sexta-feira, 16 de maio de 2008

A vida é uma ilha desconhecida.

“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, diz o Saramago no livro “O conto da ilha desconhecida”. Em março de 2005, dois anos antes de você nascer, dei esse livro para o seu pai. Na dedicatória, escrevi assim: “Aonde quer que você vá, por ilhas visitadas ou desconhecidas, em busca de seja lá o que for, leve com você o meu gostar.” Espero que ele tenha feito o que pedi.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Para aplaudir.

Não é só porque tem minha querida amiga Cynthia Falabella no elenco, mostrando mais uma vez a grande atriz que é. Não é só porque tem também meus amigos Thales Bahia e Lucas Gontijo, além de outros diretores talentosos. Não é só porque o elenco é da Ana Régis, a direção musical é do Ronaldo Gino. (Gente, eu tenho muitos amigos talentosos!) E corro o risco de esquecer muita gente. Também não é só porque este filme é resultado de anos e anos de trabalho suado. Acabo de voltar da pré-estréia de "Cinco frações de uma quase história" com o maior orgulho de ser mineira. O filme tem qualidade de roteiros, elenco, direções, fotografia, montagem, trilha. Merece você na platéia. É cinema que dá gosto de falar que é nosso. Além do mais, prestigiar o cinema brasileiro cai bem em qualquer estação. Vi e recomendo. E uso meus blogs pra divulgar sem ninguém ter que me pedir isso. Faço com prazer mesmo. Vai lá e depois me conta.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Inteiro.

“Palavra puxa palavra, o verbo se fez carne de verdade. Nada, nada mesmo, poderia ser mais delicioso e espantosamente lindo quanto a surpresa que me aguardava, insuspeita e quieta. Ando meio estupefato. Não me perturba o que não sei nem o que nem imagino. Sou inteiro no mundo por ele(a), e isso me aquece os desejos, me aguça a inteligência, me faz alerta e sorrio.”

(Escrito pelo seu pai, para uma amiga, pouco tempo depois que ele soube da sua vinda. Pra você ver como fez seu pai feliz, filho.)

sábado, 10 de maio de 2008

O mapa.

Ela nunca fazia a lição de casa comigo. E era boa essa tática: a gente estudava direitinho e não dependia de ninguém. Mas teve um dia, um único dia, e eu já devia ter lá meus 14 anos, em que eu tinha que fazer um mapa-mundi. À mão. Para mim, não tinha coisa pior. Então ela rompeu com suas próprias regras e desenhou cada contorno, escreveu cada nome de país, com a sua própria letra - e era linda a sua letra. Ela simplesmente fez o mapa pra mim. Eu nem precisei assistir, recebi o trabalho pronto. Puro amor. Impresso a lápis no papel vegetal.

Às vezes me pergunto por que falo tão pouco dela. Faz muito tempo que perdi minha mãe, filho. Quase catorze anos. Minha cabeça arranjou um esquecimento para que eu pudesse seguir em frente. E eu esqueci o que é ter mãe. Agora quero encontrar um mapa que me leve a ela, dentro de mim. Desde que me tornei mãe, essa saudade tem me feito falta.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Nem ele, nem eu.



Não sou eu, não é seu pai. É seu pai e sou eu.
Somos nós. Não somos nós.
É você.
Que não é nenhum de nós.
Que é mistura e é tão puro.
Em você sou ele.
E ele me é.



Tão logo se fez a falta do seu pai, minha angústia eram muitas. Eu falava, falava, falava. Tentava com desespero traduzir o que sentia, como se pela boca esse aperto pudesse ir embora. Mas não. O aperto não vai embora. Talvez aperte menos quando sentimos que conseguimos traduzir. Dividir. Quando sentimos que o outro consegue sentir.

Faz pouco tempo que entendi: um dos motivos da minha angústia era não poder explicar de onde você veio. Eu, que gosto de fotos antigas. Que conto e reconto histórias da família. Eu, que tenho irmãos. Que conheci meu pai, minha mãe, duas avós, um avô, uma bisavó que viveu até os 103.

Você não conheceu seu pai. E sem conhecer, já conta histórias dele pra mim.

Você não conheceu seus avós maternos, os meus pais. E provavelmente não terá irmãos. Mas você não veio só de mim, filho. Veio de um universo tão grande e tão bonito.

Quando vejo você tocando a gaitinha que sua avó deu, eu me lembro: nunca vi seu pai tocar piano, sax, gaita. E sei que ele tocava. Eu também perdi uma parte da história, filho. Foi tão rápido e tão intenso. E você é tão real.

Olho pra você e me vejo. Vejo seu pai. Não sei onde começa um e termina o outro. Suas feições, seu jeito, suas escolhas. Sua doçura. Sua braveza. Olho mais uma vez e vejo alguém novo. Fresco, inteiro. Único. Surpreendente. Francisco.

Queria tanto você no colo dele, filho. Fazer com ele um sanduichinho de você. Apertar, beijar, morder. E por tanto querer, quero explicar o que é isso que eu sinto. E só quero explicar porque falta.

Mas não falta. É você. Não sou eu, nem ele. É você.

Talvez, despido da sua própria história, seja mais fácil seguir. Construir caminhos novos. Encontrar atalhos. Ou errar o caminho, que é a melhor parte. Errei tantos caminhos, filho. Mas venho gostando da viagem.

Tenho certeza. Você ainda vai me contar muitas histórias lindas. E todas vão ser histórias suas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

De boca cheia.

Ele dizia "Eu amo você". Não era te amo, te gosto, te adoro. Era com todas as letras: eu amo você. Abrindo e fechando a boca numa volta completa e macia. Amor farto. De boca cheia e com gosto. Amor gordo, como ele mesmo dizia. Ele, que tinha um jeito de se fazer presente. Mesmo estando longe. Mesmo atolado no trabalho. Ou quando resolvia dormir sozinho e ficar pensando na vida. Não faltava a mensagem no celular, o email, o telefonema - um ou dois minutos “só pra dar um beijo”. Até quando eu comemorava uma conquista na agência onde passei a trabalhar, agora sem ele: não demorava muito tempo e chegavam flores, champanhe. Ele tinha uma classe, filho.

Já faz tempo que me acostumei com seu silêncio. Mas de vez em quando bate um esquecimento ou vejo uma cena que me inspira a mandar uma mensagem. De vez em quando parece que o telefone vai tocar. Um ou dois segundos depois eu me lembro. Silêncio dentro de mim.

Acho que é uma fase nova da saudade, em que o ciclo se completa e a dor da falta não é mais um escândalo. Você se distrai, outras coisas acontecem, outros amores cantam. Alegria de novo, enfim. E só de vez em quando grita a mudez da falta dentro da gente.

Mas sempre, sempre olho para o lado. E vejo você. Falando sem parar. Querendo traduzir o mundo em um minuto. Dedinho indicador de plantão apontando para todos os lados, todas as luzes, formas, cores. "Aaaammmo", de vez em quando você diz. De boca cheia também. Os bracinhos abertos pra vida.

A vida, filho. Alguém decidiu que a minha seria grande. Intensa. E me arrisco a dizer que longa também. Que maravilha. Então me dê sua mão, vamos sair pra ver o sol.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Aos olhos dele.




25 de novembro de 2006. Eu e seu pai hospedados na casa do Tio Cadito, na nossa última viagem a Tiradentes. E ficou impresso o olhar dele sobre nós, filho. Dizem que o amor embeleza o objeto amado. E não só aos olhos dele. Eu também me sentia bem bonita sob o olhar amoroso do seu pai.