quinta-feira, 20 de março de 2008

Se eu pudesse.

Mandava essa música pra ele ouvir.

terça-feira, 18 de março de 2008

Lavoisier.

Eu me lembro do desespero ao descobrir que ele tinha morrido e a minha paixão por ele, não. Em que outro objeto colocar essa paixão? E o tempo foi me ensinando que o amor é reciclável: não se joga fora. Mesmo porque, é de amor que o mundo precisa. Então transformei minha paixão pelo seu pai em paixão por escrever, em amor pelos amigos, pela família dele, em amor por você. É assim que eu quero seguir a vida: a cada amor novo, mais amor. Que se cria, sim, mas nunca se perde. E, principalmente: se transforma sempre.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Jack Jonhson está vivo.



Quando você for maior, filho, vai descobrir que nariz e ouvidos foram feitos para sentir, não para pensar. E vai experimentar a força de um aroma ou de uma música para trazer de volta as sensações mais antigas – e, só depois, trazer os fatos e pessoas por trás delas.

Nos dias seguintes à morte do seu pai, a parte mais difícil era ouvir a trilha que embalou a nossa história. De repente, num fechar de olhos, as canções que sempre me fizeram a alegria passavam a suscitar a maior dor do mundo. Se as músicas eram as mesmas, eu parecia não ser mais. Pensar que os olhos do seu pai tinham se fechado para sempre parecia fechar também a minha possibilidade de abrir um sorriso. A alegria de ouvir nossas músicas tinha perdido o sentido.

A pior parte era “Traffic in the sky”, do Jack Johnson, que talvez seja a primeira da nossa trilha sonora. Ainda hoje é difícil ouvir essa faixa sem ouvir de novo o som das nossas primeiras risadas, sem flagrar os olhos dele acompanhando os meus. São notas que me fazem sentir o cheiro, a pele do seu pai encostando na minha, o ritmo do seu corpo dançando. Notas que fazem nascer de novo a minha paixão por ele, com o mesmo frescor.

Lembrar é sentir de novo.

Ouvir qualquer disco do Jack Johnson me trazia primeiro uma alegria na alma e, depois, uma tomada de consciência que doía profundamente. Porque só mais tarde eu ia pensar de onde vinha aquela alegria – e era doído saber que vinha de um lugar que já não existia mais.

Até eu entender que muitos motivos daqueles risos também vinham do que estava à nossa volta. (A falta é a luz de um flash nos cegando por um tempo.)

Quando você tiver idade para entender isso, poderá desconfiar que a música que estou ouvindo agora pode ter sido determinante para o espírito do texto que você agora lê – e é interessante que um mesmo texto possa unir dois “agoras” tão diferentes.

Música era uma linguagem minha com seu pai, filho. Acho que foi por aí que começamos a nos gostar. Na época em que o email parecia mágica, ele usou muito esse recurso para me enviar, não informações, nem textos, mas pedaços de seu coração pulsando e de sua pele quente. Isso a internet faz muito bem: a tecnologia, tão exata, envia o inexato para tão longe. Ou para tão perto do coração.

Porque no nosso caso, trabalhávamos a dois metros de distância, um de frente para o outro. Ele podia dar dois passos e falar no meu ouvido, mas a coisa chegava de um jeito charmoso, silenciosamente, pela tela, enquanto, olhando um pouco por cima do computador, ele tentava ver minha expressão para me adivinhar a reação.

Nunca ninguém tinha entrado tão suave e profundamente na minha vida.

Se não eram ouvidas no carro ou em casa, as músicas chegavam por um filme a que assistíamos juntos, eram cantadas em dueto pelas estradas numa viagem qualquer ou nos conquistavam em danças improvisadas no meio da sala.

E é maravilhoso ver o que a música também é capaz de fazer com você, Francisco.

Mas o amor vai além.

Perder alguém com quem tínhamos tanta afinidade é perder alguém de quem já conhecíamos as reações, as preferências, um pouco da alma. O que se mostra na segunda etapa da saudade, que é quando começamos a ouvir novos discos – que, mesmo inteiramente novos, ainda têm o poder de trazer sensações parecidas com as dos momentos que passamos com quem nos falta.

Ainda hoje, ao conhecer músicas diferentes, me pego reconhecendo aquela que o tocaria. E até o imagino dançando. Ele no passado, a música no presente e a gente insistindo em desejar juntar os dois. É bem doída essa saudade do que não foi vivido.

Conhecer uma coisa nova e identificar nela o que agradaria o outro é sinal de muita intimidade, filho. E intimidade é uma das melhores conquistas na vida. Por muitas vezes me percebo falando do jeito que eu falava com ele, ou do jeito que ele falaria comigo. Por outras me pego dançando como se eu fosse ele. Como, então, ele não estaria presente?

Depois de alguns meses, como seu pai nunca mais ligou, eu me rebelei. E não admiti me separar também do que outrora tinha me trazido tanta alegria.

Aos poucos, fui fazendo as pazes com Jack Jonhson. E também com Finley Quayle, Madeleine Peyroux, Dinah Washington, Jorge Ben e tantos outros. Músicas que hoje me trazem apenas a sensação de alegria, sem trazer junto a dor da falta.

O Jack Jonhson não precisava morrer junto com o seu pai.

E assim, exercitando ouvir de novo a nossa trilha, fui aprendendo a reconstruir minha alegria. E o seu pai foi vivendo de novo, feliz, dentro de mim. Finalmente entendi que ao perdê-lo não fiquei sem um pedaço meu: um pouco dele é que ficou em mim.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Olhinho bom.

Ontem de manhã nós acordamos, fomos pra sala e deixei você sozinho por vinte a trinta segundos, no máximo. Quando voltei, você estava sentado no sofá, de costas para o encosto, com o meu livrinho da Audrey Hepburn nas mãos. O sofá fica ao lado daquela mesinha cheia de livros da Taschen, aqueles que a gente sempre tira da sua mão na hora H. Tive que ser rápida e silenciosa ou você caía de costas no chão. Nessas horas a gente se sente meio super-herói. Depois me sentei com você, folheamos o livro e eu lhe dei as primeiras lições sobre mulheres bonitas. Você é perigoso, filho. Mas tem um bom gosto de dar orgulho.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Uma carta, filho.

Não foi um telegrama, nem um email. Uma carta. Coisa que quase não se usa mais hoje – o que é uma pena, pois as cartas têm uma beleza que emails não têm. Escrita à mão. Num papel bonito, letra doce, carinhosamente dobrada e colocada num envelope. Decorada com borboletas em alto relevo. Uma carta do outro lado do oceano. Assim começou minha manhã de ontem no trabalho. Com uma carta da Nina, uma brasileira que mora na Alemanha. Como a Hellen, que me presenteou no outro blog, a Nina reservou um tempo da sua vida para se expressar, chegar mais perto. Um tempo dela de presente pra mim. Imagine, filho, que ela me pediu desculpas por isso. E existe algo mais valioso hoje? Dar um pouco do seu tempo de presente. Como cada um que escreve aqui. Para sublinhar um detalhe, contar uma história, um pouco da sua própria vida, ou mesmo só pra deixar um afago. Que vai direto ao meu coração. E esquenta, amacia, me faz sorrir. E me faz chorar, mas é de alegria. E eu chorei tanto, filho. Tanto. Por perceber que a Nina sentiu o meu amor. O amor que eu sentia pelo seu pai – e que ainda sinto. O amor que sinto por você. Por descobrir que, ao escrever para você, tenho falado com tantas pessoas. É frustrante não ter o tempo para responder a cada uma delas. Espero que elas saibam que, ao continuar escrevendo aqui, estou retribuindo. E sabe o que eu pensei com tudo isso, filho? Pensei uma coisa muito pretensiosa, mas é como eu estou me sentindo. Quando eu estava lendo essa carta, senti como se, ao ir embora, seu pai tivesse dito assim: “Vou. Mas fique com todo o amor do mundo no lugar do meu.”

quarta-feira, 12 de março de 2008

Filho.

Tenho repetido mais vezes a palavra "filho" e ela soa como música para meus ouvidos. Parece haver nela um encantamento, como se, por sua dose de amor, tivesse o poder de acalmar, curar, fazer dormir. Ainda é difícil acreditar que sou mãe. E o faço com o sorriso fácil, embutido mesmo na mais cansativa das tarefas. Confesso que nos últimos anos cheguei a pensar que não era para mim. E ao mesmo tempo em que parece um sonho, não consigo mais me lembrar de quem eu era antes de você chegar. Mesmo nos momentos de nervosismo, mesmo nas horas em que tudo o que sei é que não sei de nada: ser sua mãe é o que faço com mais gosto na vida. Faço sem pensar: porque faço, porque sou. Faz tão pouco tempo, mas é como se eu sempre tivesse sido.

terça-feira, 11 de março de 2008

segunda-feira, 10 de março de 2008

Antes de ti.



Eu me lembro de decidir que iria ouvir essa música insistentemente. Como se eu tivesse ouvido uma recomendação médica: ligar o computador, olhar fixamente para a nossa foto juntos, ouvir a música e chorar. E repetir o exercício quantas vezes fosse necessário. Até esgotar o choro, até o cansaço superar a dor.

Era julho de 2005 e eu tinha acabado de viver os cinco meses mais sofridos da minha vida.

Meio ano antes, eu e seu pai nos apaixonamos. Começamos a namorar, mas ele não conseguiu seguir adiante. Sua separação tinha deixado marcas fortes. Ele não estava inteiro para se entregar.

Eu já tinha ouvido essa expressão outras vezes na vida, filho. Era difícil acreditar.

Ele se assustava com a certeza absurda do que eu sentia. Eu não escondia essa certeza. Era impossível.

Seu pai tinha saído muito machucado do casamento. Queria estar só por um tempo, reconstruir suas coisas, cuidar do seu novo apartamento, refazer seu espaço, retomar contato com gostos e sonhos. Queria cuidar dele, para então embarcar em uma nova relação. Está certo que eu queria muito ajudar, mas isso teria que começar por ele.

Acontece que nós trabalhávamos na mesma empresa. Na mesma sala. Um em frente ao outro. Diariamente, ele desfilava ao alcance dos meus olhos. Diariamente, eu tentava disfarçar o que estava estampado no meu rosto.

Ele tinha decidido não estar mais comigo. O coração dele, não.

Abraços, afagos, mimos, emails, músicas. Todo dia eu deparava com algum carinho vindo do seu pai. E você há de convir comigo que assim fica difícil.

Resultado: nos cinco meses em que permanecemos separados, permanecemos juntos. Não havia uma semana em que não ficávamos juntos. E ele estava sempre na minha casa.

Entre uma noite e outra, trabalho. Entre um fim de semana sem ele e uma noite com ele, dúvidas. E o coração doendo de insegurança e angústia. Meu peito não teria agüentado por muito tempo.

Eu queria seguir em frente. Mas ele não me deixava em paz. Eu queria seguir em frente. Mas minha vontade de lutar por ele também não me deixava em paz.

Sempre fui guerreira, filho. Não desisto fácil das coisas que eu realmente desejo.

O decorrer desses meses me deixou absolutamente confusa. Eu não conseguia entender o que ele sentia por mim. Mas eu tenho um senso de sobrevivência impressionante. E tentava me interessar por outras pessoas. O que até acontecia. Ele tinha ciúmes. E o sofrimento ficava maior. Para mim e para ele.

Cheguei a ensaiar uma saída do emprego. Recebi uma boa proposta e estava abandonando meus amigos e a agência de que gostava tanto. Eu precisava levar meus olhos para algum lugar longe do seu pai. Estava indo para outra grande agência – um passo profissional interessante – não fosse o fato de, uma semana antes da data marcada para a minha ida, o Brasil descobrir que essa agência era uma das envolvidas no escândalo do mensalão. Acredite se quiser.

Por um lado, desespero. Por outro lado, alívio. Meu lugar ainda estava ali. E meu lugar continuava sendo em frente ao seu pai.

Dei um jeito de sair de férias. Fui ao Rio passar uns dias sozinha. Mas as mensagens pelo celular chegam longe. E as dele chegaram até lá. Peguei uma praia, pensei, sofri, respirei fundo e voltei.

Enquanto isso, ele pensou também. Na volta, conversamos e decidimos que não dava mais. Era necessário fazer a ruptura. Foi no dia 11 de julho de 2005. Uma conversa madura, delicada, bonita. Ele me disse tantas outras coisas. Entre elas, que sempre esteve escondendo de si mesmo o amor que sentia por mim. Disse ter esperança de que o tempo passasse e que pudéssemos de novo nos encontrar. Não seria necessário. Afinal, nos encontrávamos todo dia.

Choramos, choramos muito. Queríamos o melhor um para o outro. Eu tinha que entender e respeitar. Mas as despedidas têm o poder de trazer o amor à tona, filho.

Na mesma noite, fomos à festa de uma amiga em comum. Nosso encontro foi alegre e civilizado. Mas ao chegar em casa, desabei. Liguei pra ele chorando. “Vamos passar essa noite juntos?”, ele sugeriu. Não poderia ser diferente.

Quando chegou, eu esperava por ele de pijama. Entrou, colocou no som um cd novo, olhou pra mim e me tirou pra dançar. Seu pai não era fácil, filho. Se aquela era uma despedida, ele cuidou para que fosse inesquecível.

E foi ali, de pijama, no meio da sala, que dançamos enquanto o Jorge Drexler cantava aos nossos ouvidos: “Antes de mí tu no eras tu, antes de tí yo no era yo. Antes de ser nosotros dos no había ninguno de los dos”. Difícil acreditar que aquilo fosse mesmo uma separação.

No entanto, no dia seguinte, acordamos juntos e seguimos separados. Já era hora de parar de sofrer.

À noite, levei a sério a tal terapia do choro. Música, foto, música de novo. Fui dormir cansada de tanto chorar. O sono é um santo remédio: tem o poder de aliviar qualquer sofrimento. Pelo menos até a manhã seguinte, quando a gente acorda e a realidade dói de novo.

Mas dessa vez eu tinha decidido que seria diferente. À noite, no aniversário de um amigo, a vida me presenteou com sinais de alívio e esperança. Novos ares, novas pessoas. É preciso saber olhar para os lados. Em três dias, comecei a namorar uma outra pessoa. Era fim de semana e acho que seu pai nunca soube disso.

Depois de meses, finalmente eu terminava feliz um domingo. Meu amigo Dani tinha acabado de sair daqui de casa depois de uma tarde leve e divertida. Tinha acabado de conhecer meu novo namorado. E eu estava indo dormir satisfeita. Enfim, seguia em outra direção.

Era por volta das dez da noite desse domingo, 17 de julho de 2005, quando recebi uma mensagem do seu pai no celular: “Posso dormir aí?” Alguns minutos para me refazer do susto. Eu tinha decidido dizer não, mas não me veio a coragem para escrever uma mensagem tão dura. Liguei, certa de que seria mais um movimento intermitente. Ele disse que precisava me ver. Veio. Abri a porta e o que encontrei do outro lado foi alguém dizendo “Amo você”.

Por um minuto, fiquei calada. Por quanto tempo esperava ouvir dele de novo essa frase. Desnecessário dizer que era recíproco. Eu não sabia se beijava, chorava ou batia no seu pai. Ele chorava. E pedia perdão.

E foi assim, num piscar de olhos, que talvez o seu pai tenha entendido o que a música dizia: “Não entendo como podia viver antes.” Eu também não entendo, filho. Minha vida ficou tão mais bonita depois dele.

domingo, 9 de março de 2008

Pára, Francisco!

Você é saudável, esperto, engatinha a jato e parece ter um sensor para coisas perigosas: detecta onde elas estão e corre naquela direção. E eu não sou exatamente uma mãe jovem. Hoje perdi a paciência, filho. Várias vezes. Depois chorei arrependida. Choramos juntos, embora você pensasse que eu estava rindo. Tem dias que é especialmente difícil criar um filho sozinha.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Vovó Juju.


(foto: Kika Antunes)

Se não deu tempo de conhecer seu pai, você tem a sorte de ter seus avós. Mas dói pensar que você também não conheceu meus pais, seus outros avós. Nem minhas avós, que há tão pouco tempo ainda estavam aqui.

Sobre uma delas, quero contar um pouco. Talvez você me entenda mais ao saber quem era a Vovó Juju. Talvez com o tempo perceba quantas coisas ela me deixou de herança.

Quem ia à sua casa na Pampulha saía de lá com a impressão de ter visitado um mundo à parte. Se reparasse bem naqueles jardins, veria que nos fundos da casa existia uma palmeira, cujo tronco trazia a seguinte pichação: "Mira como sou feliz". Não a Vovó, como ela mesma explicava. A palmeira mesmo. Percebeu esse estado de alma (porque toda planta o tem) e assim registrou. Uma outra árvore, pintou de prateado. E não se cansava de fotografar as flores, como se elas fossem parte da família.

Juracy, a mãe do meu pai, foi professora na juventude e mantinha, na fase adulta, sua curiosidade, sua avidez pela cultura, seus olhos que não paravam de ler, ver e ouvir. Na década de 30, assumiu uma turma de alunos da escola pública, os mais atrasados nas notas. Com o primeiro salário, comprou livros, cadernos e roupas para as crianças. Não tardou que essa última turma virasse a primeira (e olha que ser professora não foi propriamente uma escolha: o que Juju queria mesmo era ser pintora, mas o pai nunca permitiu).

Herdou da mãe a longevidade – minha bisavó viveu 103 anos – e também o senso de humor. "Meu nome é Victalina", dizia ela. "Mas, por favor, me chame de Tatá." E todo mundo obedecia prontamente. Beirando os 100, Tatá perguntava ao meu pai, o neto médico: "Ando vendo umas formigas subindo pelas pernas, mas sei que elas não estão aqui. Será que estou caducando?"

Com a irmã de minha avó, foi o contrário. Cecy morreu cedo, deixando dois filhos pequenos e viúvo o meu avô. Isso mesmo, meu avô. Enquanto ele era casado com Cecy, minha avó só queria e só pensava em namorar. "Quase fugi com um paraibano", ela costumava me contar, sugerindo que aquele teria sido o grande amor.

Não fugiu por medo do pai. Filho de um nobre com uma índia pega no laço, tinha a braveza dos selvagens. É claro que, como toda filha daquele tempo, Juju tinha medo dele. Talvez só dele, porque ao longo da vida não mostrou ter medo de muita coisa. Nem de barata.

Pois namorou, namorou dois ou três ao mesmo tempo, e isso sempre contava dando risadas. Quando meu avô começou a cortejá-la, teve certo pavor. "Eu, me casar com o viúvo de minha irmã?" Não deu outra. Com ele, teve dois filhos, aos quais sempre se dedicou com amor exagerado. Era assim sempre que amava. E de seus exageros fazia uma personalidade marcante, sábia, companhia extremamente agradável. Uma alma sem idade.

(Conterrâneo e amigo de JK, meu avô morreu quando eu tinha 7 anos, bem no dia 7/7/77. Nossa pequena convivência produziu em minha memória a imagem do atento e calado guardião durante minhas brincadeiras perigosas na casa projetada por Oscar Niemeyer – com seus corrimãos meramente decorativos, Niemeyer deu muita dor de cabeça ao meu avô. Eu tinha medo dele, de seus olhares de repreensão, de suas poucas palavras em voz grave. Tarde entendi que aquele era o seu jeito de me amar. Em nossa única foto juntos, eu carregava uma boneca, sentada ao seu lado. Dois sorrisos, nenhum abraço. Impressionante como a câmera é capaz de colocar, num mesmo quadro, pessoas de mundos tão diferentes.)

Até o fim da vida, Juju acompanhava os tempos com agilidade. Nasceu em 1909, imagine, viu tanta coisa surgir e desaparecer em favor de outras que vieram. Comigo conversava sobre sexo, perguntava sobre a Internet, comentava assuntos acontecidos no mundo inteiro. E sempre se mostrava muito mais bem-informada que eu. Quando ia ao jardim da frente de casa, não era raro fazer amizades com os que caminhavam pela Lagoa. Gente de toda idade, que passava a parar por ali a cada semana para um café. Também já recebeu em sua casa grupos e mais grupos de estudantes de arquitetura, interessados em conhecer a residência construída para Juscelino, junto com a Pampulha. Ela mesma cuidava dos jardins (já não podemos dizer que são de Burle Marx).

Eu me lembro de um dia em que fomos posar para uma foto – Vovó, minha mãe e eu – em frente a uma árvore. Depois de várias tentativas em vão, desisti de subir na árvore. Quando olhei, Juju já estava lá em cima. Tinha seus 82 anos.

O mesmo jardim foi cenário de uma cena surreal: quando me mostrou em seu armário uma antiga estola de vison, Juju observou minha expressão de encantamento e, imediatamente, sugeriu que eu tirasse toda a roupa para ser fotografada, coberta apenas pelo vison, entre flores e plantas. Lembro-me do quanto ela se divertiu enquadrando aquela neta tentando ser Marilyn Monroe. As provas do crime estão guardadas comigo – a sete chaves, claro.

Antes de me casar, morei um tempo na casa que havia nos fundos da casa dela, enquanto esperava a reforma da casa onde íamos morar. Foi um ano de muito carinho e risada, em que meus cafés-da-manhã tinham pão fresquinho, queijo e um ótimo papo pra começar o dia.

Impossível esquecer as anotações que eu encontrava em sua mesinha de telefone. "Comprar desconfiômetro" e "Favor me esquecer" eram alguns deles. Delicadamente, Vovó desabafava aos bilhetes.

Se ela tivesse tempo de conhecer você, Francisco, ia te ensinar uma lição importante, que a mim transmitiu quando eu ainda era pequena: "Quando você bater o dedinho do pé no pé da cadeira, aquela dor insuportável, xingue o palavrão mais cabeludo. Vai ver como alivia." Sem saber, ela me revelou o que a ciência explicou algum tempo depois.

Com o passar dos anos eu me apaixonei por ela, filho. Quanto mais eu crescia, mais íntimas ficávamos. Mesmo sendo de gerações tão diferentes, parecia que a gente tinha a mesma idade.

Minha avó rolava na grama com a bisneta mais nova, Dora. Aos 92 anos, tinha mais vida que muita mocinha de 29. E dizia que já tinha cumprido sua missão por aqui, que viver muito era "falta de higiene". Mas todo mundo sabia que era da boca pra fora. Um dia, me explicou ao telefone a razão de sua rouquidão: "é sinal de que vou ficar velha."

Mas não deu tempo. Vovó Juju também se foi de repente, em outubro de 2004, aos 95 anos. Mas deixou muito dela em mim. Espero que um pouco da sabedoria também.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Amor amigo.



Poderia ter sido em um bar, na fila do banco, pela internet. Ele poderia ser amigo de um amigo meu. Mas eu e seu pai nos conhecemos no trabalho.

Eu me lembro, foi no dia 17 de fevereiro de 2003 que eu voltei a trabalhar na Lápis depois de uns meses em outra agência. Meu primeiro trabalho foi com um diretor de arte free lancer chamado Guilherme. Que em princípio me pareceu bastante antipático. Enquanto nos reunimos pra começar a criar, ele falou ao celular algumas vezes e pude perceber que morava em um condomínio afastado, era casado e tinha cães. Eu também era casada e meu marido, além de veterinário, também tinha cães. Muitos deles, por sinal. Era criador. Poderíamos ter descoberto muitas coisas em comum. Mas saí de lá com a impressão de que ele não queria proximidade. Aquele sotaque paulista não me consquistou.

O fato é que em alguns meses ele foi contratado. E o que vi no dia-a-dia foi um homem delicado. Amoroso. Com homens e mulheres. O carinho mais charmoso e sedutor que eu já conheci. Seu bom dia era sempre um abraço muito apertado. E eu adorava ser abraçada por ele. Não pensava nisso. Mas adorava.

Com o tempo, nos tornamos amigos. Eu adorava ser amiga dele. Não pensava nisso. Mas adorava.

Nossos abraços ficavam a cada dia mais apertados. Eu não reparava nisso. Mas adorava.

Mais algum tempo e comecei a ter sonhos com ele. Não eram sonhos eróticos. Eu sonhava com os abraços – tinha uns beijos também. Nunca parei pra pensar nisso. Mas adorava.

Começamos a nos aproximar mais. Na cerveja depois do trabalho. No papo sobre nossos casamentos. Eu não pensava nisso. Mas adorava.

Com o tempo, caminhávamos para nossas separações: eu do meu marido, ele da mulher. Eu não pensava nisso. Mas adorava.

Até que veio um verão, uma pista de dança, nós dois rodeados de pessoas para só termos olhos um para o outro. Ele me disse coisas nas quais eu nunca tinha pensado. E eu adorei.

“É tudo verdade”, ele me escreveu num email no dia seguinte. O primeiro de uma série de conversas pelo computador. Um sentado em frente ao outro, separados (ou unidos?) apenas pelas máquinas.

Tudo isso fez uma revolução em mim. Já éramos tão amigos. Já estávamos juntos e não tínhamos percebido.

(Apaixonar-se por um amigo é arrebatador. Você olha para o lado e o vê com olhos diferentes. Descobre o que seu coração já sabia há muito tempo.)

Impossível conter a minha sensação de estar voltando para casa. A minha urgência de simplesmente deitar na cama e pegar no sono. Eu não precisava procurar mais nada, eu já tinha encontrado.

Mas sou rápida demais para enxergar as coisas. Ele ainda precisou de algum tempo pra ver os fatos de um jeito parecido. E quando viu, adorou.

terça-feira, 4 de março de 2008

A primeira jura.

From: Cristiana Guerra
Subject: Re: Ontem
Date: 16 de agosto de 2004 11h10min35s GMT-03:00
To: guifragaguifraga@lapisraro.com.br

Melhor do que fazer anivesário é ouvir palavras assim. Gui, eu amo ter você como amigo, bem perto de mim. Também quero viver muitos anos perto de você.

Mais um beijo bom,

Cris.

On 16.08.04 9:34, guifraga, at guifraga@lapisraro.com.br wrote:

Ontem foi seu aniversário. Não te liguei, mas pensei muito em vc, na sua doçura, no seu carinho e delicadeza. Quero viver muitos anos perto de você.

Muitos beijos bons, G

sábado, 1 de março de 2008

Jorge Ben.



Ele me chamava de linda, amor, amorzinho, pequena, minha pequena. Eu tinha uma predileção por este último, por particularizar a nossa história. No dia-a-dia, outras mulheres também eram por ele chamadas de lindas – esses paulistas delicados têm um charme perigoso. Eu era a pequena dele, e para sua pequena ele gravou, bem pouco antes de ir, um cd com o resumo da nossa história. A primeira música? “Ela já não gosta mais de mim, ela já não é mais minha pequena. Que pena, que pena.” Eu era a pequena dele, hoje você é o meu pequeno. Amanhã você vai crescer e as coisas vão deixar de ser como são. Mas nós três seremos sempre esses três. Eu, você, ele. Um dentro do outro. Ele faltando em nós, ele presente em nós, nós dois no coração dele. A vida é grande, filho. É bom ser pequeno diante dela.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ballet.

Um ovo quente com torradinhas cortadas em lascas, dispostas no prato como uma fogueirinha. Foi assim na primeira vez que seu pai preparou um prato pra mim. E o mesmo carinho estava em cada prato que eu o vi preparar depois.

Mesmo um simples sanduíche. Mesmo uma sopa knorr. O nhoque de batata amassada no garfo. O molho de tomate desde o descascar. Mesmo, e com toda a arte, o seu bom gosto em cada centímetro.

Eu me lembro de observar o movimento de suas mãos a cada vez que ele preparava alguma coisa na cozinha. E elas cantavam. Dançavam carinho. A cada ingrediente, um beijo: na maçã do rosto, na testa, na ponta do nariz. Na colherada de arroz, essas mãos nos serviam declaração de amor.

Sim, porque esse não era um privilégio meu. Suas mãos assim faziam para cada um de quem ele gostava. Cozinhando para quinze, vinte pessoas, passava o tempo na cozinha, ora conversando com um, ora com outro, ora sozinho com o amor que lhe temperava os pratos. E aquele era seu deleite e sua alegria. Amar com as mãos: servir os pratos um a um, colocando em cada um deles o seu gosto pela vida.

Suas mãos também desenhavam. Selecionavam músicas e me puxavam para dançar. Escolhiam flores para surpreendentes buquês. Ao escrever, entregavam o charme suave do escritor. Mãos que ora remavam, ora acendiam o cigarro. Mãos que me enxugavam lágrimas. Mãos que contavam piadas. Mãos que me abraçavam forte na hora de dormir, e que não adormeciam enquanto não cobrissem minha orelha. Que discavam meu número e davam à voz o seu lugar. Compunham mensagens com uma doçura antiga, num mundo moderno e celular – posicionando cada ponto e cada vírgula, sem perder um dedo de autenticidade. Mãos espontâneas e bailarinas. Mãos que passeavam pelo ar, cheias de vida e de amor.

Mãos que me seguravam o rosto no beijar. Eu era dele a cada beijo. Éramos um do outro num amor que nada tem a ver com posse.

Mãos que um dia se encontraram para seguir outro caminho. E que pareceram largar as minhas. Que não puderam tomar as suas. Mãos que teciam danças. Ainda ouço as músicas – e me guio por elas.

Agora me dê as mãos, filho. E saiba que as suas lembram muito as do seu pai.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Tatuada em mim.

Outro dia encontrei uma troca de emails entre mim e seu pai, de quando éramos apenas bons amigos. Surpresa foi lê-lo falando da minha delicadeza. Até há pouco tempo eu achava que ele é quem tinha me ensinado essa palavra. Se não me ensinou, lapidou em mim essa virtude.

Delicadeza do abraço a cada manhã. Do email de bom dia. Do humor amoroso. Da distância saudável. Da intensidade que fazia lugar para que respeitássemos nossos espaços. Delicadeza das coisas miúdas vistas com um olhar de amor. Do cuidar do outro sem querer fazer o outro ao nosso molde. Momentos simples que faziam a vida ficar grande.

Talvez por isso eu escreva tanto. Acho que o nosso amor impressiona pela delicadeza. Claro, filho, tivemos nossos problemas. Nossa história começou num momento ingrato. Mas nesses dois anos, o que em tempo parece pouco, uma delicada revolução se fez em mim. Nas nossas vidas. Uma revolução que foi plantada em minha barriga e nasceu nove meses depois.

Você é síntese. Semente daquilo que falou mais alto – embora com voz bem suave.

O sentimento que tenho é de encantamento. Do começo ao fim. Talvez porque não tenha começo nem fim. É delicadeza viva e forte. Pulsando em você, pulsando em mim.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Nonada.

2005. Ele de férias em Trancoso, eu em Belo Horizonte, trabalhando. Na praia, ele relia o Grande Sertão. E de minuto em minuto chegava uma mensagem no meu celular. Era ele compartilhando comigo trechos do livro. “Amor vem de amor”, dizia uma delas. E no espaço da distância, o amor crescia. Partilhar o livro com alguém lá longe, debaixo do sol em pleno paraíso. Como não amar mais e mais essa delicadeza? Amor vindo de longe. Amor vindo de amor. Não era um livro qualquer, filho. Como também não era qualquer o nosso amor.

Grande Sertão.



De: guifraga
Data: 28 de novembro de 2006 11h11min39s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Nonada.

Ele pode ficar com uma e dar a outra pro filho dele, amorzinho.


On 28/11/2006, at 11:03, Cristiana Guerra wrote:

O Francisco vai herdar duas edições entre as 10 mil.
Vai ser bom pro futuro dele.


On 11/28/06 10:50 AM, "guifraga" wrote:

Meu amor, bom dia, linda.
Que gostoso vc tb ter o livro, amor.
Eles devem receber mais, mas a editora não vai fazer outra edição comemorativa, não. São só 10.000.

Amo você.

Adorei seu beijo e quero mais... hoje


On 28/11/2006, at 10:35, Cristiana Guerra wrote:

Bom dia, amorzinho.

Já passei lá na Travessa, de guarda-chuva em punho, pra garantir minha edição do Grande Sertão. O que você tinha separado não estava mais lá em seu nome, mas nem questionei, pois sem colocar nenhuma dificuldade e sem que eu precisasse falar, o cara vendeu pra mim um outro que estava separado para outrem. Eu sabia que isso ia acontecer. Parece que eles vão receber mais. Avisa pro pessoal aí, se quiser.

Amor, o seu olhar melhora o meu.

Um beijo meu, bem gostoso, de língua, que nem aquele que a gente deu outro dia.
E um do Cisco, babadinho, na sua bochecha.

Cristiana Guerra
Diretora de Criação

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Fui para uma ilha e levei seu pai.




Chovia.
Era assim o nosso paraíso.
Não sabíamos que era despedida.
Por isso rimos – o tempo todo.
Melhor assim.

Amor que não cabe, filho.
Hoje meu coração está aceso de saudade.
Lateja e brilha, dói e sorri.

Amor, amor, amor.

Hoje sou poesia.
Sou verso, não tem mais volta.

Melhor assim.

Enquanto.

Enquanto Dinah canta, escrevo.
Enquanto escrevo, você dorme.
Enquanto você sonha, eu me lembro.
Enquanto olho para trás, você imagina o que vem pela frente.

Enquanto você descobre, vasculho.
Enquanto eu procuro, você encontra.
Enquanto você aprende, penso que ensino.
Descubro que aprendi.

Você começa,
eu recomeço.

Enquanto ele parece se afastar,
cresce dentro de mim.
Você cresce – fora de mim.
E eu me aprendo.

Você cresce,
eu também.

Enquanto:
gerúndio que
não é verbo.
Coração pulsando.

Nós dois
de mãos dadas.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Despertador.

Ele sonhava. Viajar de navio, ter um barco, construir casa na Serra do Cipó, comprar um piano e voltar a tocar, construir pra você uma casa na árvore. Eu já tinha a companhia dele, já tinha você na barriga. Com o que mais sonhar? Era assim que minha mãe tinha me ensinado. Eu teria dito a ele o mesmo que disse o personagem do Mark Rufallo no lindo "Minha vida sem mim": "O mundo parece menos assustador porque você existe". Talvez eu tenha dito, em outras palavras. Mas então ele deixou de existir. E tive que descobrir que outras coisas podem fazer do mundo um lugar mais acolhedor. Você existe, eu existo, meus amigos e tantos detalhes para os quais eu não tinha olhado antes. Tantas descobertas no meio da dor. Aprender, mesmo que tarde. E agora alguma coisa me diz que alguns dos sonhos dele não podem se perder. Comecei a sonhar, filho.

Nós e os dias 17.

Hoje faz cinco anos que eu e seu pai nos vimos pela primeira vez. Eu voltando a trabalhar na Lápis, ele começando por lá, ainda como free lancer. E nós dois sentados numa sala pra começar um trabalho juntos. Eta, vida doida, meus Deus.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Descobri por que você ama Marisa Monte:

Está neste email que mandei para o seu pai em 13 de setembro de 2006:


On 13/09/2006, at 09:58, Cristiana Guerra wrote:

Bom dia, amorzinho.

Hoje acordei bem, tinha dormido profundamente a noite toda (nem acordei pra tomar água) e saí cedinho pro Reiki. No caminho, Marisa Monte cantando um samba no carro, senti uma felicidade tão profunda. O dia tava lindo, eu tava tão feliz e alegre, e essa sensação se misturava com uma vontade de chorar. Pensei na minha vida, nas pessoas com quem convivo, nas pessoas que já se foram, no quanto a vida é linda e boa. Não me falta nada, amor.

Tenho saúde, amigos, um bebê lindo na barriga, filho do homem que eu amo. E tenho você ao meu lado.

Só tenho a agradecer por ter essa vida linda e por amar você.

Um beijo bom.

Cris.

Cristiana Guerra
Diretora de Criação


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Metáforas.

Você sabe deixar claro o que quer e o que sente. Fica difícil saber a quem puxou, pois brava eu sou e bem bravo era o seu pai. Hoje você ficou bastante contrariado. Não era para menos: tirei você do banho justamente no seu momento mais feliz. Era hora de dormir, filho. Tão cedo a vida nos dá as dicas e tão tarde a gente aprende a aceitá-las. A vida fez exatamente a mesma coisa comigo ao tirar seu pai de mim. Era hora de dormir ou de acordar? Você, no minuto seguinte, já tinha esquecido e estava sorrindo. No meu caso, demorou mais um pouco. Preciso confessar, filho: eu estava no meio do banho mais gostoso da minha vida.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

E como falo.

Não falo de um amor perfeito, filho. Falo de um amor real. E essa talvez seja uma de suas grandes qualidades. Falo de um encontro, de um acreditar. Não falo de planos, prestação de apartamento, lote para construir, projeto do quarto do bebê. Não falo de planejar a próxima viagem de férias. Falo de uma sinceridade. De um estar inteiro, a cada momento em que se decidia estar. Falo de um sorver a vida como se bebe vinho ou café quentinho. Falo de muitos sins e também dos nãos. Nãos que também eram de amor. Falo de uma certeza que tinha curto prazo de validade, mas renovável a cada dia. Falo de cada novo dia em que era bom não ter a certeza, para de novo merecer o desejo. Falo de um desejo que nascia a cada sol. Falo de uma construção. Que foi dura. Falo de amor porque antes falo de amizade. Falo de corações puros, no sentido menos ingênuo da palavra. Falo, não porque ele não está mais aqui. Ele sabe do que falo. Falo de mim, falo do seu pai, falo de nós. Falo de você.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Fica o som da risada.


Ilha Grande, 28 de dezembro de 2006. Segundo seu pai:
os pés da princesa prestes a serem atacados pelo pé-monstro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Sábados.

Difíceis são algumas noites de sábado. Quando você adormece e a noite vem trazendo o silêncio da falta. A falta dos momentos em que eu e seu pai dançávamos. A falta do cheiro da comida que ele preparava. Difícil é não ficar horas falando sobre as bobagens que na verdade são as coisas mais importantes da vida. Ele sentado no computador, pesquisando na internet sobre alguma viagem de barco, e me chamando com voz doce:

— Amor?

— Oi, amor.

— Você é o meu amor.

E eu corria para apertá-lo, abraçá-lo, o beijo no meio da risada. E a brincadeira se repetia por mais algumas vezes. A gente rindo do amor, rindo da alegria. A alegria de não ter hora, a leveza de não ter medidas, a liberdade de ser e sentir. A sorte de encontrar alguém com quem se sentir tão à vontade.

Difícil é não ter saudade desse nada pra fazer dos sábados a dois.

Você vai crescer, vai ficar adulto, vai aprender que deve ser um homem sério. Mas um dia vai descobrir de novo que as melhores coisas da vida não servem para nada. Que o melhor da vida é contar estrelas, histórias, piadas. Que a inutilidade é mesmo uma delícia.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

De mãe para filho.

Seu pai amava viajar. Eu também gosto, mas não sou assim tão solta. Sempre me culpei por isso. Mas agora entendi que ser assim tem o seu lado bom. Nos meus tempos de adolescente eu ficava indócil se não arrumasse um programa no fim de semana. Ficar em casa no sábado à noite era sinônimo de ser esquecida pelo mundo. Quase como ser invisível. Com o tempo aprendi a cultivar meus espaços. Aos 27, fui morar sozinha e fazer minha casa teve uma importância muito grande. É maravilhoso olhar para o seu apartamento, mesmo que ele não seja próprio, e sentir que ele é uma extensão de você. Que à sua volta estão as suas escolhas, as coisas que você ama, um pouco da sua alma. E isso com o tempo melhora, porque você passa a se conhecer mais. Para mim, uma casa aconchegante fala do quanto me sinto confortável em mim mesma. Adoro viajar, filho. Mas também adoro ficar. Não sei como, mas quero poder ensinar essa sensação pra você. Quero muito que você seja feliz por ser você. Viajar é maravilhoso. Mas é fundamental gostar de voltar para casa.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tempo, tempo, tempo.



Ontem vi você se apoiando em uma cadeira para ficar de pé. Eu assistia à cena do mesmo ponto de vista que, um ano e pouco atrás, via seu pai montando a mesma cadeira. Às vezes ainda é muito difícil acreditar, entender, aceitar que vocês tenham sido separados pelo tempo. Estranho pensar que sou a conexão entre pai e filho que nunca vão se conhecer. Fico a me perguntar por que em minha vida fica sempre a impressão de que alguém vai para que outro possa vir. Volto um pouco no tempo e percebo que estivemos sempre correndo um do outro. Eu e ele, o tempo.

Nasci quatro anos depois da quarta filha – e meus irmãos vieram seguidinhos, um ano após o outro. É como se eu estivesse sempre chegando atrasada. A infância dos meus irmãos correu de mim. Sozinha eu inventava brincadeiras – até acredito que tenha sido feliz, mas isso com o tempo cansa – e sempre falei muito comigo mesma. Fui a última da turma a menstruar, beijar na boca, namorar, casar. Demorei muito pra ver o lado bom disso.

Eu me lembro quando minha mãe morreu e eu disse chorando pra minha irmã: “Ela não vai me ver casar”. Essa era a minha principal preocupação – era assim que eu tinha aprendido. Nem minha mãe, nem meu pai. Eu me casei sete anos depois da morte da minha mãe, seis meses depois da ida do meu pai, a despeito de uma sensação lá no fundo de que eu não seria feliz. E me apressei em engravidar, depositando aí toda a minha esperança de felicidade. O filho aconteceu, mas escorreu das minhas mãos. Depois outro filho, outra perda. Era a vida me dizendo que naquele caminho eu não seria feliz.



Nesse meio tempo, perdi minha avó e grande amiga. Ela tinha 95 anos, mas, como até então as minhas perdas não tinham lógica, achei que ela pudesse ficar mais. Mas as faltas costumam revelar verdades: coincidência ou não, poucos meses depois me separei.

O tempo trouxe seu pai à minha vida numa rapidez incrível. Éramos amigos, falávamos um pouco de nós um para o outro. Entre um cafezinho e outro, trocávamos confidências. Até que um dia ele me confidenciou coisas muito boas de se ouvir. Eu me lembro da rapidez com que aquelas palavras tiveram efeito em mim.

E o tempo continuou correndo assim: ora se estendia, ora passava rápido demais.

No caso do seu pai, aquela urgência inexplicável era proporcional à intensidade do que eu sentia. É claro que eu relacionava a minha pressa às minhas perdas. A essa altura, meus sonhos de criança tinham ficado para trás. Meus pais não me viram casar, não me viram ter filhos. Nem minha avó Juju viu um filho meu, e sei que ela sonhava com isso.

No pouco tempo que eu e seu pai tivemos, idas e vindas mostraram que nosso tempo não era o mesmo. Mas tempo algum foi capaz de nos separar.

Quando você veio, a mãe da minha mãe ainda estava viva, mas tão doente que nem compreenderia se eu contasse que eu estava grávida. Em alguns meses ela literalmente descansou. O que mais posso dizer de uma mulher que ficou viúva aos 23, criou três filhas, nunca mais se casou, ficou dois anos numa cama e só parou aos 91? No mínimo, que ela exigiu demais de si mesma. Seu pai não teve tempo de conhecê-la, mas foi comigo ao enterro – que, ironicamente, foi dois meses antes do dele.

Acho linda a maneira como o Gui conviveu com a memória dos meus pais e da minha avó Juracy. Mesmo sem tê-los conhecido, falava deles com orgulho e ternura, como se sentisse saudade, como se há muito fossem amigos. Quem saberá dizer se não foram mesmo. Uma vez chegou contando que na sauna do clube um senhor mais velho falava de seus tempos de basquete e ele, orgulhoso, contou: “Você deve ter conhecido meu sogro, ele jogou basquete no Ginástico.” E os dois bateram um longo papo sobre meu pai, sem que o homem tenha percebido que eles não tiveram tempo de se conhecer.



No clima dessa lógica invertida, vivi a sua vinda com alma de criança. Entendi que era a minha hora de ganhar. Seu pai também nasceu de novo com a perspectiva da sua chegada. Não que ele tenha vivido grandes perdas antes, mas chegou a embarcar por caminhos infelizes – e a sua vinda significava para ele a vida fresca de novo.

Nunca seríamos capazes de pensar na possibilidade do pai não chegar a conhecer o filho. A vida exagerou na dose.

O fato é que eu sempre me senti diferente e por um tempo lutei contra isso. Foi inútil. Queria ser convencional, mas não era para mim. As tatuagens que estampo no corpo falam muito pouco dessas diferenças. Aqui dentro existe uma mulher que já teve seus sonhos de princesa. Mas, se assim não me foi a vida, procuro levá-la da maneira mais divertida e mais sincera.

Pari você com a perspectiva de um namorado novo. Sim, porque eu sabia o que era a morte. Sabia que seu pai não ia me ligar de novo, nem me mandar um email. Eu já conhecia esse silêncio. Embora confesse que, vindo dele, me assustou.

Hoje: no papel, sou separada; de fato, sou viúva; na prática, sou mãe solteira. Convivo com uma presença que não me deixa esquecer a falta. E ainda assim me sinto uma menina.

Durante a minha vida, este parece ter sido o grande desafio: aprender a lidar com o tempo, entender que não sou a dona dele. Algumas coisas aconteceram tão tarde, outras, tão cedo. Ou muito de tudo ao mesmo tempo.

Mas quando olho pra você, filho, vejo que ainda tenho tanto tempo pela frente. Tanto tempo bom. Você tem tempo comigo e terá um tempo só seu. Não é preciso ter medo. É preciso aprender. Fazer as pazes com o tempo e entrar em sintonia consigo mesmo. E principalmente entender o que essas linhas tortas nos trazem de presente. Acho que estou no caminho.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Forte como um cavalo novo.

Tínhamos assistido, em outubro, à peça "Por Elise", da Companhia Espanca. Linda, linda, linda. Densa e leve e ao mesmo tempo, surpreendente, sensível, inteligente, me tocou profundamente. Dias depois mandei uma foto de um trecho da peça para o seu pai, relembrando a parte que tinha me levado às lágrimas. Lágrimas que vieram novamente por dias e dias após a peça, inexplicavelmente. A resposta dele me faz sorrir e chorar ainda hoje, filho.

De: guifraga
Data: 7 de novembro de 2006 15h55min55s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Pra relembrar, amor. Fico emocionada de novo.

vc é forte, com fogo de vida, correndo em direção aos seus desejos.
eu te admiro e amo.

um beijo, G


On 07/11/2006, at 15:49, Cristiana Guerra wrote:


“Sou forte como um cavalo novo, com fogo nas patas, correndo em direção ao mar.”

Cristiana Guerra
Diretora de Criação
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.

Foi no final do ano passado. Eu comprava um presente de Natal e a vendedora sugeriu que eu participasse de uma promoção do shopping. Expliquei que não podia, pois trabalho na agência de publicidade que atende ao shopping. Ela rapidamente sugeriu: "Coloca o cpf da sua mãe". Expliquei que não tenho mãe. A coisa começou a tomar um rumo tragicômico quando ela sugeriu "Então coloca o cpf do seu namorado". Fui rasgada na resposta: "Morreu também". Insegura e já fechando a cara, ela tentou: "Seu pai?". "Morreu todo mundo", respondi rapidamente. Confesso que de vez em quando sou meio cruel. A mulher não olhou mais no meu rosto e ficou séria. Deve ter achado que era uma brincadeira de mau gosto. Sorte dela que eu não contei a história toda.

Por muito tempo, também achei que essa era uma brincadeira de mau gosto. Mas de vez em quando, filho, é bom sair um pouquinho de dentro da gente e ver as coisas pelo lado de fora. É até divertido.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ironia.

Essa semana o Alexandre Inagaki, do Pensar Enlouquece (eleito o melhor blog do país pelo site bestblogsbrazil), colocou o nosso blog (esse aqui mesmo) na lista de indicações que ele publica toda semana. Fiquei feliz demais, filho. E, num atmo de inconsciência, tive vontade de ligar para o seu pai pra contar essa novidade pra ele. Saudade disso, filho. Do orgulho que a gente sentia um do outro.

Vestida me revelo.

O que me entristece, filho, é perceber que todos nós falamos línguas muito diferentes. Quando seu pai desapareceu, era esse o meu desespero: uma sensação de que eu não seria mais compreendida. Hoje me vejo procurando um novo caminho e sei que será longa a estrada. Até encontrar quem perceba que a minha urgência nada mais é do que a urgência de ter calma. Até encontrar quem realmente me veja.

Essa sensação que eu e seu pai conquistamos, esse descanso na loucura, é porque um enxergou o outro.

Tenho a impressão de estar de novo perdida. Como criança num grande shopping à procura dos pais. Luminosos por todos os lados, tudo aparentemente lindo, mas na verdade assustador. Com ele eu me sentia segura por poder ser eu mesma. Eu me sentia à vontade para não saber. Amávamos nossas imperfeições. Ríamos delas. E assim as acolhíamos. Por serem nossas. O amor de amar quem de fato éramos.

Quem sou. Essa mulher enlouquecida que se encanta pelo que é belo e novo, que ao invés de se esconder se mostra em sua fascinação pelo aparentemente fútil. Essa que escreve mais do que lê, em busca de si mesma. E que em suas palavras tantas vezes se encontra. Nunca alguém tinha me aceitado assim como sou. Tão inteira. Tão inteiro. E era maravilhoso amá-lo como ele era, só por ele ser ele. Tão poucas pessoas chegam lá. Lá que não é longe, ao contrário: lá que é dentro.

Um dia depois da morte do seu pai, fui tomada por uma sensação de que enfim eu ia mudar a minha forma de viver e me relacionar com o mundo. Por uma semana tive uma certeza: a de que eu não teria mais vontade de comprar roupas novas, que abandonaria o prazer de me vestir. Uma falsa sensação de abandono de mim mesma, como uma punição, como se eu tivesse passado a minha vida toda esperando por esse desfecho para “aprender” e mudar. Como se o acontecido tivesse me mostrado que eu estava no caminho errado. Mas em alguns dias me peguei barriguda, dentro de uma das minhas lojas prediletas, escolhendo um vestido que tornasse ainda mais bonita a minha gravidez. Era a minha forma de acreditar no futuro. Ao me olhar no espelho, eu via alguém que não estava esperneando a não aceitação.

“Quanto mais sabemos lidar com o sofrimento, mais bonitos nos tornamos”, escrevi outro dia no meu diário, não sei por quê. A cada dia, quando acordo, pinto um novo auto-retrato. A cada dia a roupa me pinta alguém diferente e eu gosto disso.

Perdi meu melhor amigo, aquele que me conhecia sem que eu precisasse falar. Mas não me perdi de mim, aquela era a prova. Ao acordar, arrumar a casa, me olhar no espelho, me fotografar, eu sentia como se seu pai tivesse me deixado como herança o seu amor por mim. Aquele amor que quando via cada nova roupa que eu comprava, dizia: “Você tem que fazer um acervo das suas roupas, amor. Colocando data, onde comprou, a coleção. Você tem muito bom gosto.” Ao me vestir bem bonita (eu fiz isso no dia seguinte, em homenagem a ele), eu transformo o amor que sinto por ele em uma casa florida de alegria e vontade de viver, em entusiasmo e inspiração para mostrar este mundo pra você, filho. Esse, que é cheio de imperfeições, mas é o nosso mundo.

Quero olhar para cada dia e desejar o que tenho. Quero estar sempre perto de você e de mim – não posso sentir falta de mim.

Por isso fiz fotos da gravidez. Aquelas das quais ele iria participar, mas não deu tempo. Fiz e fiz com alegria. Com a ajuda do meu amigo Dani, com o carinho das lentes do Fernando. E registrei aquele momento pelo qual esperei tanto, e que, mesmo em circunstâncias absurdas, era um momento maravilhoso. Você dentro da minha barriga, exalando uma beleza que eu nunca mais encontrei igual em mim.

Era eu cuidando de mim. Sou eu cuidando de mim. Para cuidar de você. Para cuidar de nós.


terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Vontade própria.

E agora você aprendeu a falar "neném". A gente pede "Fala Mamãe, Francisco", e você responde rapidamente: "Neném". Assim que eu gosto.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Mamamã.

Você já fala alguma coisa muito parecida com Mamãe. E não importa que você não saiba exatamente o que está dizendo. Há 37 anos eu sonhava ouvir isso. Filho.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ontem.

Eu achava que seria um dia muito difícil, filho. Não tão difícil como há um ano. Há um ano era difícil digerir. Mas achava que seria um dia de lembranças duras, de saudade ardente, de imagens recorrentes.

Fiz um ritual, sim. Aliás, dois. Diferentes. Em respeito ao seu pai, ao momento, a você, a mim. Fiz silêncio por aqui. Silêncio de palavras, não de imagens. O que é uma forma de expressar. No contexto atual, aquele desenho que seu pai fez pra mim há muito tempo ganhou um novo significado. Mas todo mundo viu o quanto é lindo.

Eu achava que seria um dia muito difícil, mas foi um dia mágico.

De manhã, a babá saiu pra passear com você e voltou contando que uma menina deficiente que mora na rua brincou com você, depois entregou uma florzinha pra ela e disse: "Leva pro pai dele". Depois a campainha tocou: Sedex pra mim. Todo o carinho e o amor da minha amiga Jana foi entregue numa caixa. Intacto. Meus amigos da Lápis me receberam com um abraço cheio de energia. Era um dia importante pra todos nós. Recebi um email da minha amiga Márcia Lima que me esquentou o coração. Foi também com um email que uma das minhas irmãs, que mora em Campinas, pareceu ter voado ao meu encontro, como fez no ano passado. E falou no meu ouvido as palavras mais carinhosas. Outros irmãos e amigos ligaram, escreveram, deixaram mensagens.

À tarde cheguei de uma reunião e achei uma surpresa no computador. Umas coisas que o Dani encontrou como que por encanto na máquina dele – que já foi o computador de trabalho do seu pai. E assim ganhei de presente emails que trocamos enquanto éramos amigos. Pude guardá-los e lê-los com outros olhos. E esse dia tão importante foi marcado por uma música francesa – estava num dos emails que seu pai me mandou quando voltei de Paris (como eu disse, ele sempre arruma um jeito de falar com a gente).

Ao longo do dia recebi muitas mensagens de novos amigos que nos acompanham com o coração. Uma energia de amor chegou até nós com uma força impressionante. Uma menina que perdeu a mãe muito cedo me escreveu dizendo que o que estou fazendo pra você é muito precioso.

Descobri que a dor, quando compartilhada, constrói coisas. Alivia outras dores. Faz a gente se sentir perto. E assim se dilui.

Percebi que, hoje, a falta que sinto, na maior parte das vezes, não é mais dor.

Cheguei em casa, você me viu, abriu um sorrisão e pulou no meu colo. Parecia estar me esperando, pois quando fomos cantar juntos você soltou a voz como nunca.

Há um ano, era eu quem esperava por você. E não sabia exatamente por quem esperava. Há um ano eu não tinha você, sorridente, esperando por mim.

Mais tarde uma amiga me ligou brincando e cantando. Tinha festa na casa dela. Fui e só voltei hoje.

Um ano atrás, eu queria que esse dia chegasse logo. Porque tinha muito medo da imensidão de tempo que eu tinha pela frente. Pois esse dia tão temido chegou e a vida ficou mais leve.

Foi um dia alegre, filho. A vida é linda.

Créditos.

O desenho de ontem foi o seu pai que fez pra mim um dia, filho.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O último 16 de janeiro.



Às 9h19, recebi um email do seu pai na agência: “Amorzinho meu, tenha um delicioso dia. Um beijo bom, G. tô com saudades.”

Na hora do almoço, surpresa: a secretária ligou dizendo que ele estava na recepção. Fazia um tempo que ele tinha dito que iria conhecer a nova programação visual da agência onde eu trabalhava como diretora de criação. Fui alegre buscá-lo no hall, mas o encontrei com uma fisionomia triste. Explicou que estava tenso com o trabalho e eu não pensei noutra possibilidade. Era assim mesmo que ele ficava no início da gestação de uma campanha.

No meu caso, eu estava gestando você. Trinta semanas de gravidez e você mexia sem parar na minha barriga. Eu só conseguia pensar na sua chegada.

A visita foi rápida. Eu ia almoçar com um amigo e nos despedimos. No final do expediente ele me mandou um email pedindo minha opinião sobre os primeiros layouts que fez para a tal campanha. Lindos, como sempre. Espero que dessa vez ele tenha acreditado.

Da agência fui ao shopping comprar coisas que faltavam pra sua chegada. Estava diante de uma vitrine quando atendi ao telefonema dele: “Você tá onde mais gosta, né, amor?” Ri, mas confessei estar triste comigo mesma por ainda ser tão consumista. Apesar dos 36 anos, ainda me sentia imatura para ser mãe. “Amor, estamos começando uma fase tão nova das nossas vidas”, ouvi sua voz dizendo. Rodei o shopping e mais tarde liguei contando que eu tinha comprado o bebê-conforto. Ele não gostou, tínhamos combinado de ele mesmo comprar, mas o preço era bom e meu senso prático falou mais alto. Combinamos de nos ver na minha casa mais tarde.

Antes de entrar na garagem do prédio, vi que ele me esperava na porta. “Que sintonia”, ele disse, pois tinha acabado de chegar. Depois de um abraço longo e silencioso, subimos pro apartamento. Na sala, ele parou pra observar a cortina que tinha acabado de ser instalada. Tinha me ajudado a pensar em cada novo detalhe da sala nova. Calado, fechou a cortina, olhou minuciosamente e demonstrou ter aprovado.

Vi que ele estava de fato triste. Chorando, pedi que ele me desculpasse. “Não é por não querer esperar você, mas há tanto tempo eu só conto comigo mesma, que não sei esperar o tempo do outro.” E continuei dizendo que aquele apartamento, a decoração nova, o seu quarto que estava para ficar pronto, tudo só fazia sentido com a presença dele na minha casa.

“O seu amor é tão bonito”, ele disse. Foi quando eu vi que ele também estava chorando. Sentados no sofá, minhas pernas no colo dele, suas mãos na minha barriga, sentimos você se mexendo mais uma vez. E ficamos um tempo abraçados.

O clima ficou mais leve quando partimos fomos testar a babá eletrônica que eu havia comprado. Foi divertido imaginar a casa já habitada por um bebê. Levemente irritado, ele percebeu que um dos sensores não funcionava. Separei o aparelho pra trocar no dia seguinte.

Eu disse que tinha fome, ele fez uma pizza rápida e, depois que eu comi, se levantou pra ir pra casa. Não sei por que eu não o chamei pra dormir comigo naquela noite. Costumávamos dormir juntos uma ou duas noites durante a semana e, nos fins de semana, de sexta a domingo. Mas eu não estava ansiosa pela sua presença. Vi que ele preferia ficar sozinho e isso era bonito entre a gente: respeitávamos o espaço um do outro.

Na porta, um abraço, talvez alguns beijos. Não me lembro de ter dito ou ouvido alguma declaração de amor. Antes de ir, ele me olhou de longe e disse “Parabéns”, sorrindo com os olhos. Demorei pra entender que era por causa da minha campanha aprovada naquele dia – que eu tinha passado o sábado inteiro criando.

E “parabéns” foi a última coisa que ele me disse. Depois desceu as escadas, eu fechei a porta. Como se houvesse amanhã.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Desejos.

Pequenos rituais são importantes nos momentos de passagem. Naquele 31 de dezembro, na praia, todos escreveram secretamente a sua lista de pedidos. Eu me lembro de ver seu pai já com o papelzinho dobrado, como se há muito soubesse o que queria – e como se o soubesse com exatidão. Depois de meses pensei nessa cena com algum ressentimento e, sempre, com muita curiosidade: o que será que ele pediu? Quanto a mim, passei um tempo insegura até dobrar o tal papel. Tive medo de esquecer alguém ou alguma coisa importante. Eu me lembro de ter pedido por minha família e meus amigos. Pedi saúde pra você. E pedi por nós, por esse amor que eu sentia tão raro e tão bonito: que ele fosse pra sempre, que nunca deixássemos de ser uma família. Devo ser justa. Meus pedidos foram atendidos.

De perdas somos feitos.

Minha mãe não conheceu o pai, mas teve mãe até o fim da vida. Meu pai também teve essa sorte. Em compensação, experimentou a perda do pai. Eu tinha sete anos quando meu avô morreu, mas nos conhecíamos tão pouco, que para mim não chegou a ser uma perda. O outro avô não perdi, já que não se pode perder o que nunca se teve: o marido de minha avó morreu quando ela tinha 23 anos, deixando-lhe três filhas, uma delas na barriga – essa era minha mãe.

Já minha outra avó perdeu uma irmã para ganhar um marido: justamente o viúvo da irmã, com quem se casou um pouco relutante. Por outro lado, teve a sorte de ver sua mãe completar 103 anos.

A morte dessa bisavó foi minha primeira grande perda, responsável por marcar minha estréia nos enterros. Eu tinha onze anos e tocava incessantemente o rosto dela no caixão, tentando entender a morte de perto.

Até meus 34, tive o privilégio de ter as duas avós. Mas tudo na vida tem um preço: uma perdeu a filha e outra, o filho, contrariando a ordem natural das coisas. Do meu ponto de vista, a perda da minha mãe e do meu pai para a mesma doença, com um intervalo de cabalísticos sete anos entre um e outro, não me soa nada natural. Perder os pais é coisa normal e corriqueira, desde que não seja com a gente.

Ao longo do tempo, fui percebendo que para cada um a perda tem uma cara e um tamanho.

Meu irmão mais velho perdeu a mãe, ganhou a filha, perdeu o pai e ganhou um filho. Meu outro irmão perdeu os pais e ganhou a chance de descobrir a força que tem. Minha irmã ganhou uma filha e perdeu a mãe, ganhou outra filha e se perdeu do pai. Depois ganhou uma terceira filha sem nem ter planejado - e então o pai se foi de vez. Com minha outra irmã, muito organizada, não poderia ser diferente: ganhou a filha, perdeu a mãe; ganhou o filho, perdeu o pai.

Meu ex-marido também perdeu o pai e, além dele, dezenas de cães que eram como parentes. Há pouco tempo, nos perdemos um do outro. Mas ganhamos outras coisas. Minha ex-sogra, por sua vez, perdeu o marido e o irmão no mesmo dia.

Tenho uma amiga que ganhou um filho, mas por conta do pai do menino perdeu a paz.

Minha amiga Adriana perdeu seu avô quando ele tinha 108 anos. Para alguns, ele já estava no lucro. Para ela, a dor foi proporcional aos anos vividos. Há pouco veio um golpe mais forte: perdeu um irmão de 32 anos. Passou semanas com o lenço na mão.

Minha amiga Kica ganhou dois filhos, depois perdeu o projeto de um terceiro e mais tarde, surpresa: ganhou duas filhas de uma vez. Pulou de dois para quatro.

Minha prima Fernanda esperou muito por um filho, que perdeu logo no início da gravidez. Mas tratou de encomendar outro rapidinho. É Luiza que já tem três anos.

Minha amiga Juliana perdeu o avô e depois a avó, ganhou uma filha e muitos hectares de terra. Não que eles substituam a geléia de goiaba e o biscoito de polvilho que a avó fazia. Mas a beleza da vista da fazenda não tem preço.

Meus pequenos primos Bruno e Laura perderam pai e mãe de uma só vez, sem ter idade para entender o que isso significa. E foi assim, perdendo um irmão, que minha prima Maria Regina ganhou dois filhos.

Minha amiga Cecília é meio sueca, meio brasileira. Quando está na Suécia, perde o que há de melhor no Brasil. Quando está no Brasil, perde as coisas boas do primeiro mundo. Resultado: está sempre de malas prontas. Mas depois de ganhar o filho Matteo, nada disso tem importância: desde que ele vá, todo lugar é seu.

Minha amiga Pi perdeu o pai em circunstâncias parecidas com as minhas. Nunca perdeu a classe nem o bom humor. E agora vai ganhar um filho.

Meu amigo Henrique perdeu a mãe, perdeu o pai, perdeu um grande amor, perdeu outros, perdeu até o rumo de casa. Há pouco ganhou mais um filho. E já encontrou novos caminhos.

Também aprendi a perder. Mãe e pai, pra começar. O dinheiro todo que gastei ao longo da vida, não considero perda. Perdi foi muita paciência. Tempo em discussões inúteis. Viagens. Algumas oportunidades. E um anel que desapareceu em casa, tempos atrás, de forma sobrenatural. Há seis anos perdi o nome de solteira e ganhei um mais bonito. Mas pra voltar a me encontrar, abri mão dele com prazer. Perdi dois filhos, antes mesmo de existirem. Depois ganhei prêmios pelos quais ansiava há muito tempo. Ganhei prestígio também. Há três anos perdi minha avó, amiga, luz, graça, almoço, domingo, caminha. Aos 95 anos, tinha a vontade de aprender dos dezoito. Mas sou egoísta: queria que ela ficasse muito mais.

Nos últimos quatro anos me separei, perdi dinheiro, casa montada, planos e muito mais. Encontrei seu pai pelo caminho e com ele vivi a forma mais intensa e urgente de amor. Inesperadamente, ganhamos você, filho. E enquanto você vinha, ganhei mais amor, carinho, cuidado, tudo o que alguém sempre sonhou ganhar na vida amando outro alguém. Mas, antes mesmo que você chegasse, surpresa: seu pai se foi suave e livremente, bem ao seu estilo, deixando um pouco dele em mim, levando um pouco de mim com ele. Perdi o amor, ganhei o filho - ficou o amor transformado em gente.

Não pensei que fosse possível ficar ainda mais órfã. A dor de minha outra avó, que eu citava com um certo orgulho, estava reservada também para mim.

Mas, é incrível: quando a gente perde alguém, não falta um pedaço. Esse alguém passa a fazer parte da gente.

E agora ganhei você: nasci mais uma vez. Sou eu inteiramente nova, embrulhada pra presente.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Ele era bonito demais.

De: guifraga
Data: 15 de fevereiro de 2006 12h4min53s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: eu

oi amor, é só pra te mandar uma foto minha. A Telida que tirou. (foto verdade, não contém retoques)

com amor, G

sábado, 12 de janeiro de 2008

Hoje cedinho.

De: guifraga
Data: 12 de junho de 2006 9h46min4s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: hoje cedinho

acordei pensando tanto em você.

um beijo bom, Gui

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Estávamos separados, fazia pouco mais de vinte dias. E eu me lembro como se fosse agora: do friozinho na barriga ao abrir minha caixa de emails e encontrar este aí em cima. Hoje, senti uma coisa muito parecida ao passar em frente ao apartamento onde seu pai morava. Coração, quando ama, pensa até nas impossibilidades.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Corações.

Tem dias que é especialmente difícil olhar pra você e não desabar pela ausência do seu pai. Dias como hoje pela manhã, em que você comia seu pedacinho de pão sem tirar os olhos de mim - aqueles olhos que, apesar de terem muito dos meus, olham fundo como os do seu pai. De dois em dois minutos você dava aquele sorriso largo que, você já sabe, derrete qualquer um. Fico a imaginar o quanto ele perdeu, filho. Penso na cara deliciosa que ele faria com você no colo. Não fico pensando nisso. Mas de vez em quando lembro e dói. Dói a falta que ele me faz, sim. Mas hoje doeu especialmente a falta que ele faz a você, a falta que você fez a ele. E como que para retribuir aquele tempo em que seu coração bateu por nós dois dentro de mim, sofro no seu lugar. E no lugar dele. Por essas faltas que não são minhas, mas que já fazem parte de mim. Mas eu reconheço que sou privilegiada. Vocês se perderam um do outro. Eu tive a sorte de ter os dois.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Divina tecnologia.


Você nasceu na era da internet, filho. E talvez um dia ache isso muito comum. Mas para nós, nascidos nos anos 70, isso acontece feito mágica. Como um dia abrir esse blog e encontrar nos comentários um amigo de infância do seu pai. Alguém de quem ele já tinha falado muitas vezes, mas que não via há muito tempo e, por isso, nunca teve a chance de me apresentar. Com o Marcel e com o Tio Vítor, seu pai viveu grandes aventuras. E meses atrás chegou às minhas mãos essa foto dos três, que mais parece um quadro. Pois algum tempo depois, aqui, nesse espaço que não é físico, eu e o amigo do seu pai nos encontramos por acaso. E os nossos corações falaram emocionados sobre uma mesma pessoa que conhecemos em tempos diferentes. "Com 11 anos ele já tinha uma veia poética, pois terminava as cartas me chamando de 'amigo dos amigos'", ele me contou. Não é maravilhoso, filho? Não paro de encontrar motivos para amar seu pai. E ainda tenho tanto dele pra conhecer.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Rir, rir, rir.


Tava vendo umas fotos que fiz hoje pro meu blog de moda e entendi por que eu e seu pai nos dávamos tão bem. A gente era palhaço o mesmo tanto, filho. Até no jeito de corpo. Acho que você também vai ser.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Palavras reveladoras.

"Uma fofura. Um amigo. Uma flor. Uma pedra preciosa. Um abraço. Um doce. Uma perfeição. Uma bondade. Um charme. Um homem. Umas palavras. Uns gestos. Uma voz. Um olhar. Uma gentileza. Uma delicadeza. Um sem igual. Se uns 10% da população fossem iguais a ele, talvez o mundo tivesse solução."

Foi o que escrevi como depoimento na conta recém-inaugurada de orkut do seu pai, tão logo eu aderi à modinha. A gente não tinha absolutamente nada um com o outro, a não ser uma grande amizade. Alguns meses depois eu estava sentindo o mais arrebatador sentimento que eu já tinha experimentado.

Preciso prestar mais atenção no que escrevo, filho. Minhas palavras me dizem coisas surpreendentes.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Estamos na imprensa, filho.


Em matérias diferentes nas revistas Criativa (Editora Globo) e Gloss (Editora Abril) de janeiro. É mais gente com quem compartilhar a nossa história. Se tem sido tão bom pra mim, pode ser bom pra muitas outras pessoas.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Só pra ilustrar.

O email que mandei:

On 18/04/2006, at 17:27, Cristiana Guerra wrote:

Amor,

Temos um coquetel hoje.
Ótima oportunidade para estrear meu vestidinho.

Vamos?

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A resposta do seu pai:

De: guifraga
Data: 18 de abril de 2006 17h54min11s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: Convite Ogilvy

Pra ver o sax tocar.

Hoje amanheceu um dia lindo e fomos passear na Praça da Liberdade. Seu pai talvez nos levasse a um lugar mais original, mas eu particularmente ainda gosto muito desse pedaço da cidade. A primeira vez que estivemos lá foi muitos meses atrás, eu, você e a babá, mas era inverno e fomos embora logo porque ventava muito. Passeamos e as fontes estavam especialmente bonitas com a luz do sol. Quando passamos para o lado do coreto, não havia nenhuma programação musical. Mas um homem estava sentado num banco da praça tocando "Como é grande o meu amor por você" no saxofone. Lembrei que há pouco tempo eu soube que seu pai já tocou sax, além do piano. Não tivemos a chance de ele tocar pra mim, mas música era uma forma de a gente se comunicar. E uma vez ele me enviou essa por email. "Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você". Nessas horas eu sempre penso: mesmo tendo ido há quase um ano, ele sempre arruma um jeito de falar com a gente, filho.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Amor e Humor moram juntos.

De: guifraga
Data: 11 de outubro de 2006 9h32min16s GMT-03:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: Re: A granola encantada.

amor, que goshtoso!!!!
fico feliz demais que vc tenha gostado. amo você, linda.

um beijo bom e visionário
Gui


On 11/10/2006, at 09:50, Cristiana Guerra wrote:

Amorzinho, que granola mais gostosa. Comi com prazer e, quando vi, já estava colocando mais.

O Francisco, antes mesmo de conhecer o pai, já é seu fã.
Afinal, você foi responsável pela primeira obra importante na vida dele:
a implantação do serviço de limpeza urbana próximo ao seu local de moradia.

Um visionário, praticamente um JK.

Que carinho, amor. Você é o máximo.

Um beijo, bom dia.

Cris.