.

Continua tão capaz quanto antes
de levar ao porto de destino
as cargas recebidas.


O veleiro não evaporou, apenas
não o podemos mais ver.

Mas ele continua o mesmo.
E talvez, no exato instante
em que alguém diz:
já se foi",
haverá outras vozes,
mais além,a afirmar:
"lá vem o veleiro".

Assim é a morte.

Quando o veleiro parte, levando
a preciosa carga de um amor
que nos foi caro, e o vemos sumir
na linha que separa o visível
do invisível dizemos:
"já se foi".
Terá sumido?
Evaporado?

Não, certamente.
Apenas o perdemos de vista.

O ser que amamos continua
o mesmo.
Sua capacidade mental
não se perdeu.

Suas conquistas seguem
intactas, da mesma forma que
quando estava ao nosso lado.

Conserva o mesmo afeto
que nutria por nós.

Nada se perde, a não ser
o corpo físico de que não mais
necessita no outro lado.

E é assim que, no mesmo
instante em que dizemos:
já se foi", no mais além,
outro alguém dirá feliz:
"já está chegando".

Chegou ao destino levando
consigo as aquisições feitas
durante a viagem terrena.

A vida jamais se interrompe
nem oferece mudanças
espetaculares, pois a natureza
não dá saltos.

Cada um leva sua carga
de vícios e virtudes, de afetos e
desafetos, até que se resolva
por desfazer-se do que julgar
desnecessário.

A vida é feita de partidas
e chegadas. De idas e vindas.

Assim, o que para uns parece
ser a partida, para outros
é a chegada.

Um dia partimos do mundo
espiritual na direção do
mundo físico; noutro partimos
daqui para o espiritual, num
constante ir e vir,
como viajores da imortalidade
que somos todos nós.