segunda-feira, 10 de março de 2008

Antes de ti.



Eu me lembro de decidir que iria ouvir essa música insistentemente. Como se eu tivesse ouvido uma recomendação médica: ligar o computador, olhar fixamente para a nossa foto juntos, ouvir a música e chorar. E repetir o exercício quantas vezes fosse necessário. Até esgotar o choro, até o cansaço superar a dor.

Era julho de 2005 e eu tinha acabado de viver os cinco meses mais sofridos da minha vida.

Meio ano antes, eu e seu pai nos apaixonamos. Começamos a namorar, mas ele não conseguiu seguir adiante. Sua separação tinha deixado marcas fortes. Ele não estava inteiro para se entregar.

Eu já tinha ouvido essa expressão outras vezes na vida, filho. Era difícil acreditar.

Ele se assustava com a certeza absurda do que eu sentia. Eu não escondia essa certeza. Era impossível.

Seu pai tinha saído muito machucado do casamento. Queria estar só por um tempo, reconstruir suas coisas, cuidar do seu novo apartamento, refazer seu espaço, retomar contato com gostos e sonhos. Queria cuidar dele, para então embarcar em uma nova relação. Está certo que eu queria muito ajudar, mas isso teria que começar por ele.

Acontece que nós trabalhávamos na mesma empresa. Na mesma sala. Um em frente ao outro. Diariamente, ele desfilava ao alcance dos meus olhos. Diariamente, eu tentava disfarçar o que estava estampado no meu rosto.

Ele tinha decidido não estar mais comigo. O coração dele, não.

Abraços, afagos, mimos, emails, músicas. Todo dia eu deparava com algum carinho vindo do seu pai. E você há de convir comigo que assim fica difícil.

Resultado: nos cinco meses em que permanecemos separados, permanecemos juntos. Não havia uma semana em que não ficávamos juntos. E ele estava sempre na minha casa.

Entre uma noite e outra, trabalho. Entre um fim de semana sem ele e uma noite com ele, dúvidas. E o coração doendo de insegurança e angústia. Meu peito não teria agüentado por muito tempo.

Eu queria seguir em frente. Mas ele não me deixava em paz. Eu queria seguir em frente. Mas minha vontade de lutar por ele também não me deixava em paz.

Sempre fui guerreira, filho. Não desisto fácil das coisas que eu realmente desejo.

O decorrer desses meses me deixou absolutamente confusa. Eu não conseguia entender o que ele sentia por mim. Mas eu tenho um senso de sobrevivência impressionante. E tentava me interessar por outras pessoas. O que até acontecia. Ele tinha ciúmes. E o sofrimento ficava maior. Para mim e para ele.

Cheguei a ensaiar uma saída do emprego. Recebi uma boa proposta e estava abandonando meus amigos e a agência de que gostava tanto. Eu precisava levar meus olhos para algum lugar longe do seu pai. Estava indo para outra grande agência – um passo profissional interessante – não fosse o fato de, uma semana antes da data marcada para a minha ida, o Brasil descobrir que essa agência era uma das envolvidas no escândalo do mensalão. Acredite se quiser.

Por um lado, desespero. Por outro lado, alívio. Meu lugar ainda estava ali. E meu lugar continuava sendo em frente ao seu pai.

Dei um jeito de sair de férias. Fui ao Rio passar uns dias sozinha. Mas as mensagens pelo celular chegam longe. E as dele chegaram até lá. Peguei uma praia, pensei, sofri, respirei fundo e voltei.

Enquanto isso, ele pensou também. Na volta, conversamos e decidimos que não dava mais. Era necessário fazer a ruptura. Foi no dia 11 de julho de 2005. Uma conversa madura, delicada, bonita. Ele me disse tantas outras coisas. Entre elas, que sempre esteve escondendo de si mesmo o amor que sentia por mim. Disse ter esperança de que o tempo passasse e que pudéssemos de novo nos encontrar. Não seria necessário. Afinal, nos encontrávamos todo dia.

Choramos, choramos muito. Queríamos o melhor um para o outro. Eu tinha que entender e respeitar. Mas as despedidas têm o poder de trazer o amor à tona, filho.

Na mesma noite, fomos à festa de uma amiga em comum. Nosso encontro foi alegre e civilizado. Mas ao chegar em casa, desabei. Liguei pra ele chorando. “Vamos passar essa noite juntos?”, ele sugeriu. Não poderia ser diferente.

Quando chegou, eu esperava por ele de pijama. Entrou, colocou no som um cd novo, olhou pra mim e me tirou pra dançar. Seu pai não era fácil, filho. Se aquela era uma despedida, ele cuidou para que fosse inesquecível.

E foi ali, de pijama, no meio da sala, que dançamos enquanto o Jorge Drexler cantava aos nossos ouvidos: “Antes de mí tu no eras tu, antes de tí yo no era yo. Antes de ser nosotros dos no había ninguno de los dos”. Difícil acreditar que aquilo fosse mesmo uma separação.

No entanto, no dia seguinte, acordamos juntos e seguimos separados. Já era hora de parar de sofrer.

À noite, levei a sério a tal terapia do choro. Música, foto, música de novo. Fui dormir cansada de tanto chorar. O sono é um santo remédio: tem o poder de aliviar qualquer sofrimento. Pelo menos até a manhã seguinte, quando a gente acorda e a realidade dói de novo.

Mas dessa vez eu tinha decidido que seria diferente. À noite, no aniversário de um amigo, a vida me presenteou com sinais de alívio e esperança. Novos ares, novas pessoas. É preciso saber olhar para os lados. Em três dias, comecei a namorar uma outra pessoa. Era fim de semana e acho que seu pai nunca soube disso.

Depois de meses, finalmente eu terminava feliz um domingo. Meu amigo Dani tinha acabado de sair daqui de casa depois de uma tarde leve e divertida. Tinha acabado de conhecer meu novo namorado. E eu estava indo dormir satisfeita. Enfim, seguia em outra direção.

Era por volta das dez da noite desse domingo, 17 de julho de 2005, quando recebi uma mensagem do seu pai no celular: “Posso dormir aí?” Alguns minutos para me refazer do susto. Eu tinha decidido dizer não, mas não me veio a coragem para escrever uma mensagem tão dura. Liguei, certa de que seria mais um movimento intermitente. Ele disse que precisava me ver. Veio. Abri a porta e o que encontrei do outro lado foi alguém dizendo “Amo você”.

Por um minuto, fiquei calada. Por quanto tempo esperava ouvir dele de novo essa frase. Desnecessário dizer que era recíproco. Eu não sabia se beijava, chorava ou batia no seu pai. Ele chorava. E pedia perdão.

E foi assim, num piscar de olhos, que talvez o seu pai tenha entendido o que a música dizia: “Não entendo como podia viver antes.” Eu também não entendo, filho. Minha vida ficou tão mais bonita depois dele.

36 comentários:

Larissa disse...

o drexler tem tanta música que deve te fazer lembrar de um jeito bom de algumas coisas. pra mim funciona assim.

lindo.

um beijo

gabriela disse...

que lindo... que especial... que amor lindo. e que capacidade incrível de transcrever essa história. muito bom te ler. beijos

carolina junqueira disse...

linda! delícia te ler, especialmente numa madrugada cheia de preocupações e medos. de repente alguma coisa fica mais leve. beijo grande, boa semana.

nina disse...

Incrível a coincidência das datas 17 entre vcs hein Cris?
Bonita a maneira como vc relata seus encontros e desencontros...
Bjs no Cisco

sylnier disse...

Amei!!!! Vc faz da tua história um conto de fadas!!!
Beijos

Ana disse...

Essa música é muito fofa! Eu já conhecia...muito fofa!

Cris de Bourbon disse...

Uma linda história de amor...com encontros, desencontros, alegria e dor...senão não seria amor.
Fico impressionada com a vivacidade das suas lembranças, dos detalhes. Vc nos conta uma história como se ela tivesse acontecido ontem. É sempre uma viagem te ler.

Não vejo a hora de vc publicar um livro...não vejo a hora!
beijoooooo

Silvia disse...

Tão única e tão universal....

Anônimo disse...

A cada dia q passa me emociono mais com teu blog, Cris!!!
Linda estória, quantas coisas o amor nos reserva, né?!
BJinhos carinhosos
Dani

Marcele Sganzerla disse...

Cris, sou sua fã nº 1, que delicadeza que você tem ao escrever esses desencontros, essas vírgulas que acontecem em um relacionamento é triste, mas a hora da reconciliação é divina né?
Um beijo no seu coração e um para o Francisco....

daniela disse...

sem palavras...

Anônimo disse...

Posso dizer?
Vc é incrível! A sensibilidade pareçe ser seu modo de vida, a forma como escreve, se veste, enfrenta os percalços da vida!
Não lhe conheço mas gostaria q soubesse q lhe admiro.

Anônimo disse...

Cris,
você escreve com a simplicidade da alma, com a pureza de um amor vivido e, principalmente, vivo.
Abraços,
Izabella Gazzinelli
Belo Horizonte

taisalima disse...

Cris,
eu sou atriz e contadora de histórias aqui no Rio. Suas histórias, palavras... impossível não querer contá-las! Obrigada por cada palavra que você escreve!
Beijos... Taisa Lima.

Sheila disse...

Cris,

Suas histórias nos faz viajar e imaginar cada cena que vc relata... Que AMOR lindo e verdadeiro vc tem pelo seu Gui.

Bjs,

Carol disse...

Cris, encontrei teus blogs essa semana e já estou completamente apaixonada por eles. Não páro de ouvir o drexler tb. Só quero te deixar aqui minha admiração... por seres tão linda, forte e corajosa. Choro a cada post... de tão lindos, sinceros, cheios de vida. Um beijo grande. Carol d'Avila

hellenmundim disse...

Que linda essa música, Cris.
Fiquei com um nó na garganta enquanto lia, e depois ouvi de novo, só que dessa vez de volta ao trabalho. Adorei.
beijos
Hellen

Sofia disse...

Meu Deus, nem acredito! Mais uma vez a sua história de amor parece com a minha... Eu e meu namorado também rompemos. Dúvidas dele, contra todas as minhas certezas. Depois de dois meses sofridos, ele resolveu por um fim ao nosso namoro. Mas não à nossa amizade. E em menos de uma semana também, ele viu que precisava de mim...

Acho que reconhecer que precisa do outro, e saber receber o outro quando está pronto, são coisas decisivas para o amadurecimento do amor.

Um beijo! ;***~

Ana eu disse...

Oi, tenho passado sempre por aqui desde q vi a tua história na revista. Quero t dizer q admiro muito a tua força, a tua garra e o amor q tu sentes pelo teu filho e pelo Gui. Tenho certeza q ela ta olhando vcs la de cima e abençoando e se orgulhando da pessoa q tu és e de como estás educando o Cisco.
Sem contar q morri de vontade de ter conhecido a tua avó.
Tentei abrir as fotos da gravidez, mas não consigo. Não estão disponíveis?
Bj grande e que Deus abençoe vcs.

Marianne Barcellos disse...

Ola
gosto muito de ler seu BLOG e como tudo que vc escreve emociona, me faz rir, chorar...a história de vcs é linda!
parabéns!

Vivi disse...

Cris querida,

Conheci seu blog ontem através de um de meus blogs favoritos, o Blog do Meu Pai, da Tela. Agora ele vai ter que dividir o pódio com o seu. Passei o dia lendo toda a sua história. Apesar de triste, não, eu não chorei. Fiquei é com o coração quentinho por saber que o Francisco tem uma mãe como você e tem tudo isso aqui de presente. Parabéns por tudo e um beijo enorme em ti.

Lu Rio disse...

Você foi uma linda descoberta...amei ler os seus textos, este em especial. Simplesmente emocionante, profundo...tudo!
Beijos carinhosos.

Vanessa disse...

As vezes parece que algumas musicas foram feitas somente para nos, nao e? Os seus textos sao otimos, e a tua vida, inspiring.
Beijos.

Manuel Rolim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Silvia disse...

Oh, Cris, que coisa mais linda...
Seu amor virou muitas sementes. Toda vez que leio o que você escreve me convenço que tenho que demonstrar mais o meu amor pelas pessoas, ser mais delicada, mais divertida, mais alegre.

Desejo que você possa sentir os sentimentos que você descreve ainda muitas vezes. Tudo o que quero é que você seja muito feliz!
Silvia

uma mulher de 30 e poucos disse...

Estou aqui, mais uma vez, acompanhado suas histórias, acompanhando sua vida intensa.
Um beijo.

¢em@ לאכימ דלא disse...

Cris,

engraçado como a vida tem dessas coisas: fui parar em teu blog meio q por acaso, por causa da reportagem da CRIATIVA (aliás, nos dois - no Hoje Vou Assim, tb). Desde então, nunca mais parei de acompanhar, e olhe q não costumo fazer isso c/ qq blog.

Como te contei em outra msg, não tive exatamente experiencias como as tuas, embora tb tenha perdido os avós na infancia, um deles antes de nascer. O q escreves ajuda a entender minhas proprias experiencias (e problemas) de relacionamentos e de perdas, os quais tive ao longo da vida. Como te falei na msg: a essência do q escreves ajuda-me a confrontar e entender minhas proprias experiencias.

Desde que me apercebi disto, acompanhar teu blog tem sido uma verdadeira terapia para mim. E, claro, curto as combinações q fazes no Hoje Vou Assim, elas me dão ótimas sugestões para o dia-a-dia.

Continua mantendo teu blog, e podes ter certeza q nos dás uma grande força com tuas lições de vida. E, claro, a recíproca é PRA LÁ de verdadeira :)

Beijos

Anônimo disse...

Dizer o que? Lindo, Cris!

Marina

Cristiana disse...

Cris, obrigada, sem te conhecer, lendo e ouvindo, senti tudo que sentiu. E já foi bom.

Anônimo disse...

leitura obrigatória...
prazer infinito...
lindo demais!
bjs no coração
carol

Micho en el pais de las maravillas disse...

Eu achei seu blog e passei a tarde lendo e chorando, pensando me emocionando...que vontade de te dizer que tudo na vida fica bem no final.
Vou voltar outras vezes!

Bel disse...

... um suspiro! Tão linda essa tua vida! Tão lindo esse teu amor!
Tanta vida nunca se esgotará...nunca!
Um beijo... meu dia ficou bem melhor!
Bel.

patricia MERLO disse...

Cris, como leitora assídua do blog não sabia dessa "separação"...é estranho essa coisa de blog, a gente se expõe, as pessoas "invadem" de uma maneira salutar! Mas passam a acompanhar nossas intimidades e aqui estou eu fazendo exatamente isso! Muitas vezes a gente se vê numa frase, numa declaração, isso é lindo! Pois alguém disse que "poesia boa é aquela que lê a gente", texto bom, narrativa boa, é a que lê a gente. E os seus, sua história são indescritíveis. As palavras limitam. Sei que muitas vezes vc deve escrever aos prantos e o teclado passa a ser o seu confidente. Sei que sua história é linda e comovente, porém sofrida. Dolorosa. Vcs estão sempre nas minhas orações...
Como vc mesma diz: beijo de carinho pra vc e não poderia faltar o afago no Cisco, linda!

Marina disse...

Eu pensei que fosse escrever apenas no fim. Comecei a ler desde que vi o seu blog no Globo Repórter e tenho "economizado" minha leitura para não terminar. Foi fofo!!!!!!!!!!!!!! É muito ruim terminar quando ainda se ama, quando ainda se quer bem.
Terminei com algumas namoradas quando ainda amava... como é ter e não ter.
Acho que a música do Skank que diz: te ver e não ter querer, é improvável é impossível.
Muito louca a lance de estar tudo acertado e muito próximo estourar uma bomba.... não era pra ser, por isso Francisco está aqui.
Beijos,
Marina

Kris disse...

Que amor lindo!!!
Me emocionei ao ler!
Bjus

Bi. disse...

Nossa, tinha TANTO tempo que uma leitura não me fazia o peito pular, as veias pulsar e ao mesmo tempo sentir um frio na barriga de congelar. Cheorei. Estou chorando. Porque certas coisas não deveriam acontecer... ao mesmo tempo que se de outra forma tivesse sido, não seria tão bonito assim. Tô chorando e batendo palmas, por vcs três.