quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Vestida me revelo.

O que me entristece, filho, é perceber que todos nós falamos línguas muito diferentes. Quando seu pai desapareceu, era esse o meu desespero: uma sensação de que eu não seria mais compreendida. Hoje me vejo procurando um novo caminho e sei que será longa a estrada. Até encontrar quem perceba que a minha urgência nada mais é do que a urgência de ter calma. Até encontrar quem realmente me veja.

Essa sensação que eu e seu pai conquistamos, esse descanso na loucura, é porque um enxergou o outro.

Tenho a impressão de estar de novo perdida. Como criança num grande shopping à procura dos pais. Luminosos por todos os lados, tudo aparentemente lindo, mas na verdade assustador. Com ele eu me sentia segura por poder ser eu mesma. Eu me sentia à vontade para não saber. Amávamos nossas imperfeições. Ríamos delas. E assim as acolhíamos. Por serem nossas. O amor de amar quem de fato éramos.

Quem sou. Essa mulher enlouquecida que se encanta pelo que é belo e novo, que ao invés de se esconder se mostra em sua fascinação pelo aparentemente fútil. Essa que escreve mais do que lê, em busca de si mesma. E que em suas palavras tantas vezes se encontra. Nunca alguém tinha me aceitado assim como sou. Tão inteira. Tão inteiro. E era maravilhoso amá-lo como ele era, só por ele ser ele. Tão poucas pessoas chegam lá. Lá que não é longe, ao contrário: lá que é dentro.

Um dia depois da morte do seu pai, fui tomada por uma sensação de que enfim eu ia mudar a minha forma de viver e me relacionar com o mundo. Por uma semana tive uma certeza: a de que eu não teria mais vontade de comprar roupas novas, que abandonaria o prazer de me vestir. Uma falsa sensação de abandono de mim mesma, como uma punição, como se eu tivesse passado a minha vida toda esperando por esse desfecho para “aprender” e mudar. Como se o acontecido tivesse me mostrado que eu estava no caminho errado. Mas em alguns dias me peguei barriguda, dentro de uma das minhas lojas prediletas, escolhendo um vestido que tornasse ainda mais bonita a minha gravidez. Era a minha forma de acreditar no futuro. Ao me olhar no espelho, eu via alguém que não estava esperneando a não aceitação.

“Quanto mais sabemos lidar com o sofrimento, mais bonitos nos tornamos”, escrevi outro dia no meu diário, não sei por quê. A cada dia, quando acordo, pinto um novo auto-retrato. A cada dia a roupa me pinta alguém diferente e eu gosto disso.

Perdi meu melhor amigo, aquele que me conhecia sem que eu precisasse falar. Mas não me perdi de mim, aquela era a prova. Ao acordar, arrumar a casa, me olhar no espelho, me fotografar, eu sentia como se seu pai tivesse me deixado como herança o seu amor por mim. Aquele amor que quando via cada nova roupa que eu comprava, dizia: “Você tem que fazer um acervo das suas roupas, amor. Colocando data, onde comprou, a coleção. Você tem muito bom gosto.” Ao me vestir bem bonita (eu fiz isso no dia seguinte, em homenagem a ele), eu transformo o amor que sinto por ele em uma casa florida de alegria e vontade de viver, em entusiasmo e inspiração para mostrar este mundo pra você, filho. Esse, que é cheio de imperfeições, mas é o nosso mundo.

Quero olhar para cada dia e desejar o que tenho. Quero estar sempre perto de você e de mim – não posso sentir falta de mim.

Por isso fiz fotos da gravidez. Aquelas das quais ele iria participar, mas não deu tempo. Fiz e fiz com alegria. Com a ajuda do meu amigo Dani, com o carinho das lentes do Fernando. E registrei aquele momento pelo qual esperei tanto, e que, mesmo em circunstâncias absurdas, era um momento maravilhoso. Você dentro da minha barriga, exalando uma beleza que eu nunca mais encontrei igual em mim.

Era eu cuidando de mim. Sou eu cuidando de mim. Para cuidar de você. Para cuidar de nós.


27 comentários:

Anônimo disse...

Cris,
A cada novas palavras suas, me vejo, me renovo e descubro...

Porém sofro em saber que eu e muitas pessoas usamos "seu espaço" pra isso... Será por que tem de ser assim?

Acho que consigo entender um milésimo do que passa com você, mas saiba Cris, que também me alegro, pois sinto que posso ajuda-la, mesmo a distância... No silêncio de uma oração...
Aqui você tem mais "amigos" do que pode imaginar!!!

Maravilhosa é a pessoa, mãe, humana que você é...

Bjo Carinhoso.

Sara disse...

Bela constatação. jamais deixe de ser como era antes, como sempre foi, ou melhor, como és. Porque é isso que encanta em você. É por isso que estranhamente dá vontade de te dar um abraço mesmo sem te conhecer pessoalmente.
Força, muita força, e isso você tem de sobra. E sabe disso.
Beijos querida.

Natacha disse...

linda você!!

Dei@ Mundy disse...

Cris apesar do pouco tempo convivendo com vc nesse Mundo virtual saiba que vc transforma as fraquezas de muitos em força. Hj me peguei pensando em vc antes de ir trabalhar, fiquei assim "com que roupa eu vou". Isso me faz acreditar que jamais devemos desistir. Cris obrigada por entrar em nossas, em minha vida. Pois mesmo que não saiba já faz parte dela, vcnos dá forças. Obrigada.

kari disse...

Cris, que lindas as fotos, que lindo seu pensamento sobre a vida, amorte é um negócio muito louco, nos dá muita tristeza, vontade de desistir de tudo mas ao mesmo tempo nos empurra pra vida, temos que continuar, não podemos entregar os pontos, tem pessoas que nos amam, dependem de nós, tenho uma filha de 2 anos e 9 meses, entrei em depressão profunda, querendo morrer quando ela tinha 7 meses, mas não me entreguei, tomei os remédios, me curei , ela e meu marido me fizeram continuar, e não desisitir, falo da morte porque meu pai faleceu faz 3 anos, e vi que minha mãe sentiu isso que te falei, eram apaixonados, 36 anos juntos não é brincadeira, e foi um infarto fulminante, do nada se foi.. te adoro sem te conhecer, viu? Força que a vida vale a pena apesar de todos os problemas desse mundo... Já te escrevi outro dia, meu nome é Karina de Florianópolis.

Thalita disse...

Olá,
eu sempre ia visitar o "hoje eu vou assim", porém desconhencia totalmente a sua história.
Esse mês comprei a Gloss e a Criativa e fiquei surpresa ao ler as matérias sobre você, melhor, vocês.
Primeiro, era como se eu já te conhecesse, só pq costumo ir no blog pra ver suas criações....Mas depois de ler a matéria fiquei emocionada com o quanto de força e vitalidade vc tem....As lindas junções de roupas que vc sabe fazer são uma parte mínima do que vc é.Pra mim vc è a pessoa que melhor definiu FELICIDADE....aquele espaço rápido entre uma ansiedade e outra, em que tudo parece perfeito.E é.

O Francisco é um fofo e tão estiloso qto a mãe.

Bjuuu, Thalita

tita disse...

Um bom gosto indiscutível, diga-se de passagem, Cris...
bj
Tita

Cristiana disse...

Cristiana, essa vaidade é muito saudável. O seu jeito de se vestir é muito colorido, leve, passa uma sensação boa. O Francisco percebe isso, que você se cuida bem - e já deve ter orgulho da mãe bonita que tem! Beijos, Cristiana.

Diana disse...

Lindas palavras,Cris!!
Que pessoa bonita e especial que vc é.
Um grande beijo prá vc e pro Francisco!!
Adriana.

ninon disse...

Cristiana,
como alguém disse aí antes eu tb estranhamente tenho vontade de te dar um abraço a cada texto seu que leio. E não ache que é para te consolor não. É aquela vontade que se sente quando vemos um amigo que admiramos muito e nos sentimos feliz a cada vez que o vemos simplesmente por ele existir. É isso: fico feliz por você existir, mesmo nunca tendo te visto pessoalmente.
Você exala beleza e vida.
Alegrias sempre para você e para Francisco!
Ninon

Lua Nova disse...

Cris,

Lindo texto.
Lindas fotos.
Linda é você.
Keep going querida :-)

beijo grande,
MLN

Glau - Americana/SP disse...

Oi Cristiana,
fiquei conhecendo sua história... e que história...pela revista criativa deste mês...você é realmente uma pessoa iluminada!!! Tenha sempre certeza disto!
Visitei os dois blogs e são fantásticos...
Acredite que você ainda tem muito a realizar, já sou sua admiradora e acredito que todos que leram sua história estarão rezando e lhe enviando muitas boas energias para viver sua vida em PAZ e HARMONIA junto ao seu querido Francisco... viva intensamente sua vida sempre!!!
Bjuss Glau

Maria dos Açores® disse...

Muitas vezes nos esquecemos que o nosso grande amor, deve ser nós mesmas. Porque a pessoa com quem estamos 24 horas por dia, 365/6 dias por ano, desde o primeiro segundo de vida até ao ultimo suspiro, é nós mesmas... se não estivermos bem connosco, não estamos de bem com o mundo... e tu, apesar do sofrimento da perda do Gui, continuaste a amar-te, continuaste a cuidar-te... por ti... pelo Gui... e pelo Cisco... como o mundo seria melhor se todas nós, conscientemente ou inconscientemente, pensassemos desta maneira...
Um beijo com muito amor para ti e para o Cisco

AKessler disse...

Cris, que lindo o teu amor, que raro e pleno e intenso e sereno. Que vulcão de emoções e que amor-lava você viveu, que amor-lava te invadiu as veias e ferveu o sangue e ao esfriar sem nunca perder o viço, deixou em ti formas novas, construiu uma bela paisagem de rochas fortes e que te convidam a sentar e olhar o horizonte e nele enxergar, lentamente e de novo e sempre, a ti mesma. Eu vivi um amor assim. Sei bem como te sentes. Um amor que nos transforma no melhor de nós mesmas. E transforma a nossa vida e a forma como olhamos para o próprio amor. Um amor que independe da presença física da pessoa. Porque, como você escreveu em outro post, ele não leva um pedaço de nós, mas deixa um pedaço de si. Que lindo. Fico feliz por você ter vivido algo assim. Muitas pessoas passam a vida inteira sem saber, sem encontrar o complemento, o encaixe, a conexão, a alma-gêmea. Vou seguir acompanhando a tua história e te lendo. Meu nome é Ana Kessler, sou escritora, moro em Porto Alegre e já te sinto minha amiga. Que linda que és. Beijos felizes.

Monica disse...

Entendo tão bem o que você quer dizer nessas linhas... até o que não foi explicitamente dito... como entendo.
O irônico é perceber que a sensação que tive durante minha vida inteira e que achava que só a mim cabia pois "só eu estava no caminho errado", você também teve. Isso mostra que não estamos sozinhos nesse mundo, que estamos todos aprendendo... e que talvez não estejamos tão errados assim.

Linda você grávida.

Pequena disse...

Lindas e lindos vocês. Lindo demais viver isso. Estar em tão boa companhia. Beijos.

Dani disse...

Cris
Mais um texto lindo com fotos lindíssimas.
Adoro muito passar todo dia por seus blogs.
Abs
PS- Quando teremos novidade no Filé? Acabou? Queremos mais!!!

A simplicista... disse...

Quase xará, muito linda você. Cisco terá muito orgulho da mãezona (meio como nós, ilustres fãs desconhecidos, já temos).

beijim

marcinha disse...

Oi, Cris, nossa como fiquei emocionada ao ler sua reportagem, quando iniciei a leitura, pensei que ia me deparar com algo dramático, triste,acredito que você tenha vivido isso, porém o que me parece que foi alimentada pelo amor,pelo amor de quem vivia em você e pelo amor de quem ja viveu por você, sua história é linda, o amor vivido por vocês é lindo e o fruto deste amor é igalmente maravilhoso.Espero que continue atualizando este blog para que possamos acompanhar seu caminhar e o do Francisco. Beijos

Ilka disse...

Guria, li a metéria que saiu sobre sua história na revista Gloss.
Nossa te admiro de mais.
Como eu queria que minha mãe também fosse assim.
Como...
Nãoposso me queixar dela, não, jamais. Mas você, você é uma pessoa que é perfeita em suas inperfeiçoes. Você é mãe do Francisco, e em partes, minha também. Por que entendo o seu lado, mas vendo do ângulo do Francisco, pois também perdi meu pai muito pequena. E, quando me bate alguma tristeza, alguma agonia, venho aqui para o teu blog, e é como se estivesse conversando com minha mãe, mas como se ela tivesse essa mente aberta e se ela estivesse me falando essas coisas que eu SEMPRE quis ouvir.
Muito obrigada, mãe.

Pequena disse...

Ilka, você me derrubou. Não mereço tanto. Se eu pude te ajudar, sem saber, só tenho a agradecer. Eu que agradeço. Isso que você escreveu pra mim é um carinho que não tem preço. Porque eu também não tenho mãe e me sinto menos só ao ler isso. Vamos ficar perto.

Um beijo com o maior carinho do mundo.

Menina disse...

Olá, folheando a revista Gloss vi a matéria sobre ti, achei muito sensível e carinhosa sua atitude. Depois d uma semana, folheando a revista de novo, na frente do computador, resolvi visitar teu blog.
Sabe, li alguns posts seus, não pude deixar de notar tamanho carinho e paz que você passa em suas palavras, da maneira em que tenta mostrar para seu filho como o pai era.
Sabe, minha mãr me abandonou com meus avós quando eu tinha apenas um ano de idade. Não se importou em manter em mim uma imagem boa dela, nem qualquer outra imagem, se quer a de mãe. Então, queria te dizer que você é uma mulher incrível, e tenho certeza de que seu filho terá imenso orgulho de você e do pai também, por que eu teria. Quem me dera minha mãe fosse metade do que você representa em suas palavras.



Um grande beijo.

Ju De Mari disse...

Cris, você é bonita pela alegria de viver que transmite, mesmo nos momentos mais difíceis...Ah, as fotos do Cisco na barriga estão lindas. Fiquei imaginando tua emoção ao ouvir o Mamã e a gracinhad ele dizendo Neném. Meu filho vai fazer 4 anos em março e essas primeiras vezes deles são inesquecíveis. Como vale registrar! Bjos, Ju

Kika disse...

Cris,

Minha mãe dizia que a quem Deus não deu filhos, o diabo deu sobrinhos... E assim, ela me deixou com minha madrinha, Tia Norma, que é como se fosse minha mãe, tanto tempo depois, e tanto amor e carinho também.

Tia Norma tem uma frase que acho fantástica, e quem vem da infância dela: QUEM NÃO SE AJEITA, SE REJEITA.

Ela é dessas mulheres exemplares, que já sofreu muito na vida, não por amor, mas por doença mesmo, e mesmo assim, nunca deixou de pintar o cabelo, fazer as unhas e passar batom! Saia de um bloco cirúrgico e já estava de batonzinho...

E com ela, tento sempre observar isso, a não me rejeitar, a me ajeitar.

E quando descobri o Hoje e o Para, e agora nesse texto, que de certo modo faz um link entre ambos, é bem por aí o sentimento.

Entendo perfeitamente.

E se não te contei antes, não o fiz porque não deu tempo: estou tentando emagrecer! Tenho fé que vou conseguir. Vou sim!

beijos afetuosos,

Kika

Alanna disse...

Olá Cristina...Acompanhei sua história pela revista Gloss...nossa que história!Fiquei muito comovida...mais a vida é assim e a gente vai levando!
Francisco é muito lindoo!
E este blog é a coisa mais linda tbm!
Parabénsss pelo filho e a garra que vc tem!!
Tudo vai dar certo!

beijãoo

Anônimo disse...

Olá Cristina...Descobrir seu blog por acaso e faço dele minha leitura diária. Como não se emocionar com sua história e perceber que vc é uma pequena grande mulher. E o seu Francisco...verdadeiro anjo. Dá vontade de colocá-los no colo e embalar uma canção de ninar.
Obrigado por vocs existirem... a vida tem muito o que mostrar.
Abraçoes,
Márcia - Cascais/Portugal

Anônimo disse...

Cristina,

Você é uma pessoa tão profunda e ao mesmo tempo tão leve... ao ler seus textos eu me vejo neles... e como se você estivesse escrevendo coisas que penso