sexta-feira, 20 de junho de 2008

A parede.



Repare bem, filho. Aquele labrador que brinca feliz no meio do mato é imaginação do seu pai. Aquele céu azul por onde passeiam finas nuvens foi ele quem pintou. Desejou para você um mundo assim. Talvez pensasse um dia trazer de surpresa um cachorro preto com alma de moleque. Pra passear com a gente no jardim da casa que ele sonhava construir. Talvez não tenha tido tempo para pensar, só pra sentir. Aquele era mesmo o desenho sonhado para o quarto do filho? O tempo se encarregou de decidir. Se um ponto final com jeito de vírgula o tirou daqui para sempre, ficou o desenho no meu computador. Aquela era a parede. Ponto. Antes, eu quis para ela carneirinhos macios. Quis tantas coisas que assim não foram. Aquele era o seu mundo e estava pronto. Achei lindo. Acho que tive tempo de dizer isso pra ele. Diferente de um quarto de bebê. Forte e delicado como o pai do bebê. Hoje, é diante dessa parede que você brinca. Parede que é um céu. E eu sigo, sem parar para pensar se à minha frente está o que desenhei pra mim. Não me lembro do desenho. Sigo achando bonito mesmo assim.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O sósia.

Pouco tempo depois da morte do seu pai, muitas pessoas começaram a comentar comigo sobre um ator que se parecia muito com ele. Depois de um tempo fui conferir, vi que era verdade e que, além de parecido mesmo com o seu pai, o cara era um bom ator. O nome dele é João Miguel e ele tem feito muitos filmes nacionais. Por um tempo fiquei confusa a imaginar o que eu sentiria se o visse pessoalmente. Bobagem, eu disse para mim mesma. Pura transferência. E me perdoei por essa fantasia infantil que tenta acreditar num desfecho menos definitivo para a morte. Outro dia vi uma entrevista desse ator na TV e o sotaque baiano me impressionou. Seu pai, apesar de ter nascido no Piauí, tinha sotaque paulista, pois foi em São Paulo que morou por muito tempo. Por causa do sotaque, o "incômodo" da semelhança passou. Mas nesse fim de semana eu fui a São Paulo. Era a primeira vez que eu viajava desde a minha última viagem com seu pai, naquela passagem de 2006 para 2007. Dois únicos dias naquela cidade e, num bar na Vila Madalena, fui surpreendida pela presença do cara. Não sei explicar o que me aconteceu. O coração bateu forte. De perto, era ainda mais parecido. O jeito. O charme. A presença. Até o tipo de roupa. Ele estava com outras pessoas, talvez a namorada ou mulher. Levei um tempo com medo do ridículo até que, encorajada por duas grandes amigas, finalmente pedi que ele tirasse uma foto comigo. Expliquei o motivo. Muito chato incomodar um ator assim. Pelo pequeno resumo que fiz, ele ficou tocado. Não pude explicar mais, não falei de você, não queria incomodar. Bem que deu vontade de brincar e dizer "Quer ver como seria o seu filho comigo?" e mostrar orgulhosa uma foto sua. Talvez eu pudesse ser mais ousada: "A gente poderia namorar. Já tenho até um filho parecido com você". É claro que isso tudo é só uma brincadeira. Mas confesso que a presença dele me deixou confusa. Não era o seu pai, filho. Era outra pessoa. Tenho que respeitar os dois. Mas era alguém muito, muito parecido com ele. Parece que eles vieram do mesmo mundo. Difícil saber o que fazer quando você encontra um sósia do cara que você amou profundamente e que não existe mais. Mais difícil ainda é perceber que a semelhança não é só física. Os dois têm aquela coisa quente do Nordeste que nem sei. Um olhar apertadinho, os olhos pequenos e doces. Uma coisa assim que não se explica, que não tem nome. Mas que o seu pai tinha e que eu não imaginava encontrar em outra pessoa. Ai ai. De certa forma, dá um alívio saber que no mundo ainda existe um sorriso assim.

Eu e seu pai em setembro de 2006.

João Miguel e eu em junho de 2008.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

12 de junho.

Hoje é dia dos namorados, filho. Uma data inventada para vender mais flores, jóias, perfumes, roupas, cartões românticos e todo tipo de produto que possa acompanhar ou substituir um carinho. A despeito de ter sido inventada para esse fim, esse dia acaba lembrando às pessoas sobre uma coisa importante: o amor. Parece incrível, filho, mas quando a vida nos engole isso chega a acontecer. Por duas únicas vezes eu e seu pai passamos juntos o 12 de junho. Mas, incrível, em nenhum deles estávamos oficialmente namorando. Tivemos uma história assim, com algumas idas e muitas vindas. Estivemos separados, embora o tempo todo juntos. Também não me lembro de algum presente que ele tenha me dado em datas como aniversário ou Natal, como manda o figurino. Foram todos fora de hora. Às vezes porque ele se apaixonava pelo presente, às vezes porque via meu olhar apaixonado diante de uma vitrine. Observava, com aqueles olhos amorosos, depois fazia o carinho. Eu podia não estar atenta. Ele sempre estava. Um charme do seu pai, que fazia mais gostosa a vida ao lado dele. Fazer da rotina uma surpresa. Até aquela manhã de sol, quando o que parecia ser começo virou fim. Você devolveu: o que parecia ser fim era só o começo. Surpresa, mais uma vez. Feliz dia dos namorados, meu presente mais querido.

Acabo de descobrir.

Quando você não tem a pretensão de, pode acabar conseguindo.

domingo, 8 de junho de 2008

Qualquer coisa.



Outro dia fui ao show do Arnaldo Antunes e este novo arranjo para uma música já conhecida me fez senti-la de um jeito bem diferente. Pela primeira vez, a letra falou comigo. E vi que ela poderia resumir a minha história com seu pai. Chorei, chorei muito. Pela beleza do acordeon a me contar sobre esse amor. Um amor em que pode acontecer qualquer coisa. Você inclusive. A ida do seu pai num piscar. Acontece que quando quase tudo acontece, nem tudo continua sendo possível. Mas uma coisa é verdade: "a gente caminhando de mãos dadas de qualquer maneira".

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Nem sempre.

Nem sempre a saudade é querer que o tempo volte. Ontem vi uma mulher grávida atravessando a rua e reconheci nela um semblante que já tive. Lembrei o tempo em que você estava aqui dentro, filho. Andar por aí levando a felicidade na barriga. Hoje, eu e você somos dois. Gosto tanto. Não trocaria esse momento pelo anterior, como também não daria o que tenho para ter o seu pai de volta. A vida na sua medida. Aceitá-la é sábio: transformar a saudade em boa de sentir. Nem sempre a saudade é querer que o tempo volte.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Luxo.

Hoje acompanhei o caminhão de lixo no meu curto caminho até o trabalho. Enquanto recolhiam os sacos, os lixeiros corriam e sorriam. Achei tão bonito.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Pé-de-meia.

Comprei pra você meias azuis, amarelas, cor-de-rosa, verdes, alaranjadas, vermelhas, brancas. Acho divertido ver seus pezinhos nelas. Com antiderrapante, permitem que você dê suas voltinhas pela casa, deixando o ambiente mais colorido. Dias atrás, descobri que uma delas estava com um furo enorme, deixando sair a cabecinha do dedão do pé. Se é que se pode chamar de dedão o desse pezinho fofo, esse pezinho-pão. E logo eu, que nunca mantenho roupas furadas, rasgadas ou desbotadas, ainda não tomei providência para tirar a meia da sua gaveta. Acho que me apeguei à imagem do seu pezinho roto e maltrapilho, um maltrapilhinho engraçado e querido. Nunca consegui fazer de fato um pé-de-meia. Mas quando olho para o seu pé com o dedãozinho escapando, me apaixono e rio sozinha. Fiz foi muito mais na vida, filho. Fiz você (perdoe a minha pretensão). Tem pé-de-meia mais caro?

Semelhanças.

De: guifraga
Data: 14 de novembro de 2006 18h50min6s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Amor, olha que lindo.

que linda, amor, linda demais.

On 14/11/2006, at 18:26, Cristiana Guerra wrote:

Avó e bisavó do Cisco, amor.
Agora juntas, zelando por ele lá de cima.




No ombro da mãe, sua avó Dulce.
Ela também perdeu o pai antes de nascer, filho.
Esse email eu mandei para o seu pai poucos dias
depois da morte da sua bisavó.
Eu gostava dela, mas éramos muito diferentes.
Ou nem tanto.

Significados.

De: guifraga
Data: 3 de outubro de 2006 15h53min5s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Francisco significa...

Ele é franco, amor.
eu tb amo ele dimaish...

bjbjbjbjbj, amor


On 03/10/2006, at 15:48, Cristiana Guerra wrote:

Qual a origem e significado do nome Francisco?

Francisco Figueiredo
Luxemburgo

Segundo o «Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa» de José Pedro Machado, Francisco é «adaptação port. do antr. it. Francesco. O nome difundiu-se por ser o de S. Francisco de Assis (…). Trata-se de 'Franciscus, latinização de Franco ou Franko, nome étnico, com o sufixo germânico -isk-, isto é, Fränkisch' (…). A origem está no lat. medieval Franciscus, der. étnico de Francus, 'franco' (…), depois, (…), confundiu-se com o adj. francisco, de França + -isco (…).»

C.M.




Traduzindo, amor: Francisco não significa absolutamente nada.
Mas mesmo assim eu amo ele.

Amorzinho.

Cristiana Guerra
Diretora de Criação

Assim, do nada.

De: guifraga
Data: 27 de setembro de 2006 17h10min44s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto:

amor

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Para que flores não faltem.



De: guifraga
Data: 14 de setembro de 2006 14h34min30s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Achei.

Que goshtoso, amorzinho.
Além de santo, também é nome de rio.
Você é linda, amor.
um beijo, G


On 14/09/2006, at 13:58, Cristiana Guerra wrote:

<07 O Rio.mp3>

terça-feira, 27 de maio de 2008

Antes de tudo, depois de tudo.



Outra da nossa trilha sonora, filho. Essa era especial, pois nos acompanhou desde o começo. Estava também na seleção musical que seu pai fez pra mim, dias antes de partir.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A luz da falta.

Era uma manhã de segunda-feira. No som, a trilha do filme Cinema Paradiso.

Eu estava em casa, ao lado dela. E também meu pai, meus irmãos, minha avó – a mãe dela, que aos 23 anos tinha perdido o meu avô, assim como perdi seu pai. Havia muito mais gente naquele quarto. Minhas tias, meus primos, os melhores amigos dela. Eram muitos. A casa parecia um acampamento.

Foi meu pai quem sugeriu que eu colocasse a música. A doçura do seu avô, que só fui descobrir mais tarde. Generoso em tentar fazer com que aquele momento fosse suave para ela.

Foi triste. Mas também foi grande. Um privilégio. Estar ao lado dela no exato instante em que ela deixou de estar.

Esperávamos por isso há mais de 48 horas. Ela parecia estar indo aos poucos. Mostrou ser dura na queda.

Eu me lembro de um ato desesperado do meu pai, tirando dela o tubo de oxigênio que mostrava não ter mais serventia. Talvez ela finalmente respirasse quando seu coração pudesse descansar.

"Fico te devendo Paris", ele disse chorando.

Mentira. Se para ela Paris fosse importante, teria conseguido. Colocando os desejos dele em primeiro lugar, minha mãe dominava docemente o meu pai. Eram cúmplices: ela com sua obediência esperta, ele um menino enfiado num paletó de “homem da casa”. Ele era o médico solicitado a todo instante. Ela era seu copo d’água.

Como toda boa esposa e dona-de-casa, sua avó cozinhava bem. A diferença é que fazia a outra parte também. Fazia o supermercado. Fazia o imposto de renda. Levava o carro à oficina, consertava a porta, trocava o chuveiro. Minha mãe era uma mulher com uma caixa de ferramentas. Não por acaso, tenho a minha também.

Ela tinha o mapa de Belo Horizonte na cabeça. Você perguntava como chegar em tal rua e ela não respondia sem antes saber em que número. Explicava o caminho com detalhes: cada ponto de referência, cada detalhe e até quem provavelmente você encontraria pelo caminho, até chegar do lado exato da rua, em frente ao número. Eu perdia a paciência. Era muito difícil memorizar tudo isso.

Mas eu era apaixonada por ela.

Quando pequena, eu tinha ouvido a minha avó dizer: “Sapato virado, a mãe morre”. Rapidamente adquiri uma obsessão por manter em ordem, não só os sapatos, mas o quarto inteiro. Se era esta a intenção desse ditado absurdo, comigo deu certo. Meu armário era motivo de orgulho para Mamãe – ela gostava de mostrá-lo para as visitas, roupas separadas por cores, cabides iguais.

Ela era forte. Ela era doce. Ela era persistente. Juntou tudo e teceu a colcha da minha cama, centenas de roupas de tricô, os casaquinhos que muitos bebês usaram sem nunca a terem conhecido. Alguns deles agasalharam você, Francisco.

Dulce que não tinha esse nome por acaso. Dulce que era um sorriso. Dulce que também era Maria. A mim ensinou que a gente tinha duas mães: uma na Terra e outra no céu. Hoje estão as duas lá em cima.

Para mim foi mais fácil conviver com a morte dela do que com os dois anos de sofrimento que a doença nos trouxe. Embora parecesse impossível me acostumar com a idéia da sua não existência, desejei que ela fosse. Vi minha mãe murchar como uma flor. Troquei a cor da angústia pelo silêncio da saudade. Dor mais doce e mais altruísta.

Meus irmãos já não moravam em casa. Ficamos só eu, Papai e o enorme medo que eu sentia dele. Com a ida de quem fazia a ponte entre nós, finalmente nos conhecemos. Ganhei um pai de presente.

Por um tempo, ele cultivava a presença de objetos dela. Um chinelinho, a cestinha de tricô, os óculos. Era a primeira vez que ele encarava a sua falta. Antes, só fazia lutar com os fantasmas da sua cabeça – a esperança com muito poucas chances de sobreviver diante das convicções da medicina.

Minha dor, deixei em segundo plano. Respeitei a escolha dele. Violentei minha vontade e suportei a convivência com aqueles pedaços dela que, aos poucos, foram desaparecendo. Não olhei para trás. Não parei para pensar na falta. Apenas agradecia porque aquele sofrimento tinha acabado. Ainda levei um tempo para me lembrar dela bem, saudável.

Para não ver Papai sofrer, também não pensei no que senti ao vê-lo casado com outra pessoa – o mesmo quarto, a mesma casa, até o carro dela passou a ser dirigido pela madrasta. O importante era que ele não estivesse mais tão só.

Eu não desejava sequer mais um dia como aquele em que ele voltou para casa dizendo: “Fui ao banco encerrar a conta da sua mãe. Não tem outro jeito, né?” Naquele momento, trocamos de papéis: era ele o filho procurando o meu colo. Com o olhar, ele me pedia permissão para tentar ser feliz. Prontamente atendi.

Comprou um Citroën vermelho com teto solar. E em muito pouco tempo estava casado.

A verdade é que a minha cabeça arranjou um esquecimento para poder seguir em frente.

Fiquei quase 13 anos sem mais me lembrar o que é ter mãe. É você que está me ensinando, filho. Naquele 21 de março, ela começou a nascer de novo dentro de mim.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Abraça-me.

Maio de 2005. Eu estava acertando com outra agência e estava prestes a sair daquela em que trabalhava com seu pai. Ele me mandou o seguinte email, com a seguinte música:

on 16.05.05 18:07, guifraga at guifraga@lapisraro.com.br wrote:

pra quem fica dá um aperto no vazio.



Algo deu errado. Acabei não saindo. Fiquei, mas algo deu certo: finalmente começamos a namorar. Seu pai era impossível. Por ele eu iria, por ele eu voltaria.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Guardados.

De: guifraga
Data: 13 de setembro de 2006 9h57min25s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: bom dia, amor

ei, linda.
te liguei mais cedo, na sua casa, e você tinha ido pro Reiki.
Liguei pros meus pais e, simplesmente, ficaram radiantes em saber que está tudo bem, e que eles vão ter um netinho chamado Francisco. Mandaram muitos beijos em você, amorzinho.

tenha um delicioso dia, linda.
olha como está maravilhoso lá fora

um beijo bom, Gui

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Primeiros passos.


Dias como o de hoje são feitos para guardar.

Na hora do almoço, você deu três passos em direção aos meus braços abertos. Ainda não são longas as distâncias. Cinco metros é um sonho olímpico. Mas sinto que a emoção vai ser a cada dia maior.

É natural: olhar pra você é abrir os braços e receber a sua vinda para o mundo.

Quem diria, filho. Que um dia eu seria esse "tudo" para alguém. Ganho anos de vida ao me perceber tão importante. Faz tudo fazer sentido. Mesmo que o mundo em volta pareça não ter. A insegurança dá lugar ao desafio e eu me sinto mais forte.

Não sei por que, esse episódio me lembrou o ano de 1989, quando tirei carteira de motorista. Foram dezenas de aulas na auto-escola, onde eu dirigia um Gol GTS, carro cobiçado na época. Mas meu sonho era dirigir o velho Opala 77 da Mamãe. E foi somente com a carteira de habilitação nas mãos que ela permitiu que eu o fizesse. Não sem a sua companhia. Eu pensava que a habilitação era o passo definitivo para a independência, mas não: começava ali a segunda parte do curso. Por um tempo, fui sua motorista. Comprar pão, ir ao banco, levar a todo e qualquer lugar. Ela dava conselhos, fazia suas observações. O que, claro, me dava certa segurança. Eu havia trocado o instrutor pela mãe. Era eu dando os meus primeiros passos no trânsito, com os braços dela bem abertos para me amparar.

Mas um dia sua avó e seu avô viajaram. E eu "roubei" o carro para ir a uma festa. Eu, que sempre fui tão certinha, tive que desobedecer. Para acreditar que eu era mesmo capaz. Que ela não me ouça: hoje dirijo melhor que sua avó, à época dela.

Sinto que vai ser assim com você. A qualquer momento você vai percorrer sozinho os seus primeiros dez metros seguidos. E vai ser na hora que decidir. Depois virão outros passos e você vai longe, vai além.

Sabe de uma coisa, filho? Não senti a tristeza que eu esperava sentir nesse momento, por não ter seu pai ao nosso lado. Dia a dia, você me esina a olhar para a frente. Já faz tempo que venho treinando. Hoje acho que andei. E os primeiros passos já se mostram: sua avó ficou mais viva dentro de mim.

Estes foram só os primeiros primeiros passos. Ainda virão muitos: os seus e os meus.

A vida é uma ilha desconhecida.

“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, diz o Saramago no livro “O conto da ilha desconhecida”. Em março de 2005, dois anos antes de você nascer, dei esse livro para o seu pai. Na dedicatória, escrevi assim: “Aonde quer que você vá, por ilhas visitadas ou desconhecidas, em busca de seja lá o que for, leve com você o meu gostar.” Espero que ele tenha feito o que pedi.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Para aplaudir.

Não é só porque tem minha querida amiga Cynthia Falabella no elenco, mostrando mais uma vez a grande atriz que é. Não é só porque tem também meus amigos Thales Bahia e Lucas Gontijo, além de outros diretores talentosos. Não é só porque o elenco é da Ana Régis, a direção musical é do Ronaldo Gino. (Gente, eu tenho muitos amigos talentosos!) E corro o risco de esquecer muita gente. Também não é só porque este filme é resultado de anos e anos de trabalho suado. Acabo de voltar da pré-estréia de "Cinco frações de uma quase história" com o maior orgulho de ser mineira. O filme tem qualidade de roteiros, elenco, direções, fotografia, montagem, trilha. Merece você na platéia. É cinema que dá gosto de falar que é nosso. Além do mais, prestigiar o cinema brasileiro cai bem em qualquer estação. Vi e recomendo. E uso meus blogs pra divulgar sem ninguém ter que me pedir isso. Faço com prazer mesmo. Vai lá e depois me conta.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Inteiro.

“Palavra puxa palavra, o verbo se fez carne de verdade. Nada, nada mesmo, poderia ser mais delicioso e espantosamente lindo quanto a surpresa que me aguardava, insuspeita e quieta. Ando meio estupefato. Não me perturba o que não sei nem o que nem imagino. Sou inteiro no mundo por ele(a), e isso me aquece os desejos, me aguça a inteligência, me faz alerta e sorrio.”

(Escrito pelo seu pai, para uma amiga, pouco tempo depois que ele soube da sua vinda. Pra você ver como fez seu pai feliz, filho.)

sábado, 10 de maio de 2008

O mapa.

Ela nunca fazia a lição de casa comigo. E era boa essa tática: a gente estudava direitinho e não dependia de ninguém. Mas teve um dia, um único dia, e eu já devia ter lá meus 14 anos, em que eu tinha que fazer um mapa-mundi. À mão. Para mim, não tinha coisa pior. Então ela rompeu com suas próprias regras e desenhou cada contorno, escreveu cada nome de país, com a sua própria letra - e era linda a sua letra. Ela simplesmente fez o mapa pra mim. Eu nem precisei assistir, recebi o trabalho pronto. Puro amor. Impresso a lápis no papel vegetal.

Às vezes me pergunto por que falo tão pouco dela. Faz muito tempo que perdi minha mãe, filho. Quase catorze anos. Minha cabeça arranjou um esquecimento para que eu pudesse seguir em frente. E eu esqueci o que é ter mãe. Agora quero encontrar um mapa que me leve a ela, dentro de mim. Desde que me tornei mãe, essa saudade tem me feito falta.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Nem ele, nem eu.



Não sou eu, não é seu pai. É seu pai e sou eu.
Somos nós. Não somos nós.
É você.
Que não é nenhum de nós.
Que é mistura e é tão puro.
Em você sou ele.
E ele me é.



Tão logo se fez a falta do seu pai, minha angústia eram muitas. Eu falava, falava, falava. Tentava com desespero traduzir o que sentia, como se pela boca esse aperto pudesse ir embora. Mas não. O aperto não vai embora. Talvez aperte menos quando sentimos que conseguimos traduzir. Dividir. Quando sentimos que o outro consegue sentir.

Faz pouco tempo que entendi: um dos motivos da minha angústia era não poder explicar de onde você veio. Eu, que gosto de fotos antigas. Que conto e reconto histórias da família. Eu, que tenho irmãos. Que conheci meu pai, minha mãe, duas avós, um avô, uma bisavó que viveu até os 103.

Você não conheceu seu pai. E sem conhecer, já conta histórias dele pra mim.

Você não conheceu seus avós maternos, os meus pais. E provavelmente não terá irmãos. Mas você não veio só de mim, filho. Veio de um universo tão grande e tão bonito.

Quando vejo você tocando a gaitinha que sua avó deu, eu me lembro: nunca vi seu pai tocar piano, sax, gaita. E sei que ele tocava. Eu também perdi uma parte da história, filho. Foi tão rápido e tão intenso. E você é tão real.

Olho pra você e me vejo. Vejo seu pai. Não sei onde começa um e termina o outro. Suas feições, seu jeito, suas escolhas. Sua doçura. Sua braveza. Olho mais uma vez e vejo alguém novo. Fresco, inteiro. Único. Surpreendente. Francisco.

Queria tanto você no colo dele, filho. Fazer com ele um sanduichinho de você. Apertar, beijar, morder. E por tanto querer, quero explicar o que é isso que eu sinto. E só quero explicar porque falta.

Mas não falta. É você. Não sou eu, nem ele. É você.

Talvez, despido da sua própria história, seja mais fácil seguir. Construir caminhos novos. Encontrar atalhos. Ou errar o caminho, que é a melhor parte. Errei tantos caminhos, filho. Mas venho gostando da viagem.

Tenho certeza. Você ainda vai me contar muitas histórias lindas. E todas vão ser histórias suas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

De boca cheia.

Ele dizia "Eu amo você". Não era te amo, te gosto, te adoro. Era com todas as letras: eu amo você. Abrindo e fechando a boca numa volta completa e macia. Amor farto. De boca cheia e com gosto. Amor gordo, como ele mesmo dizia. Ele, que tinha um jeito de se fazer presente. Mesmo estando longe. Mesmo atolado no trabalho. Ou quando resolvia dormir sozinho e ficar pensando na vida. Não faltava a mensagem no celular, o email, o telefonema - um ou dois minutos “só pra dar um beijo”. Até quando eu comemorava uma conquista na agência onde passei a trabalhar, agora sem ele: não demorava muito tempo e chegavam flores, champanhe. Ele tinha uma classe, filho.

Já faz tempo que me acostumei com seu silêncio. Mas de vez em quando bate um esquecimento ou vejo uma cena que me inspira a mandar uma mensagem. De vez em quando parece que o telefone vai tocar. Um ou dois segundos depois eu me lembro. Silêncio dentro de mim.

Acho que é uma fase nova da saudade, em que o ciclo se completa e a dor da falta não é mais um escândalo. Você se distrai, outras coisas acontecem, outros amores cantam. Alegria de novo, enfim. E só de vez em quando grita a mudez da falta dentro da gente.

Mas sempre, sempre olho para o lado. E vejo você. Falando sem parar. Querendo traduzir o mundo em um minuto. Dedinho indicador de plantão apontando para todos os lados, todas as luzes, formas, cores. "Aaaammmo", de vez em quando você diz. De boca cheia também. Os bracinhos abertos pra vida.

A vida, filho. Alguém decidiu que a minha seria grande. Intensa. E me arrisco a dizer que longa também. Que maravilha. Então me dê sua mão, vamos sair pra ver o sol.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Aos olhos dele.




25 de novembro de 2006. Eu e seu pai hospedados na casa do Tio Cadito, na nossa última viagem a Tiradentes. E ficou impresso o olhar dele sobre nós, filho. Dizem que o amor embeleza o objeto amado. E não só aos olhos dele. Eu também me sentia bem bonita sob o olhar amoroso do seu pai.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Doce.

Começo meu dia ouvindo as palavras que você não pára de aprender. Do meu quarto ouço você tentando acordar a babá dizendo "Adiá!" É o seu bom dia.

Como essa, quase todas as palavras do seu vocabulário começam com "ah"! É como se, antes de falar, você se maravilhasse com o mundo.

Ahpo é sapo, ahbuá é lua ou luz (que pra você são a mesma coisa), ah!bua é água, aaaaahmo nos parece ser amo (a gente ouve o que quer, filho). As que não começam com "ah" são poucas: viammmmm é avião, Dodó é a cachorrinha da casa da Vovó, Dedê é a Zezê, sua babá.

Ainda tem "Mã" ou "Mamã", que eu adoro ouvir. E, sim, já ouvi você falar "Papá" ao olhar para uma de nossas fotos.

De sua verdadeira fauna de bichos de pelúcia, todo dia você escolhe alguns para abraçar com um suspiro doce, dar uma mordida com gosto e um tapinha delicado nas costas. Você é uma delícia, amor.

Ah! Eu amo você, Francisco.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O precioso.

Como é difícil encontrar o amor, filho. É que amor de verdade não é feito só de pele. O que o torna amor é ser feito de alma. Sua matéria-prima é cumplicidade. Você pode se relacionar há anos, ser casado com uma pessoa e não ser dela um cúmplice. Se ela não disser sim, não há o que eu chamo de amor. Cumplicidade, filho, é alguma coisa que você pode conquistar com alguém que parece estar longe. Uma pessoa com quem você se corresponde, por exemplo, pode chegar tão perto do seu coração, mesmo que você não a conheça fisicamente. Isso é amor. Amor de alma. Era o que eu tinha com seu pai. E tinha todo o resto também. Mas parece que as melhores coisas da vida são mesmo as mais difíceis de se encontrar.

Filhote.

Hoje cheguei tarde do trabalho e, ao ouvir seu choro para a mamadeira da meia-noite, aproveitei pra ter você no colo por dez minutinhos. Sonolento, você sorvia o leite com voracidade. E me peguei beijando seu rosto, passando as mãos nos seus cabelos. Foi então que percebi: já não era mais um bebê no meu colo. Seus 82 centímetros deitados sobre minhas pernas cruzadas, mais de dez quilos que eu amo grama a grama - e já não cabem mais suas pernas sobre o ninho que faço com as minhas. O tempo corre, eu corro, corro, corro. E é sempre maravilhoso voltar. Nesses meses todos, me mexi de um jeito nunca antes visto, tive uma força e uma resistência de que não me achava capaz. Esqueci o que é preguiça. Faço sem parar pra pensar. (É sem pensar que a fêmea defende sua cria.) Olho para esse mundo feio e hostil, olho pra você e sigo em frente. Sou capaz de tanto mais. Tanto. Só porque você existe, filho.

E continuo amando repetir a palavra filho.

domingo, 27 de abril de 2008

Assim nascem os pais.

No começo, era difícil. Estar com eles era lembrar a falta doída do seu pai. Hoje, é alegria.

Gosto de saber que eles estão aqui. Gosto de estar com eles a cada sábado ou domingo. Gosto principalmente do sorriso deles ao ver você chegar. Gosto e me sinto bem, sem fazer esforço.

A cada fim de semana nos conhecemos mais, aprendemos nossas diferenças, reconhecemos nossas semelhanças, vivemos mais. Mesmo diante da falta. Fazemos dela o que foi presença, celebramos a vida do seu pai e continuamos sua história.

Qualquer família é feita desse encontro. Mas com a gente, talvez tenha acontecido algo muito especial. Seu pai nos preparou a casa, nos colocou por perto, deu o primeiro passo para esse gostar que é de diferentes, mas feito de admiração.

E por não haver mais o seu pai entre nós, o amor que a gente constrói é bonito de tão sincero. Não há o que suportar, há apenas o prazer das descobertas. De uma história antiga que é a do seu pai – a cada fim de semana eu o conheço mais, pois aprendo de onde veio. E de uma história nova que contamos juntos: a sua.

Você nos surpreende e nos ensina, naturalmente nos aproxima e nos faz sentir que somos duas pontas de uma mesma família. E assim somos família. Não mais sogros e nora, mas pais e filha. São eles os novos pais que ganhei de presente, depois de anos sem ter os meus. Para eles dou também um pouco do seu pai de presente, revelando-o pelo olhar do meu amor. Deles ganho pedacinhos do seu pai antes de mim – e percebo que dele ainda tenho tanto a conhecer.

Isso tudo é tão bonito.

E não é porque teve que ser assim, mas porque escolhemos assim. Porque dissemos sim: eu para eles, eles para mim. E foi você quem motivou essa mágica.

Hoje saí da casa dos seus avós sentindo por eles o mais profundo amor. E entendendo que, ao fazer em mim um filho, seu pai estava plantando uma nova família pra me dar de presente.

Casa.

Ele mora em mim. E dorme. De vez em quando desperta, com um pedaço de memória caído no chão, mas logo volta a dormir. Ele mora em mim e às vezes se mexe, procurando uma posição mais confortável. Eu tento não fazer muito barulho. Confesso que, por alguns instantes, quase sem querer, vejo um pedaço do seu rosto ou do seu corpo. E me lembro do quanto é bonito. Ele mora em mim e às vezes fala com a minha voz, sonha com meus sonhos, ri com o meu riso, se move com minhas pernas, abraça com meus braços. Ele mora em mim e ama com o meu coração. Ele e o amor que sinto por ele se misturam na cama macia que existe dentro de mim. São um só, pernas entrelaçadas, num sono de colherzinha. Ele morando em mim, me faz melhor. Olho para mim, vejo o meu amor e vejo a mim mesma. Eu me lembro de mim. Lembro da felicidade a dois, da nobreza do amor que construímos. Altruísta, leve, generoso, amor que se faz feliz ao ver o outro feliz. Ele mora em mim e me faz mais forte. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta coragem. Nunca fiz tanto ao mesmo tempo. Ele mora em mim e faz ainda maior o meu amor por você, filho. Sou mãe, mas não sou pai. É ele que é pai em mim. Sou coragem e completude. Ele mora em mim e continuamos sendo dois. Porque ele mora sozinho em mim. E eu continuo respeitando seu espaço, seus motivos, sua solitude. Não pergunto por quê. Não há porquê. Ele mora em mim e será sempre assim. Dentro de mim ele me faz maior para cuidar de nós. Dentro de mim ele se faz mais amor para amar o outro. Ele mora em mim com seu amor bonito pelos amigos. Que agora é meu também. Ele mora em mim com sua sabedoria de amar. Ele se mudou para dentro de mim levando seu hedonismo, seu sorriso e sua delicadeza. Acho que me tornou mais alerta também. É bem-vinda a sua inteligente desconfiança. E eu, que era doce, ganhei tempero para ser melhor. Ele mora em mim e apurou meu sabor. Mora em mim com seu olhar feliz para os céus azuis, com seu gosto pelos dias de outono, seus olhos atentos para os traços em desalinho. Ele mora em mim com seu detalhismo sarcástico, sua inteligência charmosa, seu humor (e também seu mau humor) de criança. Ele mora em mim com seu jeito de corpo. E se mesclou comigo, já não sei quem sou eu e quem é ele. Mas sei que somos dois em mim. Ele mora em mim e o meu amor nunca mais foi o mesmo, agora é amor maduro, sensível, amor muito e para poucos. Não mais amor fácil, porque amor verdadeiro. Ele mora em mim e dorme. De portas abertas, para que esse amor que é dele chegue até você. Ele mora em mim e com ele o nosso grande amor por você. Nosso Francisco.

sábado, 26 de abril de 2008

Lindo mesmo.

De: guifraga
Data: 27 de julho de 2006 17h37min27s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: ei, linda

é só pra te dar um beijo bem goshtoso. pra dar outro beijo bom no nosso filho (a)(s) lindo (a)(s).

quinta-feira, 24 de abril de 2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Brinquedos na sala.

Últimas horas de um fim de semana prolongado. O céu escurece, a casa finalmente está calma. Você dorme depois de uma ou duas horas de verdadeira farra, com direito a cambalhotas e mordidas. Ouvindo Elvis em um arranjo só para crianças, recolho os brinquedos espalhados pela sala e percebo um sorriso no canto da minha boca. Incrível como algumas cenas podem carregar dores e amores com a mesma intensidade. Obrigada, filho. Recolher objetos ganhou um novo sentido para mim.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Troca.

Engraçado, filho.
Você saiu de dentro de mim para a vida.
Seu pai saiu da vida e foi para dentro de mim.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Norman.


Voltando de Ilha Grande para casa, em nossa última viagem juntos, pegamos um barco de pescadores a caminho de Angra. Havia um menino bonito e sonolento a bordo. Com o olhar delicado de sempre, talvez agora mais atraído pelas crianças, seu pai não perdeu a oportunidade de fotografá-lo. Foi um ensaio bonito, de fazer inveja a um Cartier Bresson. Dias depois, no trabalho, ele e nosso amigo Pina cuidaram para transformar uma das fotos numa imagem ainda mais bonita. Assim nasceu Norman, que seria um quadro para a parede da nossa sala. Quem diria, filho, que seu pai é que se transformaria em tantos porta-retratos. Tão poucos dias depois, seu avô viu as fotos do menino e observou: "Parece o Gui pequeno". Só nos restava suspirar e sentir.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Palavras mágicas.

Já está quase na hora de ensinar a você, filho, uma lição inesquecível da minha mãe: "Existem palavrinhas mágicas. Por favor e muito obrigado são algumas delas."

Este é o momento de usá-las.

Vou dizer muito obrigada, filho, também em seu nome. Para agradecer a tantas e tantas pessoas que reservam uma parte do seu tempo para cuidar da nossa história. Que nos emprestam seus olhos, seus ouvidos e suas mãos. Que nos escrevem mensagens como quem nos dá colo. Que dizem ser ajudados sem ter a noção do quanto nos presenteiam.

Muito obrigada a Lia Bock, amiga e primeira jornalista a enxergar este blog. Muito obrigada a Sandra Soares, Lilian Monteiro, a cada jornalista que coloca seus olhos aqui e vê alguma coisa que vale a pena divulgar, a cada blogueiro que vem aqui, gosta e recomenda, me fazendo a acreditar que de fato escrevo.

Muito obrigada à equipe do Globo Repórter que, ao fazer uma matéria ao som de "Our love is here to stay", mostrou que aqui as amizades são mesmo feitas para ficar.

Agradeço, filho, porque este espaço ocupa outro, nada virtual, no meu coração. Porque cada um que vem aqui para partilhar com a gente a sua história, cada um que vem para nos deixar um abraço, uma palavra, um carinho, uma oração, está nos dando as mãos. E assim passamos a caminhar juntos. Que é muito mais agradável, muito mais divertido.

Mas existe outra palavrinha mágica que aqui se faz necessária: perdão. Peço perdão por não conseguir o tempo para responder a cada mensagem, por não dar a cada um a sua merecida resposta e o seu merecido carinho.

Palavrinhas mágicas, filho. Espero que você as aprenda, uma a uma. Mágicas como essas pessoas que agora vivem perto de nós.

sábado, 12 de abril de 2008

Você na TV, filho.

Um resumo da nossa história. Para entender e sentir.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Sobre o amor.

Quando nasce um amor novo, é difícil resistir à tentação de alimentá-lo só com a presença. Mas é preciso deixar o amor respirar. Se você colocar uma flor bem bonita dentro de uma redoma, com medo que o vento e o tempo levem sua beleza, manterá por muito pouco tempo o que dela é bonito.

O que eu aprendi sobre o amor, filho, é que ele é feito de faltas e presenças. E que nenhuma das duas pode faltar.

Aprendi que o amor é feito de liberdade. É como ter, todos os dias, muitas outras opções. E ainda assim fazer a mesma livre escolha.

Dessas pequenas vitórias se faz a alegria de amar e ser amado. Descobrir no olhar do outro que você foi escolhido de novo. E de novo, mais uma vez.

Também aprendi que o amor interrompido em seu auge permanece bonito para sempre. O que pode ser muito doído ou pode ser um presente. Depende de como a gente quer guardar. Depende de como a gente quer seguir.

O amor é feito de falta, filho. Mas aí mora um perigo: adorar mais a falta que o próprio amor. Posso cometer esse erro diante de quem amo ou diante da própria falta. E aí quem passa a faltar sou eu mesma.

O amor é feito de falta, mas não sobrevive sem a presença. O amor é feito de hoje.

Por isso, ao ver a ida do seu pai, meu coração deu um nó. Como continuar minha caminhada, como não olhar para trás, se vinha de lá a nova presença, o novo amor?

Você é feito do amor de ontem, cresce amor de hoje e vai ser amor de amanhã. Você me trouxe a alegria de continuar amando o seu pai. Aquele que conheci, com quem vivi cada hoje com intensidade e delicadeza. Aquele por quem lutei, com quem briguei. Aquele que me transformou e que se deixou transformar por meu amor.

Você e ele, juntos, me trouxeram o milagre de continuar amando a mim mesma.

A falta do seu pai doeu ontem e dói ainda hoje. Mas não é a mesma dor. Com esse amor, tento transformar a dor de hoje em uma dor diferente amanhã.

O que aprendi sobre o amor é que ele deve estar sempre distraído. Mas quando falta o objeto do amor é o contrário: melhor não se distrair nunca.

O que aprendi sobre o amor - e isso aprendi sobre o amor a mim mesma - é que ele exige de mim, todos os dias, um esforço. Um exercício diário do qual não posso abrir mão.

É como estar num mar profundo, sem barco ou bóia. Não posso simplesmente boiar. Posso relaxar um pouco, mas logo retomo o nado. Não posso boiar, não posso, não posso. A onda pode me levar.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Would he know she's no good?



Acho que não deu tempo do seu pai ouvir isso. Queria ter dançado essa com ele. Eu aproveitaria pra dizer "I love you so bad!". Sei direitinho como ele dançaria essa música, filho. Um dia ainda mostro pra você. Seria mais ou menos assim:







segunda-feira, 7 de abril de 2008

Saudade não tem fim.

Em novembro de 2006, minha amiga Patrícia Lisboa me trouxe de presente o cd do Grupo Curupaco, "O vôo do Pterodáctilo". Faltavam quatro meses pra você nascer e eu queria curtir cada pedacinho dessa minha entrada no mundo das mães. Comecei a ouvir o cd no curto caminho de casa até o trabalho e ia comentando com seu pai sobre cada nova música que eu ouvia. Até que cheguei na música de número dez.



Essa eu tive que mostrar para seu pai, num dia em que ele veio dormir em casa. Quando a música começou a tocar, me abracei a ele e chorei, chorei, chorei, sentindo uma dor inexplicável. Naquele momento, eu pensava estar chorando a falta do seu avô. E me lembro apenas de sentir o seu pai me apertando muito, num abraço forte, sem dizer nada. Parecia que ele queria me proteger - e talvez quisesse mesmo -, como se entendesse a dor que aquela canção me causava.

No dia seguinte, enviei a música pra ele por email. Era tão linda, terna, tinha a ver com a nossa delicadeza de guardar as coisas bonitas que a gente via pela vida.

Passaram-se dois meses e já não éramos nós dois, eu e seu pai. Éramos nós dois, eu e você. E você ainda não tinha nascido.

Depois do 17 de janeiro de 2007, os amigos do seu pai recolhiam as coisas dele do computador do trabalho. E lá estava um arquivo de mp3 com o título Faixa 10, solta no desktop, como se não pertencesse a pasta alguma.

Como explicar?

Tem coisas na vida, filho, que são feitas só pra sentir.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Notas de silêncio.



Durante alguns dias em que eu e seu pai estivemos separados, em 2006, minha melhor companhia foi um disco do Cat Power, presente do meu amigo Kowalsky, que carinhosamente desenhou um coração partido na face do cd. Esta música faz parte da categoria das “músicas silenciosas”. Ouço bem alto e ainda sobra espaço para sentir. É música que fala de falta – e por isso mesmo fala de encontro. De uma presença, que era o que eu estava tentando encontrar naquela época: a minha própria. Chegar mais perto de mim, naqueles dias, talvez tenha ajudado a trazer você, dias depois. Eu me reencontrava com seu pai, mas não ia só – pela primeira vez na vida, eu me sentia em minha própria companhia. Depois de um tempo, de fato, não estava mais sozinha: descobri você dentro de mim. E então se explicaram aquela força e aquela alegria que eu sentia sem saber por quê.



Já esta, do M. Ward, também silenciosa, foi minha companhia numa outra transição. Entre a perda do seu pai e a sua chegada, eu sentia uma mistura que eu não sabia explicar – nem sei se sabia sentir. Essa música me ajudou a chegar no lugar. Minha tristeza se assentou, talvez por finalmente ter se mostrado. E era uma tristeza doce. Uma tristeza em paz. Ouvir essa música me fazia pensar e principalmente sentir tudo isso: a ida do seu pai, sobreposta à sua chegada, e a possibilidade (sim, naquela época) de amar alguém de novo. Amar outro homem. Na confusão absurda daquele momento, essa música parecia me contar a minha própria história.

Tenho lembranças dela no dia do parto, quando fui dirigindo ao médico ainda de manhã, sozinha, e ele me disse que provavelmente você demoraria uns dias pra nascer. Eu me lembro de sair do médico, sentar de novo ao volante do carro, ligar o som e, já de licença-maternidade, ficar pensando no que fazer, naquele dia em que o mundo inteiro trabalhava e eu tinha parado para esperar o meu filho chegar. Porque, embora o médico tivesse dito que não, talvez eu já soubesse que você estava vindo. Naquele dia, sim, senti solidão. Porque a vida das pessoas tinha que continuar. E eu estava diante de um divisor de águas. Nunca mais voltaria a ser a mesma. Seu pai já não estava ao meu lado para presenciar essa mudança – nem para mudar comigo.

Fazia um mês que eu só ouvia esse disco no carro, desde que o Maurilo o levou pra mim de presente.

Ele não sabe que foi essa seleção de músicas que me levou para outro lugar. As próprias músicas acabaram se tornando um lugar. Que eu visito de vez em quando, para entender de novo o que senti. Para entender, sentindo de novo.

Até hoje, ao ouvir essa música, tenho uma vontade de chorar que não é de tristeza. É de beleza. É disso que ela fala. É disso que fala a nossa história, filho.

Da beleza de um ir e vir, sem lógica nem explicação. Da beleza de um sentir que se mistura - o que sinto por ele, o que sinto por você.

Se existe um lugar, além de mim, onde você e seu pai se encontram, é nessa música. E não é pela letra, porque eu nem me preocupo com ela. É pelo que ela provoca aqui dentro: um sentir, sentir, sentir. Que não tem nada a ver com pensar. E que, nessa falta de lógica que compõe a nossa história, se explica.

Era uma vez uma menina chamada Rebecca.

Não existe presente melhor do que alguém escrever pra gente - ou sobre a gente. E quando esse alguém é a Rebecca, filho, isso fica ainda mais bonito.

"Era uma vez uma menina, que encontrou o amor.

E o amor era forte e bom, e tudo estava enfim muito certo.

E o amor fecundou. Como sempre fecunda. E tudo continuava muito certo e bonito. E cada vez mais leve.

E sonhos suaves e pertinentes se fizeram ouvir, cada vez mais próximos, cada vez mais próximos, cada vez mais próximos. Como um trem suave chegando, abarrotado de luzes e véus cantantes. Como uma fruta no ponto. Como um futuro enfeitado.

E tudo ficou enfim tão milagroso que o fio da melodia se partiu. E a história derivou meio sem rumo, no campo tumultuado das grandes interrupções. E o presente, de repente, tornou-se violento e terrível, tinha mil bocas abertas e uma só missão: devorar o que fosse preciso até que a história pudesse ter um fim.

E a menina ficou no mundo com uma grande saudade nas mãos. Como às vezes costuma acontecer, mesmo não sendo muito bonito esse mistério.

E o filhinho do amor nasceu e ganhou nome de santo descalço. Porque assim tinha que ser.

E os dois foram crescendo juntos. A menina e o filho do amor. Tristinhos, tristinhos.

E essa seria uma história feia e amputada, como muitas infelizmente são, não fosse uma idéia que a menina teve: a de pegar com as mãos a própria história. E a de fazer dela um modo de contato.

E a menina foi então dividindo sua saudade e sua tristeza em pedacinhos pequenos, cada vez menores, cada vez menores, cada vez menores.

Tão pequeninos e breves que podiam ser observados com menos medo. Tão suaves que viravam memória, viravam história, viravam poesia. Tão leves que podiam ser rapidamente enviados para longe.
Um longe que era muito perto. Um longe que eram as outras pessoas.

O filho também ajudava. Ia pegando os pedacinhos de desespero e dor que a mãe não conseguia enfrentar e ia dando a eles o colorido delicado da sua inocência. E eles iam ficando menos duros e feios. E cada vez mais floridos.

E foi assim que se deu o milagre.

Juntos, fizeram a vida continuar viva. Juntos, escrevem uma história toda deles.

Todos os dias."


(Rebecca Monteiro)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Cores.


Da janela do meu trabalho, o fim de tarde de uma quarta-feira, 10 de janeiro de 2007. Na quarta seguinte, seu pai já não viu o sol se pôr. Pelo menos, não desse ponto de vista.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O sim de cada dia.



Minha barriga já estava bem crescida, eu me lembro. Eu e ele estávamos saindo do meu apartamento, entrando no elevador, quando eu disse, gracejando: “Você é meu marido”. Ele olhou pra mim, buscando confirmação: “Sou?”

E assim nos casamos: num lugar chamado coração. O nosso sim, filho, era a cada dia. A cada manhã que acordávamos juntos, no email carinhoso que um mandava para o outro. Era um amor muito fresco e leve. Não precisávamos morar na mesma casa para sermos companheiros. Tínhamos sido casados antes. Estávamos há mais de um ano experimentando esse formato. Tínhamos motivos para acreditar que era melhor assim.

Antes disso, um dia ele sugeriu que comprássemos uma casinha. Foi surpresa boa de ouvir. Mas confesso que eu tinha medo de estragar tudo. Eu ficava pensando nos dias em que ele tivesse vontade de ficar só. Ou eu. Quando um começa a chegar mais tarde em casa por uma certa falta de espaço. O melhor da gente é preciso regar todo dia. Cuidar como planta frágil.

Quando passássemos a morar na mesma casa, para que os emails de bom dia? Talvez se tornassem escassos os telefonemas “só para dar um beijo”. Pequenos gestos que fazem do amor uma alquimia sutil, temperando ao gosto dos chefs o prato de cada dia.

Ao mesmo tempo, queria ver isso acontecer. O aprendizado de cultivar os encontros em meio à rotina massacrante. Driblar problemas do cotidiano, encontrar a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Será possível? Seria? Para mim seria um desafio gostoso. Era muito o amor que eu sentia.

Falávamos de quando ficássemos velhinhos. Fazíamos vozes e boquinhas murchas, brincando com a imagem que trazíamos desse futuro. Seria sempre bom.

Com o tempo, vamos aprendendo a conhecer o outro. Seus gestos passam a ser previsíveis. Mas isso também tem uma alquimia.

Por que não querer todos os dias aquele abraço quente, dormir de conchinha, rir ao adormecer, piadas muito particulares, linguagem própria, segredos e sexo pela manhã? Por que eu não haveria de gostar de saber de cor seus gostos e preferências, suas chatices e manias?

Mas a vida acharia uma outra forma de eternizar esse “sim”.

O seu sorriso toda manhã, Francisco, é o email dele me deixando um bom dia. É o telefonema só pra dar um beijo. É o amor fresco e renovado que eu rego todos os dias.

É um privilégio seguir amando - e amando cada vez mais.

sábado, 29 de março de 2008

Meu atleticaninho.


O que eu admiro em você, filho, são essas escolhas certas que você já faz tão cedo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Sem saída.


É assim todo dia. Toda vez que ouço a sirene de uma ambulância. Sentada ao volante do carro, parado ou não, eu me lembro de ouvir uma sirene que eu sabia ser em vão. De uma última esperança que não pensa, não raciocina, só faz correr para salvar. Lembro dessa burrice bonita de que é feita a última esperança. Eu me lembro de insistir em não acreditar no que meus olhos gritavam para eu ver. Lembro de um buraco na porta, de uma porta que era só uma das coisas que naquele momento me separavam dele. Lembro de finalmente conhecer o que seria capaz de nos separar, o que seria capaz de me fazer desistir dele. Eu me lembro de lembrar do medo e então tudo fazer sentido. De uma vontade de estar errada, como das outras vezes. Eu me lembro de estar cercada por uma verdade. Minutos antes, um telefone que tocava, tocava, tocava. Antes ainda, um email sem resposta. Diante de mim, o silêncio e a não explicação. No pensamento, sonhos que eu não admitia mortos também. Atrás de mim, uma despedida que não foi. E acima da minha cabeça, um céu azul ensolarado, iluminado de realidade. Eu me lembro da dor de pensar que nunca mais haveria resposta. Lembro de um desespero e de voltar atrás na tentativa de não acreditar. Para que não me faltasse o ar. Lembro de um turbilhão de pensamentos rápidos envoltos por um mundo parado. Como se eu não respirasse, embora eu respirasse. Como se o meu coração também tivesse parado de repente. Como se permanecesse não batendo por instantes, minutos, horas. Eu me lembro de imaginar a suavidade violenta que deve ter sido aquele segundo entre o estar e o não estar mais. Eu me lembro de um silêncio agudo que ainda insistia. E de não saber para onde olhar. Lembro de uma dor ao olhar em determinada direção. E de ainda conferir, como se a qualquer momento a vida pudesse mudar de idéia, como se alguém estivesse prestes a desfazer aquela brincadeira de mau gosto. Eu me lembro de não entender. E de ter a certeza de que ele não estava mais ali. Entre mim e seu pai, a vida. A morte. Entre você e seu pai, eu. Eu me lembro. E talvez seja mesmo necessário lembrar. Para então sentir a intensidade. Eu me lembro de procurar essa lembrança – e isso faço todos os dias. Para doer de novo e assim acelerar o coração, inspirar e expirar forte. E então querer viver. Como quem se prepara para uma luta. Como adrenalina. Como uma fúria que, enfim, é força. Eu me lembro de uma lembrança que sempre volta urgente. Já faz mais de um ano, eu ainda me lembro e acho que nunca vou esquecer.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Susto.

Olhei para a minha escrivaninha hoje de manhã e deparei com o livro "O que esperar do primeiro ano". Que agora será doado a uma amiga querida – por obra do acaso ou não, ela espera o nascimento de Guilherme. Se abri esse livro dez vezes durante esse tempo, foi muito. Nem deu tempo de esperar nada, filho. E ainda assim foi surpreendente.

terça-feira, 25 de março de 2008

Evolução.

Estávamos na casa de uma amiga que também tem uma filha pequena - a Júlia, de 10 meses. No apartamento dela tem uma área livre, cimentada, e lá se foi você engatinhando cimento afora. Embora houvesse um espaço mais liso com brinquedos, eu já previa: ninguém poderia impedir você de seguir em frente. E não dá pra forrar o mundo com espuma, filho. Infelizmente não dá. Depois de algumas horas de vai-e-vem, com intervalos pra relaxar e brincar, acho que você sentiu o efeito do chão áspero sobre seus joelhos. Mas não se intimidou. Sem reclamar nem mudar a expressão, arrumou um jeito novo de ficar de quatro, simplesmente tirando os joelhos do chão e se apoiando apenas nos pés e nas mãos. O que mudou um pouco o seu ritmo, gerando uma dança engraçada. Parecia você comentando com o corpo sobre a peculiaridade da situação. E assim você continuou se divertindo e explorando onde quer que fosse, me deixando entre o riso e o orgulho. Se eu pudesse lhe dizer alguma coisa numa língua só nossa, seria: "a gente ainda é porquinho, mas já sabe se virar".

R de amor.

Ele tinha uma coisa gostosa do sotaque paulista - acho que é do paulistano. Uma puxadinha charmosa no R. Não era "abRe a poRta poRque tô com caloR", aquele redondinho do interioR paulista e do sul e Minas, fazendo uma conchinha com a boca. Nem era "o rrato rroeu a rroupa do rrei de Rroma" que é bem meu. Era um desenho do R com a língua no meio da boca, como se colocasse uma vogalzinha no meio: "Subir(e) em ár(e)vore". Eu me lembro que ele atendia ao telefone bem sério e quando do outro lado perguntavam quem tava falando, ele dizia: "Guilher(e)me". Depois mineiro é que é desconfiado. Saudade daquela braveza silenciosa do seu pai - seria paulista ou de cabra-macho piauiense? Você também é bravo, filho - e não é exatamente uma braveza silenciosa. Mas nem dá pra saber a quem você puxou: o que não falta é herança genética. Melhor assim. Como dizia Vovó Juju, "detesto gente panaca".

sábado, 22 de março de 2008

Um amor que deu certo.



A gente tinha acabado de saber da sua vinda. Era hora de produzir o comercial de rádio de uma campanha que eu mesma tinha criado - inspirada no próprio cliente e, confesso, no seu pai também – ele sabia viver. Seu tio Flávio, que era o produtor, nos convidou pra fazer a locução – não podia ter escolhido uma dupla que estivesse mais no clima. Ao contrário de mim, seu pai nunca tinha feito uma locução antes. Deu tudo certo. Saiu até beijinho no final, o que não estava no script. Ouve, filho. Olha como era linda a voz do seu pai.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A flor que ele plantou.

"Olha amor, eu não tô só. Tem as flores que plantaste. São ternuras que deixaste dentro do meu coração." (Dengo Maior - Gonzagão)

Demorei para identificar os sinais da sua chegada. Entre a dúvida e constatar que era pra valer, nem deu tempo de sentir medo. Um frio, muito mais que um frio na barriga. Uma emoção que não tem nome nem medida. Tão logo aqueles espasmos foram nomeados contrações, se tornaram mais freqüentes.

Junto com a sensação de ser um relógio cujos ponteiros corriam cada vez mais rápido, a certeza de finalmente estar a caminho de conhecer a pessoa pela qual esperei a minha vida toda. A pessoa que viria me renascer.

Eu esperava há 9 meses. Ou cinco anos? Ou 36? Eu esperava a minha vida toda por você. E era por você que eu tinha sorrido naqueles últimos dois meses.

Cada contração latejava um futuro e um passado. Doía o meu amor pelo seu pai. Doía ele não estar ali para viver comigo esse sonho. Doía a falta dele como doía intensamente a anunciação de uma próxima presença. Doía o amor que partiu e o que estava prestes a chegar. Dores alternadas. Uma física, muitas na alma. A primeira passou com a anestesia.

Mas entre uma dor e outra também pulsava alegria. E pulsava inteira, brilhava, pulando que nem criança em véspera de Natal, sonhando com o presente.

Durante a gravidez, por muitas vezes me peguei imaginando esse momento. Invariavelmente eu chorava. Às vezes comentava sobre isso com seu pai e o via fechar os olhos: “Amor, quando ele chegar vou enlouquecer.”

Aos 5 meses, freqüentamos o curso do casal grávido. Foi divertido, esquisito, inusitado, emocionante, delicado. Ele guardou todos os detalhes de muitas palestras e eu contava com sua memória para lembrá-los depois que você nascesse. Rimos dos vídeos de propaganda das filmagem de partos – cenas clichê dos maridos beijando as barrigas de suas mulheres, dançando com os dedos a calçar sapatinhos de tricô. Ele prestava atenção. Ele achava ridículo. Mas o fazia com classe. E a alegria de saber que, clichê ou não, ele seria pai também.

Entre uma contração e outra, talvez essas cenas tenham me vindo à cabeça. Talvez não. Uma vontade de chorar de alegria e de saudade, uma vontade de não ter sido assim. Mas não havia tempo para lamentar. O milagre se anunciava à minha frente. Finalmente ver o seu rosto, trazer você junto ao meu peito, acolher esse amor transformado em gente. Finalmente.

Cheguei à maternidade antes do médico. Aqueles vinte minutos, sim, pareceram nove meses. A caminho do bloco cirúrgico, a bolsa estourou. E como era quente o mundo em que você vivia. Difícil querer sair de lá. Mas você quis. Rápido, forte, intenso.

Enquanto família e amigos esperavam lá fora, lá dentro o Doutor Walter revezava entre o papel de médico e o papel de pai e companheiro. Sim, foi isso o que eu senti. Sei que ele sofreu comigo a perda do seu pai. Eram deliciosas nossas consultas e conversas a três. Pouco tempo a cada mês, mas o suficiente para que eles se gostassem e conhecessem suas delicadezas. Naquele momento, pacientemente, ele esperava a natureza seguir seu curso. As mãos serenas na minha barriga, parecia olhar pra mim como quem me admirava a coragem. Mas era dele a coragem.

Tia Tissa, minha irmã querida, também trouxe para bem perto a sua serenidade. Que alegria essa presença tentando suprir tantas faltas – quantas pessoas estariam representadas por ela naquele momento?

Se seu pai estivesse lá, talvez desmaiasse. Imagino que ele não teria suportado os odores fortes da sala de parto – tinha um olfato impressionante. Ou talvez não, talvez isso perdesse a importância diante do significado daquele momento. Acho que ele seguraria na minha mão ou me faria carinho na cabeça. E teria vontade de ser o primeiro a tomar você nos braços.

A dilatação aumentava e tudo corria perfeita e suavemente. Tudo corria rápido. E ao olhar para os olhos do Doutor Walter, era paz que eu via. Uma certeza de que tudo daria certo. Claro, com a preciosa ajuda da anestesia.

(Um minuto de silêncio em homenagem ao santo homem que inventou a anestesia.)

Um minuto de silêncio foi o que vivi naquele instante. Cinco horas de trabalho de parto e, vinte minutos depois de chegar à sala de cirurgia, você já despontava. “Já tô vendo que ele é bem cabeludo”, disse Doutor Walter. Ouvi o seu choro. Você tinha nascido. E foi então que eu chorei também.

Levei alguns segundos – o que para mim foram horas – até ver seus pezinhos perfeitos. Como o seu pai teria se emocionado nesse momento. “Então é de verdade?”, eu me lembro de ter dito ao ver você inteiro. E era.

Você chorava alto, forte. Quando o trouxeram para bem perto do meu peito, simplesmente parou. Você parou de chorar, filho. E veio para me fazer parar também.

Esse ano passou voando. Mas foi um vôo delicioso.

Feliz aniversário, meu amor.